Última atualização em 16/07/2026 por Alan Zampieri
A conta é simples de entender e difícil de sentir no bolso. A tarifa técnica do sistema, o custo real de rodar um ônibus em Maringá, sem contar o que a Prefeitura paga a mais, subiu de R$ 8,87 para R$ 9,35. Desse valor, o município cobre R$ 3,55 por passagem através do subsídio municipal, e o passageiro paga o restante: R$ 5,80.
Para segurar parte do impacto, a Prefeitura ampliou o subsídio ao transporte coletivo em 28%, de R$ 46,8 milhões em 2025 para cerca de R$ 60 milhões previstos em 2026. Foi esse aporte extra que evitou uma tarifa ainda mais alta e manteve benefícios como o Passe Livre estudantil, a gratuidade para idosos acima de 65 anos, pessoas com deficiência, autistas e indígenas artesãos, além do bônus de 15% em crédito para quem viaja fora do horário de pico usando o cartão Passe Fácil.
É justo reconhecer: mesmo com o reajuste, Maringá segue cobrando menos que Curitiba (R$ 6,00), Ponta Grossa (R$ 6,00) e Londrina (R$ 6,25).

Tarifa do transporte coletivo nas quatro maiores cidades do Paraná, valores vigentes em 2026.
Isso não é acaso, é resultado de um subsídio municipal proporcionalmente maior que o das outras três cidades. Mas “custar menos que o vizinho” não resolve o problema de fundo: a tarifa está subindo mais rápido que a renda do trabalhador maringaense, e isso empurra gente para fora do ônibus, para a moto, para o app de transporte ou, pior, para ficar em casa.
Por que isso importa pra quem trabalha, estuda e empreende em Maringá
Quem depende do transporte coletivo em Maringá não é uma abstração estatística. É o auxiliar de serviços gerais que pega dois ônibus pra chegar no turno das 6h, é a estudante que faz estágio à tarde, é o profissional autônomo que atende cliente em bairro sem carro próprio.
Cada R$ 0,60 a mais na passagem representa, para quem faz duas viagens por dia útil, algo em torno de R$ 26 a mais por mês só de ida e volta ao trabalho, dinheiro que sai direto do orçamento apertado de quem já sente a inflação em outras frentes.
E tem um ponto de gestão que precisa entrar nessa conversa: tarifa alta empurra passageiro para fora do sistema, sistema com menos passageiro fica mais caro para operar, e o próximo reajuste vem ainda maior. É um ciclo que qualquer gestor de operação reconhece, e que só se rompe com planejamento de longo prazo, não com reajuste emergencial ano após ano.
O que outras cidades do tamanho de Maringá já fizeram
Antes de qualquer proposta, vale olhar o que já foi tentado e testado em municípios de porte parecido com o nosso, porque ideias importadas sem adaptação viram só discurso bonito.
“Não é sobre pagar menos. É sobre pagar por um sistema que funciona.”
Caucaia (CE), é hoje a maior cidade do Brasil com tarifa zero universal (gratuidade total, todos os dias, para toda a população), bancada com recursos do orçamento municipal regular, sem depender de royalties ou fundo especial. O resultado técnico foi expressivo: a demanda por viagens cresceu mais de 371%, a frota aumentou 46% e o custo operacional subiu 30%, uma equação que a prefeitura considerou sustentável dentro do seu orçamento.
O recorte técnico mais importante, porém, é este: segundo levantamento da NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos) e da WRI Brasil, nenhuma cidade brasileira com mais de 400 mil habitantes implementou tarifa zero universal até hoje.
Maringá, com pouco mais de 430 mil moradores, estaria se optasse por esse caminho, testando um modelo inédito para seu porte populacional. Isso não é motivo para descartar a discussão, mas é motivo de sobra para não tratar “tarifa zero” como bala de prata copiada de cidade pequena, e sim como política pública que precisa de estudo técnico, fonte de custeio definida e cronograma real.
O debate é público e o maringaense tem o que dizer
Transporte coletivo não é pauta de especialista fechado numa sala. É política pública que decide se o maringaense chega a tempo no trabalho, na consulta médica, na aula. Se você mora em bairro afastado, se sua empresa depende de mão de obra que usa ônibus, se você atua na Câmara de Maringá, no serviço público municipal ou estadual, ou simplesmente quer entender pra onde vai o dinheiro do subsídio: participe da próxima audiência pública sobre transporte coletivo, cobre da Câmara Municipal de Maringá a publicação clara da planilha de custos, e leve essa discussão para o seu grupo de bairro, sua categoria profissional, sua igreja, sua associação comercial.
Política pública boa se constrói com debate público de verdade, não com decreto de sexta-feira para valer no domingo.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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