Última atualização em 16/02/2026 por Alan Zampieri
O que é, afinal, esse Gabinete Itinerante que a Câmara anunciou?
Mas, em gestão pública, boa ideia de comunicação precisa ser acompanhada de boa prática de responsabilidade fiscal. E é aqui que entra a pergunta que não quer calar: é possível aproximar a Câmara do maringaense sem continuar inflando estrutura, cargos e despesas?
Quanto custa manter a “proximidade” quando a máquina não para de crescer?
Antes de discutir se o Gabinete Itinerante da Câmara de Maringá é uma ferramenta de participação cidadã ou apenas mais um palco de marketing político, vale olhar para os números recentes do Legislativo.
Em 2025:
- Orçamento disponível: R$ 58 milhões;
- Gasto efetivo: R$ 48 milhões;
- Despesa com pessoal: cerca de R$ 42 milhões;
- Devolução à Prefeitura: R$ 10,6 milhões no fim do ano, como sobra orçamentária.
O gráfico abaixo mostra, de forma simples, essa evolução orçamentária:

Em paralelo, o maringaense viu:
- aprovação de 25 novos cargos comissionados, elevando de 112 para 137 CCs na estrutura do Legislativo, com impacto de R$ 2,9 milhões por ano;
- a constatação, em levantamento do Maringá Post, de que a Câmara de Maringá tem mais comissionados do que 27 prefeituras da região, incluindo cidades de médio porte;
- aumento explosivo nas diárias de viagens: de R$ 7,6 mil em 2024 para R$ 81 mil até outubro de 2025, mais de dez vezes o valor do ano anterior.
Nessa conjuntura, é legítimo o questionamento: quem vai pagar a conta do gabinete que agora pretende rodar os bairros para ouvir a população?
Gabinete Itinerante: aproximação real ou palco caro sobre rodas?
Do ponto de vista de política pública, iniciativas itinerantes do Legislativo podem gerar bons resultados quando:
- têm objetivos claros (escutar, prestar contas, construir agenda de prioridades);
- são planejadas com metodologia de participação social (ouvidoria estruturada, registros, devolutivas);
- não se transformam em show itinerante, com mais forma que conteúdo.
No caso de Maringá, até aqui:
- não há resolução publicada detalhando regras, custos ou limites do futuro Gabinete Itinerante;
- não se sabe se haverá veículo próprio, tenda fixa, equipes adicionais, locações de estrutura ou aumento de diárias para deslocamento de vereadores e assessores;
- tampouco foi anunciada qualquer contrapartida de enxugamento (redução de cargos, redistribuição de funções, teto de diárias) atrelada à criação dessa agenda itinerante.
Em outras palavras: o risco é transformar uma boa ideia de aproximação em mais um item de vitrine, sem atacar o ponto nevrálgico que o maringaense já sente no bolso e nas notícias de política local: a máquina cresce mais rápido do que a capacidade de entregar eficiência e transparência.
Pontos fortes e fragilidades da proposta, sob a ótica de gestão
Lendo o cenário com olhar de gestor, é possível reconhecer virtudes e problemas na combinação entre o Gabinete Itinerante da Câmara de Maringá e o atual desenho institucional do Legislativo.
Pontos fortes
- Aproximação territorial: levar a Câmara para os bairros pode facilitar o acesso de moradores de regiões afastadas, que raramente conseguem ir ao plenário em horário comercial.
- Potencial de escuta ativa: bem desenhado, o gabinete itinerante pode funcionar como ouvidoria avançada, coletando dados sobre demandas de mobilidade, saúde mental, juventude, educação, segurança e lazer.
- Oportunidade pedagógica: a presença do Legislativo nos bairros pode ser usada para educação cívica, explicando como funciona um projeto de lei, o orçamento municipal e os canais de participação.
Fragilidades
- Incoerência fiscal: adotar discurso de “Câmara mais próxima do povo” ao mesmo tempo em que se aumenta o número de comissionados, eleva-se o orçamento em 40% e se gasta dez vezes mais em diárias fragiliza a narrativa de eficiência.
- Risco de clientelismo itinerante: sem regras claras, o gabinete pode virar ponto de troca de favores, em vez de espaço de planejamento de políticas públicas sustentáveis.
- Baixa cultura de avaliação: não há, até agora, qualquer compromisso público de medir resultados: quantas demandas pretendem registrar, quantas viraram projetos, quantas sairiam do papel.
Numa cidade com forte setor produtivo, grande comunidade acadêmica e sociedade civil organizada, a expectativa é maior: não basta estar “perto fisicamente”; é preciso estar perto em responsabilidade e transparência.
Experiência de outras cidades: dá para ouvir mais gastando menos
Como já mencionado, não é a primeira vez que um parlamento se move na direção de gabinetes itinerantes. Alguns exemplos ajudam a calibrar o debate:
- A Assembleia Itinerante da Alep, ao vir à Expoingá, estrutura sessões especiais com foco em ouvir demandas regionais e prestar contas, dentro de uma estratégia mais ampla de interiorização, sem criação de estruturas permanentes extras para cada cidade.
- Em Vera (MT), a resolução do Gabinete Itinerante deixa claro que não há custos adicionais para Câmara e Prefeitura: a responsabilidade pelo formato é do próprio vereador interessado, que usa sua equipe e estrutura já existente.
- Em Chapada do Norte (MG) e em outras prefeituras que adotaram gabinetes itinerantes no Executivo, a ênfase tem sido em escuta e organização das demandas locais, com agendas concentradas e uso otimizado de equipes, evitando duplicação de estruturas.
O que diferencia boas práticas de mau uso do conceito é justamente isso: clareza sobre quem paga, quanto custa e o que se entrega em troca.
Participação com lupa na transparência
Se a sociedade maringaense quer transformar o Gabinete Itinerante da Câmara de Maringá em instrumento real de cidadania – e não em mero “palanque móvel” –, algumas atitudes podem fazer a diferença:
- Acompanhar a regulamentação: assim que o projeto de resolução for apresentado, vale que jornalistas, entidades de classe (OAB, ACIM, conselhos profissionais), pastorais e associações de bairro leiam o texto na íntegra e perguntem:
- há limites de custo?
- há proibição de criação de novos cargos para o programa?
- há metas e critérios de avaliação?
- Exigir indicadores claros: cobrar que a Câmara publique, anualmente, quantas pessoas foram atendidas pelo gabinete itinerante, quantas demandas viraram políticas públicas e quanto se gastou para fazer tudo isso girar.
- Conectar participação à eficiência: cada vez que se falar em ouvir a população, trazer junto para o debate os dados sobre diárias, cargos, orçamento e IPTU, para que a conversa sobre política não se descole da realidade fiscal da cidade.
- Valorizar quem faz mais com menos: em qualquer espaço de debate público – da paróquia ao conselho profissional – reforçar a importância de gestores que entregam resultado com responsabilidade orçamentária, sem usar a bandeira da participação para justificar máquina pesada.
No fim do dia, a pergunta que abre este artigo continua válida como bússola:
Se a Câmara quer ouvir de verdade a população, por que não colocar também na pauta a diminuição de cargos, o controle de diárias e o enxugamento da máquina, com mais eficiência e transparência?
Responder a essa pergunta com fatos, projetos bem desenhados e métricas públicas é o caminho para que o maringaense olhe para o Gabinete Itinerante não como mais um gasto, mas como um investimento sério na qualidade da democracia municipal.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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