Última atualização em 12/02/2026 por Alan Zampieri
Quando a matrícula vira loteria para a família maringaense
Na primeira semana de aula de 2026, enquanto mais de 38 mil alunos voltavam para as 117 unidades da rede municipal de ensino, 192 crianças de 0 a 3 anos ainda aguardavam vaga em 39 dos 64 CMEIs de Maringá. Em alguns bairros, como no entorno do CMEI Pioneira Tereza Martins Fernandes, eram 22 crianças na fila de uma única unidade, o que na prática significa pais sem conseguir trabalhar porque não têm com quem deixar os filhos.
Ao mesmo tempo, a Secretaria de Educação informava à imprensa que não havia falta de vagas na educação infantil, atribuindo os problemas sobretudo a pedidos de transferência entre unidades e à recusa de algumas famílias em aceitar vagas em creches mais distantes de casa. Essa dissonância entre o discurso oficial e a realidade sentida nas filas e nas redes sociais cria um ruído perigoso: quebra de confiança.
Não se trata de um episódio isolado. Em 2025, um levantamento do Portal da Transparência apontou 1.164 crianças na lista de espera por vagas em CMEIs, ao mesmo tempo em que o município divulgava a existência de cerca de 1.330 vagas na rede própria e 372 vagas adquiridas em escolas particulares conveniadas. Em 2023, a imprensa local já registrava mais de 500 crianças na fila, o que levou a Prefeitura de Maringá a lançar editais de credenciamento para compra de vagas em creches privadas, com previsão de até R$ 16 milhões em investimento.
Do ponto de vista de gestão, não é um “acidente pontual”. É um padrão de risco recorrente.
Os números que a fila não esconde
Quando se olha a fila de espera por vagas em CMEIs ao longo dos últimos anos, fica claro que Maringá oscila entre ciclos de expansão, judicialização e novas filas. Em 2018, uma ação civil pública do Ministério Público revelou quase 4 mil crianças de 0 a 3 anos aguardando creche. Em 2020, após decisão do Tribunal de Justiça do Paraná determinando que o Município garantisse vagas para toda criança de 0 a 3 anos, a fila havia caído para 334 crianças, segundo dados citados no acórdão.
Poucos anos depois, o quadro volta a pressionar:
- 2022: cerca de 1.400 crianças na fila, o que levou o município a comprar 995 vagas na rede particular, num investimento anual de R$ 12 milhões.
- 2023: mais de 500 crianças aguardando vaga, com nova rodada de credenciamento e compra de vagas em creches privadas.
- 2024: a secretária de Educação informava cerca de 300 crianças em espera, ao mesmo tempo em que mães relatavam, em entrevistas à CBN Maringá, não encontrar vaga em nenhum CMEI, mesmo aceitando estudar em outros bairros.
- 2025: a fila volta a subir para 1.164 crianças, segundo levantamento do Maringá Post com base no Portal da Transparência.
- 2026: 192 crianças ainda aguardavam vaga na educação infantil no primeiro dia letivo, concentradas em 39 CMEIs.
Esse comportamento está sintetizado no gráfico abaixo, que mostra a evolução aproximada da fila por vagas em CMEIs de Maringá entre 2018 e 2026, com base em dados de decisões judiciais, reportagens locais e informações da própria Seduc.

Evolução da fila por vagas em CMEIs de Maringá (2018-2026)
Visualmente, a mensagem é simples: houve avanços importantes, mas o sistema ainda não alcançou estabilidade. Em linguagem de gestão, trata-se de uma operação sem “margem de segurança”, altamente sensível a qualquer erro de projeção demográfica, atraso de obra, problema licitatório ou falha de comunicação com as famílias.
Planejamento que chega em cima da hora não é planejamento
O discurso oficial costuma destacar a digitalização e a modernização das matrículas com o aplicativo Conecta Seduc, que promete acabar com as filas presenciais, permitir a rematrícula on-line e dar acesso, em tempo real, à rotina escolar dos alunos – da merenda ao transporte. De fato, o uso da plataforma para rematrículas em 2026 foi um avanço relevante, com mais de 23 mil vagas confirmadas on-line, reduzindo filas físicas e burocracia.
