Câmara de Maringá propõe Gabinete Itinerante para ouvir a população: Diminuir cargos está em pauta?

Última atualização em 01/05/2026 por Alan Zampieri

Imagem: O Diário de Maringá

O que é, afinal, esse Gabinete Itinerante que a Câmara anunciou?

Na sessão de 3 de fevereiro de 2026, a presidência do Legislativo adiantou que pretende lançar, ainda neste ano, o projeto “Câmara com Você”, descrito como uma espécie de “Câmara Itinerante” que irá aos bairros para ouvir a população. A ideia é montar uma estrutura fora do prédio da Câmara, nos bairros, para receber reivindicações, entender a realidade local e encaminhar as demandas ao Executivo.​

Não se trata, segundo a própria presidente, de simples “sessão itinerante”, mas de levar uma espécie de gabinete móvel, com vereadores, assessores e equipe de apoio, para ambientes como associações de moradores, igrejas, escolas, centros comunitários e, provavelmente, espaços da Expoingá.​

A inspiração dialoga com experiências da Assembleia Itinerante da Alep, que realiza sessões especiais em cidades como Maringá, e com gabinetes itinerantes de câmaras de outros municípios, como Vera (MT) e Cáceres (MT), criados para funcionar como ouvidoria parlamentar nos bairros. Em tese, é uma boa notícia: levar o Legislativo para onde o povo está é uma demanda legítima de qualquer democracia madura.

Mas, em gestão pública, boa ideia de comunicação precisa ser acompanhada de boa prática de responsabilidade fiscal. E é aqui que entra a pergunta que não quer calar: é possível aproximar a Câmara do maringaense sem continuar inflando estrutura, cargos e despesas?

Quanto custa manter a “proximidade” quando a máquina não para de crescer?

Antes de discutir se o Gabinete Itinerante da Câmara de Maringá é uma ferramenta de participação cidadã ou apenas mais um palco de marketing político, vale olhar para os números recentes do Legislativo.

Em 2025:

Para 2026, a Lei Orçamentária Anual já prevê um salto para R$ 82 milhões de orçamento da Câmara, um aumento em torno de 40% em relação ao ano anterior. Parte desse valor é justificada pela ampliação de estrutura, modernização da Casa e aumento de vereadores, mas o grosso continua concentrado em pessoal e custeio interno.

O gráfico abaixo mostra, de forma simples, essa evolução orçamentária:

Em paralelo, o maringaense viu:

Tudo isso em uma cidade que aprovou, no fim de 2025, um reajuste médio de cerca de 30% no IPTU para 2026, aumentando a carga tributária sobre famílias, pequenos negócios e profissionais liberais.

Nessa conjuntura, é legítimo o questionamento: quem vai pagar a conta do gabinete que agora pretende rodar os bairros para ouvir a população?

Gabinete Itinerante: aproximação real ou palco caro sobre rodas?

Do ponto de vista de política pública, iniciativas itinerantes do Legislativo podem gerar bons resultados quando:

  • têm objetivos claros (escutar, prestar contas, construir agenda de prioridades);
  • são planejadas com metodologia de participação social (ouvidoria estruturada, registros, devolutivas);
  • não se transformam em show itinerante, com mais forma que conteúdo.

A experiência da Câmara de Vera (MT) é um exemplo interessante: o Gabinete Itinerante foi instituído como espaço de ouvidoria parlamentar nos bairros, recebendo demandas para transformar em projetos de lei ou encaminhamentos ao Executivo. A resolução de lá é explícita: não pode gerar qualquer despesa para a Câmara ou para a Prefeitura; a estrutura é de responsabilidade dos próprios vereadores interessados.​

Já em Cáceres (MT), há uma indicação que prevê apoio logístico da Câmara (carros, tendas, som), mas com foco declarado em ampliar participação popular e interiorizar o Legislativo nas zonas rurais e bairros distantes. Ou seja, as duas experiências se preocupam em equilibrar participação e custo, deixando claro quem paga e até onde vai a estrutura pública.​

No caso de Maringá, até aqui:

Em outras palavras: o risco é transformar uma boa ideia de aproximação em mais um item de vitrine, sem atacar o ponto nevrálgico que o maringaense já sente no bolso e nas notícias de política local: a máquina cresce mais rápido do que a capacidade de entregar eficiência e transparência.

