Última atualização em 05/01/2026 por Alan Zampieri
O que é um Data Center e qual é a sua importância?
Os data centers são instalações que abrigam servidores e equipamentos de armazenamento de dados, essenciais para o funcionamento da infraestrutura digital moderna. Com o aumento da demanda por processamento de dados, especialmente em áreas como inteligência artificial e big data, a necessidade de centros de dados eficientes e sustentáveis se torna ainda mais evidente. O data center em Maringá será o primeiro na América Latina dedicado exclusivamente à inteligência artificial, posicionando a cidade como um hub estratégico para inovação tecnológica.
A Oportunidade Digital: Maringá no Centro da Transformação Tecnológica
Maringá vive um momento histórico. Após décadas consolidando sua posição como referência nacional em qualidade de vida e planejamento urbano — conquistando recentemente o primeiro lugar entre as melhores cidades do Brasil para se viver — a cidade agora desponta como protagonista na corrida pela infraestrutura digital. O projeto do data center de inteligência artificial da empresa norte-americana RT-One não é apenas um empreendimento imobiliário ou industrial comum. Trata-se de um catalisador de mudanças estruturais que pode reposicionar Maringá e toda a região noroeste do Paraná na nova arquitetura da economia digital global.

Capacidade instalada de data centers: Brasil está muito atrás dos líderes globais, mas o projeto em Maringá representa avanço estratégico
Soberania Digital e Competitividade Econômica: Por Que Maringá?
A escolha de Maringá por parte da RT-One não foi acidental. A multinacional — que já opera data centers nos Estados Unidos, México e Suíça — realizou análise técnica rigorosa identificando na cidade condições praticamente únicas no país. Primeiro, há disponibilidade de recursos naturais críticos: água de boa qualidade e energia em quantidade suficiente para alimentar uma infraestrutura de altíssima demanda energética. Segundo, existe ecossistema de conhecimento: Maringá abriga aproximadamente 500 mil acadêmicos matriculados em 12 instituições de ensino superior, sendo a Universidade Estadual de Maringá (UEM) referência nacional em pesquisa. Terceiro, a infraestrutura logística: o Aeroporto Regional já está alfandegado para movimentação de cargas internacionais, permitindo que a região funcione como hub de exportação.
Mas há algo mais profundo aqui. Segundo o Governo Federal, através da Medida Provisória nº 1.318/2025, que instituiu o REDATA (Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter), estes empreendimentos deixaram de ser meros centros de computação para tornarem-se instrumentos de política pública federal. O REDATA não oferece apenas incentivos tributários — suspensão de IPI, PIS, Cofins e impostos de importação. Exige contrapartidas de desenvolvimento tecnológico, investimento em pesquisa e inovação com 40% destinado a regiões menos desenvolvidas. Impõe critérios de sustentabilidade ambiental rigorosos. Vincula os benefícios fiscais ao cumprimento de metas mensuráveis. Em outras palavras, transformou a atração de data centers em oportunidade de desenvolvimento com planejamento de longo prazo.
Para Maringá, especificamente, a Câmara Municipal aprovou, através de Lei Complementar nº 1.505, de outubro de 2025, a criação da Zona Especial de Desenvolvimento Econômico (ZEDE) nas imediações do Aeroporto Regional. A Zona de Processamento de Exportação (ZPE) — que ainda aguarda aprovação federal — segue regime diferenciado de tributação, cambial e administrativo. Empresas que ali se instalem devem destinar, no mínimo, 80% de sua produção para exportação. Em troca, ganham acesso a benefícios significativos que viabilizam operação global com custos competitivos.
O Impacto Econômico: Números Que Falam Sobre o Desenvolvimento Real
Quando se fala em impacto econômico de um data center, a narrativa comercial frequentemente destaca apenas números brutos. Mas é essencial ser preciso e técnico: quantos empregos realmente serão criados? Qual a natureza desses postos? Qual o impacto na arrecadação municipal?
