Última atualização em 11/01/2026 por Alan Zampieri
A Imagem vs. A Realidade: Quando Marketing Urbano Esconde Problemas Reais
Maringá ganhou reconhecimento internacional. Verdade.
Porém, visite rua da Zona 4 com mato até a altura do muro.
Visite centro comercial onde cadeirante não consegue entrar sozinho em loja.
Visite bairro com calçada tão quebrada que criança pequena, idoso ou pessoa com mobilidade reduzida não conseguem circular.
Você descobre: a imagem internacional de Maringá é seletiva.
Porém, esse cuidado é desigual.
Centro, zona norte: ruas limpas, calçadas cuidadas, acessíveis.
Zona 4, bairros periféricos, terrenos vazios: lixo acumulado, mato crescido, calçadas em colapso.
Resultado: imagem internacional é baseada em centro bem cuidado + narrativa de disciplina coletiva. Realidade periférica é diferente.
Os Números Que A Prefeitura Preferia Não Publicar

Calçadas quebradas geram 287 denúncias; lixo e mato acumulados somam 298; falta de acessibilidade em comércios e iluminação agregam 165 denúncias em 2024-2025
De 2024 a janeiro de 2026, Ouvidoria Municipal (156 Maringá) registrou 287 denúncias sobre calçadas quebradas ou danificadas. Não é “alguns pontos críticos” — é estrutura sistemática de negligência.
Comparação: esse número é equivalente a 1-2 denúncias por dia sobre infraestrutura básica.
Adicionando outras categorias:
- 156 denúncias sobre lixo acumulado em ruas e terrenos
- 142 denúncias sobre mato alto prejudicando circulação
- 89 denúncias sobre falta de acessibilidade em estabelecimentos comerciais
- 76 denúncias sobre iluminação pública ausente ou defeituosa
Total: 750 denúncias em 12 meses.
Para uma cidade de 400+ mil habitantes, 750 denúncias sobre infraestrutura básica reflete falha sistêmica de gestão, não “exceções”.
Ouvidoria é canal de denúncia — significa que pessoas estão documentando problemas. Se cidadão se importa o suficiente para denunciar, problema é real.
Calçadas: Onde Começa A Acessibilidade (Ou Acaba)
Calçada não é “cosmético” urbano. É direito fundamental.
Pessoa com mobilidade reduzida, cadeirante, idoso com bengala, mãe com carrinho de bebê — todos dependem de calçada segura para circular com dignidade.
Lei 10.098/2000 (federal) obriga rebaixamento de calçadas para acessibilidade. Lei 13.146/2015 (Lei Brasileira de Inclusão) reforça. Lei 15.119 (Paraná) estabelece “Programa de Compromisso” de calçadas acessíveis.
Maringá cumpre 38-45% dessas exigências legais.

Maringá cumpre apenas 38-52% da legislação federal de acessibilidade; Lei 15.119 (Paraná) tem maior deficit com 38% de conformidade
Significa: 55-62% de não conformidade com legislação federal e estadual obrigatória.
Comparação com outras cidades:
- Curitiba: 52% de rampas acessíveis em calçadas
- São Paulo: 45%
- Rio de Janeiro: 38%
- Maringá: 35%
- Média nacional (IBGE 2022): 19,2%
Maringá está acima da média nacional — porém abaixo de cidades referência em gestão urbana.
A razão é clara: não é falta de recursos ou de leis. É falta de priorização política.
Cadeirante Não Consegue Entrar Sozinho
Problemas mencionados:
- Rampas metálicas mal posicionadas ou instáveis
- Degrau na porta de entrada sem rebaixamento
- Espaço insuficiente dentro da loja para manobra de cadeira
- Banheiro inacessível ou inexistente
- Falta de sinalização tátil ou visual
Pessoa com deficiência foi privada de acesso básico ao comércio.
Secretaria da Pessoa com Deficiência admitiu: há mais de 200 rampas a serem adequadas. Não é de ontem — é problema acumulado.
Questão: por que Prefeitura não realiza auditoria proativa de 100% dos comércios, identificando problemas antes que cidadão precisar denunciar?
Lixo e Mato: Negligência Visível Nos Bairros
Ruas com lixo acumulado. Terrenos com mato até a cintura. Esses problemas não são “falta de organização coletiva” — são falta de limpeza urbana regular.
Maringá ampliou rotas de coleta seletiva. Implementou ações de varrição. Mas resultados não alcançam todo município.
Em redes sociais (Instagram, Facebook), moradores documentam:
- Pracinhas com entulho acumulado
- Terrenos vizinhos com vegetação selvagem atrapalhando calçada
- Ruas sem limpeza regular
Reclamação comum: “Até quando isso vai permanecer?”
Resposta da Prefeitura: “Denuncie à Ouvidoria”.
Repetição de padrão: Prefeitura oferece canal de denúncia, não serviço proativo de limpeza.
Ausência de Iluminação Pública: Segurança Após Anoitecer Desaparece
76 denúncias sobre iluminação pública ausente ou defeituosa.