Pontos fortes e fragilidades da proposta, sob a ótica de gestão

Lendo o cenário com olhar de gestor, é possível reconhecer virtudes e problemas na combinação entre o Gabinete Itinerante da Câmara de Maringá e o atual desenho institucional do Legislativo.

Pontos fortes

  • Aproximação territorial: levar a Câmara para os bairros pode facilitar o acesso de moradores de regiões afastadas, que raramente conseguem ir ao plenário em horário comercial.
  • Potencial de escuta ativa: bem desenhado, o gabinete itinerante pode funcionar como ouvidoria avançada, coletando dados sobre demandas de mobilidade, saúde mental, juventude, educação, segurança e lazer.
  • Oportunidade pedagógica: a presença do Legislativo nos bairros pode ser usada para educação cívica, explicando como funciona um projeto de lei, o orçamento municipal e os canais de participação.

 

Fragilidades

  • Incoerência fiscal: adotar discurso de “Câmara mais próxima do povo” ao mesmo tempo em que se aumenta o número de comissionados, eleva-se o orçamento em 40% e se gasta dez vezes mais em diárias fragiliza a narrativa de eficiência.
  • Risco de clientelismo itinerante: sem regras claras, o gabinete pode virar ponto de troca de favores, em vez de espaço de planejamento de políticas públicas sustentáveis.
  • Baixa cultura de avaliação: não há, até agora, qualquer compromisso público de medir resultados: quantas demandas pretendem registrar, quantas viraram projetos, quantas sairiam do papel.

 

Numa cidade com forte setor produtivo, grande comunidade acadêmica e sociedade civil organizada, a expectativa é maior: não basta estar “perto fisicamente”; é preciso estar perto em responsabilidade e transparência.

Experiência de outras cidades: dá para ouvir mais gastando menos

Como já mencionado, não é a primeira vez que um parlamento se move na direção de gabinetes itinerantes. Alguns exemplos ajudam a calibrar o debate:

 

O que diferencia boas práticas de mau uso do conceito é justamente isso: clareza sobre quem paga, quanto custa e o que se entrega em troca.

Participação com lupa na transparência

Se a sociedade maringaense quer transformar o Gabinete Itinerante da Câmara de Maringá em instrumento real de cidadania – e não em mero “palanque móvel” –, algumas atitudes podem fazer a diferença:

  1. Acompanhar a regulamentação: assim que o projeto de resolução for apresentado, vale que jornalistas, entidades de classe (OAB, ACIM, conselhos profissionais), pastorais e associações de bairro leiam o texto na íntegra e perguntem:
    • há limites de custo?
    • há proibição de criação de novos cargos para o programa?
    • há metas e critérios de avaliação?
  2. Exigir indicadores claros: cobrar que a Câmara publique, anualmente, quantas pessoas foram atendidas pelo gabinete itinerante, quantas demandas viraram políticas públicas e quanto se gastou para fazer tudo isso girar.
  3. Conectar participação à eficiência: cada vez que se falar em ouvir a população, trazer junto para o debate os dados sobre diárias, cargos, orçamento e IPTU, para que a conversa sobre política não se descole da realidade fiscal da cidade.
  4. Valorizar quem faz mais com menos: em qualquer espaço de debate público – da paróquia ao conselho profissional – reforçar a importância de gestores que entregam resultado com responsabilidade orçamentária, sem usar a bandeira da participação para justificar máquina pesada.

 

No fim do dia, a pergunta que abre este artigo continua válida como bússola:

Se a Câmara quer ouvir de verdade a população, por que não colocar também na pauta a diminuição de cargos, o controle de diárias e o enxugamento da máquina, com mais eficiência e transparência?

Responder a essa pergunta com fatos, projetos bem desenhados e métricas públicas é o caminho para que o maringaense olhe para o Gabinete Itinerante não como mais um gasto, mas como um investimento sério na qualidade da democracia municipal.

Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios

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