A RT-One projeta a criação de aproximadamente 2 mil postos de trabalho entre diretos e indiretos. Esse número aparenta ambicioso inicialmente, mas encontra respaldo em estudos internacionais e na análise dos efeitos multiplicadores. Os empregos diretos — aqueles dentro do próprio data center — estimam-se em algumas centenas: engenheiros civis e elétricos, técnicos em telecomunicações, especialistas em segurança cibernética, analistas de redes, profissionais de manutenção, gestão ambiental e administração operacional.

Geração de empregos do Data Center em Maringá: efeito multiplicador através da cadeia de suprimentos
Há, porém, um ponto crítico frequentemente negligenciado: geração de renda tributária para o município e para o estado. A RT-One, operando dentro de uma ZPE com benefícios de desoneração fiscal, contribuirá menos em impostos federais durante o período de incentivo — até 20 anos conforme previsto. Contudo, estudos mostram que a cadeia de suprimentos local gera tributação significativa. Além disso, a operação em si, ainda que com incentivos, movimenta recursos na economia local que geram ICMS estadual e ISS municipal. Maringá, que já conquistou o primeiro lugar entre cidades brasileiras em qualidade de vida e que lidera em diversos indicadores socioeconômicos, teria oportunidade de diversificar sua matriz econômica, reduzindo dependência exclusiva do agronegócio — que, embora fundamental, concentra riscos em vulnerabilidades climáticas.
A análise SWOT (Forças, Fraquezas, Oportunidades, Ameaças) é clara: a oportunidade é real; a ameaça ambiental e de dependência tecnológica também existe; a força está na capacidade de infraestrutura da cidade; a fraqueza reside na falta de regulamentação ambiental específica e na necessidade de capacitação profissional acelerada.
Os Contrapontos Necessários: Quando a Técnica Encontra a Responsabilidade Ambiental
Ser pragmático não significa ser ingênuo. Os desafios ambientais e sociais de um data center de 400 megawatts são reais e demandam planejamento rigoroso.
Consumo de Água: Esta é a questão mais sensível. A água é um recurso finito, especialmente em períodos de seca — fenômeno que tem se intensificado nos últimos anos em São Paulo e que pode alcançar o Paraná. Um data center de grande porte consome volumes significativos de água, principalmente para resfriamento dos servidores, que funcionam 24 horas por dia, 365 dias por ano. A escolha da tecnologia de resfriamento é, portanto, crítica.
A diferença é dramática. Por isso, a exigência do REDATA de índice de eficiência hídrica (WUE) máximo de 0,05 L/kWh é fundamental. A RT-One comprometeu-se publicamente com tecnologia de controle ambiental “nunca antes vista no país” para uso consciente de água. Esse compromisso precisa ser verificável, auditável e com penalidades claras em caso de descumprimento. A Lei Complementar que criou a ZEDE em Maringá deveria incluir cláusulas específicas de monitoramento hidrológico, com relatórios públicos trimestrais sobre consumo de água.
Consumo de Energia: Um data center de 400 MW corresponde ao consumo energético de uma pequena cidade. Conforme a Anatel alertou em relatório público, a concentração de data centers deve ser descentralizada para evitar criação de novos gargalos na matriz energética nacional. Maringá tem capacidade energética superior, com acesso a hidrelétricas e fontes renováveis. Porém, o compromisso da RT-One de utilizar energia exclusivamente renovável (conforme MP 1.307) precisa ser monitorado. Alternativas como energia solar, eólica ou mesmo geração própria através de parcerias com empreendimentos renováveis locais deveriam ser priorizadas em editais de concessão.
Geração de Resíduos Eletrônicos: Data centers têm vida útil de servidores e equipamentos que gera resíduos eletrônicos. A Política Nacional de Resíduos Sólidos exige que geradores apresentem planos de gerenciamento específicos. Um data center de classe mundial geraria volumes consideráveis desses resíduos anualmente. Maringá deveria exigir, através de lei municipal, que a RT-One estabeleça centro de reciclagem de componentes eletrônicos na cidade, transformando potencial impacto ambiental em oportunidade de economia circular.