Entretanto, tecnologia sem planejamento consistente apenas digitaliza o improviso. Ao mesmo tempo em que o Conecta Seduc é apresentado como solução, o município precisou organizar mutirão de matrículas para “zerar a fila” no início de 2026 e ainda assim iniciou o ano letivo com 192 crianças à espera. A própria Secretaria de Educação reconhece que, para a faixa de 0 a 3 anos, depende de comprar vagas na rede privada à medida que a demanda aparece, o que demonstra falta de uma estratégia estruturada de capacidade instalada.
Do lado dos materiais escolares, a sensação de “organização no limite” fica ainda mais evidente. Em 2023 e 2024, houve atraso na entrega de uniformes e materiais, com distribuição concluída apenas em maio em alguns anos. Em 2025, os processos licitatórios de uniformes e kits escolares foram interrompidos por problemas de qualidade das peças e ajustes de edital, obrigando a Seduc a montar kits emergenciais com itens de estoque e a priorizar grupos específicos de alunos até a conclusão das compras.
No segundo semestre de 2025, pais de alunos de CMEIs denunciaram atraso e baixa qualidade de uniformes e materiais, com relatos de peças chegando apenas perto do fim do ano letivo. A explicação oficial apontou para a não conclusão de licitações em 2024, o que atrasou a entrega em 2025 – um erro de gestão típico de quem planeja contratos plurianuais em cima da virada do calendário.
Para 2026, a Seduc antecipou a compra de mais de 46 mil kits de materiais escolares (R$ 6,1 milhões) e 30 mil mochilas e estojos (R$ 2,6 milhões), prometendo entrega no início do ano letivo. No entanto, o próprio cronograma oficial admite que a distribuição aos alunos se estende por todo o mês de fevereiro, o que na prática significa que parte das crianças começa as aulas sem o kit completo em mãos.
Num ambiente em que a cidade se apresenta nacionalmente como referência em qualidade de vida, “cidade inteligente” e modelo de gestão, é legítimo que o maringaense pergunte: por que uma Secretaria de Educação com orçamento robusto ainda opera as matrículas e os kits escolares tão perto do risco operacional?
O que outras cidades já fizeram – e Maringá pode adaptar
Não é necessário reinventar a roda. Cidades de porte semelhante ou maior já desenharam políticas públicas robustas para organizar matrículas na educação infantil com gestão, eficiência e transparência.
- Curitiba (PR): desde 2019, opera o Cadastro Online para vagas em creches, com registro de intenção de vaga, consulta da posição na fila e critérios claros de prioridade. Em 2026, a prefeitura decidiu reabrir o cadastro de forma antecipada, ainda antes do início do ano letivo, para atualizar a demanda e evitar surpresas na distribuição de vagas.
- São José (SC): divulga listagens de crianças pré-classificadas para vagas em creches e pré-escolas por meio de sistema eletrônico, com consultas por protocolo e CPF, respeitando a LGPD. O município também mantém uma Central de Vagas com fluxo definido para solicitações no fim do ano e durante o ano letivo, garantindo previsibilidade às famílias.
- São Paulo (SP): criou a plataforma “Vaga na Creche”, que permite a qualquer cidadão saber quantas crianças aguardam vaga num raio em torno do endereço informado, em cada CEI, e consultar vagas remanescentes. A ferramenta é um exemplo de transparência ativa e gestão orientada por dados, alinhando comunicação com a capacidade real da rede.
- Florianópolis (SC): alcançou 53,7% de atendimento de crianças de 0 a 3 anos em creches (acima da média nacional de 41,2%) e 88% de atendimento de 2 a 3 anos, consolidando-se como referência entre as capitais. Um dos pilares é a equipe de monitoramento de vagas vinculada à Diretoria de Planejamento e Dados Educacionais, responsável por acompanhar frequência, desistências e vagas ociosas em tempo real.
Essas experiências mostram um caminho: centralização inteligente de dados, transparência radical e planejamento de capacidade com base em cenários demográficos, não apenas na pressão do momento.
Maringá já provou, pela própria história, que cresce quando transforma planejamento em cultura de gestão, e não em peça de marketing. A questão das matrículas em escolas e CMEIs de Maringá é um teste decisivo para saber se a cidade continuará sendo referência apenas em rankings ou se será reconhecida também pela coerência entre discurso, direito e prática cotidiana.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
🔗 Leitura Complementar
Para entender melhor como políticas públicas de inclusão social funcionam em outras cidades, e como pressionar por mudanças em Maringá, recomendamos:
Para acompanhar reflexões sobre ética, trabalho e políticas públicas que fazem Maringá prosperar, siga @alanzampieri.adv no Instagram.



