Última atualização em 06/01/2026 por Alan Zampieri
A Realidade Crua: Motociclistas Como Principais Vítimas do Trânsito Maringaense

Mortes no trânsito maringaense 2025: motociclistas representam mais da metade das vítimas fatais

Evolução das mortes de motociclistas em Maringá: crescimento preocupante entre 2020-2024 (dados parciais para 2025)
Qual é a causa? Especialistas convergem em análise: não é apenas questão de imprudência individual. O delegado Luiz Alves, que trabalhou na Semob, explicou bem: na moto, sem carroceria protegendo o corpo, qualquer colisão resulta em trauma severo. Um motociclista é usuário viário intrinsecamente vulnerável — exposição a colisões sem proteção, falta de estrutura física, maior probabilidade de lesões graves. Nacionalmente, uma motocicleta tem 17 vezes mais chance de morte em acidente comparado a automóvel.
A frota de motos em Maringá ultrapassa 47 mil veículos. Para contexto: no Brasil, são 35 milhões de motocicletas, um crescimento de 42% entre 2015 e 2024. Desproporção perigosa: motos representam menos de 25% da frota total, mas responsáveis por uma em cada três mortes no trânsito.
O Projeto de Lei: O Que Propõe, Quando Avança, Quem Vota
A Câmara Municipal de Maringá está discutindo projetos de lei (PLs nº 17127 e 17129/2025) que instituem a criação de faixas exclusivas e bolsões de proteção para motocicletas nos semáforos da cidade. A sinalização já está em teste em alguns cruzamentos — a Secretaria de Mobilidade anunciou implantação de 30 novos bolsões em até 60 dias.
O que são bolsões? Espaços demarcados à frente dos demais veículos nos cruzamentos semafóricos, reservados exclusivamente para parada de motocicletas durante sinal fechado. Quando semáforo abre, motociclistas ganham preferência de arrancada.
A lógica parece simples. Porém, aqui mora a complexidade que o debate público maringaense deve aprofundar.
Os Pontos Fortes: Por Que Bolsões Funcionam (Quando Bem Executados)
São Paulo implementou sua “Faixa Azul” desde 2022. Resultado: redução de 47,2% nas mortes de motociclistas nos trechos com sinalização, caindo de 36 óbitos em 2023 para 19 em 2024. A cidade possui atualmente 232,7 quilômetros de faixas azuis e quase 1.100 “moto boxes”. Relatório da CNN Brasil, em novembro de 2024, documentou que faixas exclusivas para motos têm “alguma melhora” comprovada em estatísticas.
Curitiba começou testes em 2019 na esquina das Marechais Deodoro e Floriano Peixoto, no centro. A Superintendência Municipal de Trânsito (Setran) relatou que a proposta “melhora a segurança no trânsito da região”. A cidade expandiu para outros cruzamentos e continua monitorando.
O Distrito Federal aprovou, em novembro de 2025, projeto de lei (PL nº 1175/2024) instituindo bolsões de proteção obrigatória em vias públicas com semáforos. Justificativa: reduzir ocorrência de acidentes e promover segurança viária.