Impacto Socioespacial: A instalação de mega-projetos em regiões com boa qualidade de vida gera tentação ao desperdício de oportunidades de planejamento. A ZEDE não deve ser apenas uma “zona de segurança tributária”, mas um projeto integrado de desenvolvimento urbano sustentável. Questões como moradia de trabalhadores qualificados, mobilidade urbana, acesso a saúde e educação para esses profissionais devem ser pensadas de forma coletiva pela Prefeitura, gestão pública estadual e CT empresa privada.
O Que Outras Cidades Aprenderam: Casos Práticos de Sucesso e Alertas
Não partimos do zero em matéria de data centers no Brasil. Cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e até agora o Ceará (com a ZPE do Pecém) acumularam experiências que merecem análise cuidadosa.
A Experiência de São Paulo: A capital paulista concentra o maior número de data centers do país (aproximadamente 189 segundo dados de 2025). Em 2023, respondiam por 1,97% do consumo energético municipal. Porém, recentes investigações da Agência Pública revelaram que ao menos 19 data centers adicionais aguardam autorização do Ministério de Minas e Energia para se conectar à rede básica nacional. Essa pressão na infraestrutura energética levou a discussões sobre limites de capacidade de abastecimento. São Paulo também enfrentou debates sobre localização próxima a corpos d’água e áreas de proteção permanente. A lição: Maringá deve evitar concentração e estabelecer desde já limites claros de expansão, exigindo que futuros projetos de data center na região passem por avaliação integrada de impacto ambiental cumulativo.
A Zona de Processamento de Exportação do Ceará (Pecém): É o case de sucesso mais próximo. Instalada no Porto do Pecém, a ZPE do Ceará já está operacional e recebeu investimentos de empresas internacionais de porte. O impacto foi significativo na diversificação econômica estadual e na atração de empreendimentos complementares. Porém, auditorias da CGU (Controladoria-Geral da União) indicaram que os resultados em exportações foram “irrelevantes” em comparação com as projeções iniciais. A lição: impacto econômico real difere frequentemente das promessas iniciais. Maringá deveria estabelecer desde já indicadores de desempenho claros (quantidade de empregos realmente criados, salários médios, contribuição tributária real, desenvolvimento tecnológico local) e exigir relatórios públicos anuais.

Um Caminho para o Desenvolvimento Sustentável
O caminho para o desenvolvimento sustentável que proponho para Maringá envolve uma abordagem equilibrada, que integra o avanço tecnológico com a preservação ambiental e o bem-estar social. Este projeto nos oferece a chance de demonstrar que é possível conciliar crescimento econômico com práticas sustentáveis. Para isso, defendo a criação de uma comissão multidisciplinar que envolva especialistas em tecnologia, meio ambiente, economia e representantes da sociedade civil. Esta comissão será responsável por avaliar minuciosamente os impactos e benefícios do empreendimento, garantindo que o projeto esteja alinhado com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, aos quais Maringá já demonstrou comprometimento.
Proponho que o desenvolvimento do data center seja integrado ao projeto “Maringá em Dados”, fortalecendo nossa capacidade de monitorar e avaliar o progresso em direção aos ODS. Isso não apenas aumentará a transparência, mas também nos permitirá ajustar nossas políticas de forma ágil e eficiente. Além disso, devemos aproveitar esta oportunidade para expandir nossos programas de educação e capacitação, preparando nossa força de trabalho para os empregos do futuro. Parcerias com instituições de ensino locais serão fundamentais para criar currículos que atendam às demandas do setor de tecnologia.
Com essa abordagem integrada e sustentável, Maringá não apenas se beneficiará economicamente do data center, mas também se posicionará como um modelo de cidade inteligente e sustentável para o Brasil e o mundo. Este é o caminho que nos permitirá construir um futuro próspero e equilibrado para todos os maringaenses.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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