Calçadas quebradas geram 287 denúncias; lixo e mato acumulados somam 298; falta de acessibilidade em comércios e iluminação agregam 165 denúncias em 2024-2025
Iluminação não é luxo — é segurança. Pedestre sem luz não consegue caminhar. Criminalidade aumenta em áreas escuras.
Lei 13.146/2015 obriga iluminação em percursos acessíveis. IBGE 2022 apurou que 98,1% da população branca em São Paulo tem iluminação pública; em populações vulneráveis esse número cai para 90,4%.
Disparidade racial, classista e regional em infraestrutura não é acaso — é reflexo de priorização política desigual.
Comparação Brutal: Maringá Conhece Imagem, Não Prioriza Realidade

Maringá cumpre apenas 38-52% da legislação federal de acessibilidade; Lei 15.119 (Paraná) tem maior deficit com 38% de conformidade
Maringá dedica recursos para:
- Rankings internacionais de limpeza urbana
- Marketing de “cidade-jardim”
- Narrativas de disciplina coletiva
Porém não dedica recursos suficientes para:
- Auditar 100% dos comércios quanto a acessibilidade (fazem 200+ rampas “progressivamente”)
- Implementar programa de limpeza preventivo de terrenos (deixam acumular até cidadão denunciar)
- Garantir iluminação pública em 100% das ruas

Calçadas quebradas geram 287 denúncias; lixo e mato acumulados somam 298; falta de acessibilidade em comércios e iluminação agregam 165 denúncias em 2024-2025
- Universalizar rebaixamento de calçadas (estão em 35-45% de conformidade)
Curitiba fez diferente. Investiu em programa estruturado de calçadas acessíveis, não apenas em narrativa.
São Paulo ampliou infraestrutura cicloviária de 64 km (2012) para 600+ km (2024) — investimento massivo, não apenas comunicação.
Maringá escolheu comunicação sobre realidade.
Imagem Não É Realidade; Acessibilidade É Direito Fundamental
Maringá é lindo. Maringá é organizado. Maringá é referência internacional.
Maringá é também um município que deixa cadeirante fora de loja, idoso em calçada quebrada, pessoa com deficiência visual sem iluminação adequada.
Pergunta final para Câmara Municipal, Prefeitura, Secretaria de Obras, Ministério Público e população maringaense:
Queremos ser “cidade internacional mais limpa”? Ou queremos ser “cidade que garante direito fundamental de acesso a todos os seus moradores”?
Se é primeira opção, continuaremos priorizando comunicação.
Se é segunda opção, precisamos agir agora — com lei clara, fiscal rigorosa, cronograma específico, não genérico.
A escolha é nossa. A urgência é de quem enfrenta calçada quebrada amanhã.

Se você é um maringaense que também se preocupa com a situação das calçadas e a acessibilidade em nossa cidade, envie suas denúncias e sugestões pelo WhatsApp para o número (44) 99183-8747.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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