Políticas de segurança para motociclistas: comparação entre cidades brasileiras mostra São Paulo em destaque
Os Pontos de Preocupação: Infraestrutura sem Educação é Edifício sem Fundação
Porém — e este é o “mas” crucial — qualquer vereador em Maringá consciente deve fazer a pergunta desconfortável: infraestrutura de bolsões vai funcionar em Maringá se houver desconexão com educação sistemática, fiscalização efetiva e manutenção contínua?
Educação: O Elo Mais Fraco
Professor Vitor Rhein Schirato, da Faculdade de Direito da USP, alertou em análise recente que políticas públicas de trânsito no Brasil frequentemente visam “controle e fiscalização” mais que “segurança dos motoqueiros”. Faltam, segundo ele, políticas robustas focadas em educação.
Em Maringá, quantos motociclistas realmente entendem como usar um bolsão? Quantos sabem que parar sobre ele é infração de trânsito, conforme a própria Secretaria de Mobilidade alertou em postagem no Instagram? Quantos compreendem noções básicas de pilotagem defensiva?
Dados locais são preocupantes: entre janeiro e julho de 2025, foram registradas 299 apreensões de motociclistas sem Carteira Nacional de Habilitação (CNH) — média de 42 casos por mês. No Paraná, 1,8 milhão de motociclistas não possuem habilitação na categoria B. Existe, portanto, volume massivo de condutores operando motos sem formação legal.
A solução que Schirato e especialistas da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) defendem é cursos de direção defensiva específicos para motociclistas. Alfredo Barbosa, diretor do Sindicato dos Empregados Motociclistas do RJ, experimentou 17 acidentes em sua vida e elaborou cartilha educativa porque “orientações contra acidentes são muito básicas e não suficientes”. Defendeu: “curso de direção defensiva que não reprove ninguém”, pois “domínio da moto você ganha com tempo”.
Maringá deveria exigir, como contrapartida ao funcionamento dos bolsões, programa permanente de educação em segurança viária. Não é burocracia — é prevenção.
Fiscalização: A Lacuna Invisível
Infraestrutura sem fiscalização vira decoração. De janeiro a setembro de 2025, Maringá registrou 2.773 autuações por uso de celular ao volante. Número chocante. Porém, quanto desses flagrantes resulta em efetiva redução de comportamento de risco? Ou as multas viram mero custo operacional para motoristas infratores?
Na capital paulista, pesquisadores do G1 documentaram motociclistas furando sinal, empinando motos em trânsito movimentado e andando na contramão — em julho de 2025, mesmo mês em que houve aumento de 12% nas mortes. Ou seja, fiscalização existe, mas imprudência continua.
Para bolsões funcionarem em Maringá, é necessário:
- Equipes de fiscalização dedicadas, com moto (para alcançar locais movimentados)
- Abordagem educativa (advertência inicialmente) combinada com multa para reincidentes
- Integração com câmeras de vigilância (em cruzamentos onde bolsões forem instalados)
- Relatórios públicos mensais sobre infrações e sua redução
Sem isso, bolsões viram “parques de motos” onde imprudente fura sinal com mesma desenvoltura.
Manutenção: O Detalhe Que Maringá Frequentemente Negligencia
Maringá é cidade de destaque em planejamento urbano. Porém, a história da manutenção de infraestrutura em Maringá é contraditória. Ciclovias existem, mas mantidas de forma inconsistente. Parques públicos têm períodos de abandono. Equipamentos municipais sofrem depredação que não é reparada rapidamente.
Bolsões demandam manutenção regular:
- Repintura de marcações (a chuva ácida do Paraná degrada pintura)
- Verificação de sinalizações danificadas
- Limpeza de detritos que comprometem segurança
- Monitoramento de efetividade (dados sobre quantidade de motos usando bolsões)
Maringá deveria instituir lei de manutenção específica para bolsões, com cronograma trimestral público. Responsabilidade atribuída a secretaria específica, com orçamento alocado, e penalidades claras por não cumprimento.
Convergência com Bandeiras de Outros Formadores de Opinião
Vários atores da política maringaense já defendem questões convergentes. Líderes que focam em trânsito entendem que infraestrutura é pilar. Aqueles que defendem saúde mental reconhecem que traumas de acidentes geram impacto psicológico significativo. Defensores de educação sabem que educação no trânsito começa nas escolas.
O que todos esses temas compartilham é reconhecimento de que problema estrutural demanda abordagem multissetorial. Bolsões são ferramenta, não solução completa. Precisam de educação (escolas, cursos), fiscalização (Semob com recursos), saúde (preparação hospitalar), e comunicação (campanhas contínuas sobre segurança).
O Que Cidades Maiores Aprenderam
São Paulo: Sucesso com Ressalva
São Paulo investiu pesadamente em Faixa Azul e redução em acidentes é documentada. Mas — e é importante notar — São Paulo combinou infraestrutura com: (1) campanhas educativas massivas (Maio Amarelo, Pit Stop Educativo); (2) multas de trânsito rigorosas (motociclista furando sinal leva 7 pontos na CNH e multa de R$ 293,47); (3) tecnologia (radares identificam excesso de velocidade, circulação em vias restritas).
Mesmo assim, em julho de 2025, São Paulo viu mortes subirem 12%, evidenciando que sucesso não é linear e requer monitoramento contínuo.
Rio de Janeiro: Abordagem Integrada
Rio não apenas instalou faixa de 2 km na Lagoa-Barra (onde 44% das vítimas são motociclistas). Governo carioca assinou termo de cooperação com plataformas de delivery para mapear dados, criar “pontos de apoio” para entregadores e ampliar faixas exclusivas. Reconheceu que motociclistas são “empreendedores” vulneráveis que merecem proteção estrutural, não apenas fiscalização.
Porém, Rio também enfrenta epidemia: 14.497 vítimas de acidentes com moto atendidas em hospitais municipais de janeiro a junho de 2025 — 80 atendimentos por dia. Gasto público com vítimas: R$ 130 milhões anuais.
Brasília: Lei Aprovada, Implementação Pela Frente
Brasília aprovou lei estabelecendo bolsões obrigatórios, com diretrizes para “projetos específicos para cada via” e “monitoramento contínuo”. Está no início da jornada e pode servir como case de estudo para Maringá sobre implementação gradual.
A lição agregada: infraestrutura funciona, mas isolada é insuficiente. É peça de quebra-cabeça que exige educação, fiscalização, saúde, comunicação.
Bolsões como Começo, Não Fim
Bolsões para motociclistas em semáforos são ideia sólida. Evidência de outras cidades — especialmente São Paulo — demonstra que funcionam quando implementados com rigor. Maringá tem condição técnica e institucional para fazer bem.
Porém, educação, fiscalização rigorosa e manutenção sistemática não são “add-ons” — são estrutura fundamental. Cidade que aprova bolsão sem garantir essas três dimensões está apostando em meia-solução.
Maringá é capaz de ser exemplar. Mas excelência exige integração disciplinada entre infraestrutura, educação e governança. A votação do projeto de lei é oportunidade para vereadores deixarem clara essa exigência ao Executivo. Depois, é acompanhamento rigoroso — durante anos — para medir se a intenção virou realidade.
Motociclistas maringaenses merecem mais que bolsão bonito. Merecem cidade que diz não apenas “temos bolsão”, mas “temos bolsão, educação, fiscalização, e prova, via dados públicos, que está funcionando”.
Esse é o padrão que Maringá deveria abraçar.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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