Última atualização em 30/08/2026 por Alan Zampieri
Sete e dez da manhã. A fila na Avenida Mandacaru já dobrou o quarteirão, e do outro lado da cerca o câmpus sede acorda com mais de 21 mil estudantes de graduação e pós-graduação. Entre boa parte da zona norte e o centro, o caminho mais curto simplesmente não existe: é preciso contornar um campus de cerca de 1,24 km². Quem mora do lado de lá faz essa conta de cabeça todo dia.
Esse é o pano de fundo da transposição da UEM, o assunto que volta ao noticiário maringaense de década em década e nunca sai do lugar. Voltou de novo agora, e voltou grande.
A UEM não saiu do lugar. Quem andou foi a cidade
Vale começar desfazendo um mal-entendido. A universidade não foi instalada no meio do caminho de ninguém. Ela foi implantada na década de 1970 no limite norte da cidade planejada, às margens da Avenida Colombo, ou seja, na periferia de então. Quem se mexeu foi Maringá.
Um estudo publicado pela Universidade de Barcelona em 2008 sobre o plano inicial e as requalificações urbanas de Maringá registra o fenômeno com clareza: a implantação da UEM ao norte adensou a região e intensificou os deslocamentos entre as duas metades da cidade, num traçado original que oferecia pouquíssimas ligações diretas entre o centro e a expansão norte. Cinquenta anos depois, Mandacaru, Morangueira e Pedro Taques carregam quase tudo. O resultado todo maringaense conhece.
Cinco décadas, cinco decisões e um projeto que nunca foi protocolado
Antes de opinar, é preciso saber o que já foi tentado. A história é longa e, francamente, mais rica do que o debate atual sugere.
Anos 1990 / 2000 – Surgem os primeiros estudos do binário Norte-Sul, com vias paralelas em quatro avenidas. A travessia do campus já aparecia no pacote.
2007 – A Prefeitura obtém aprovação do Banco Interamericano de Desenvolvimento para financiamento de US$ 13 milhões, metade de um projeto de US$ 26 milhões, que previa o binário, a transposição da UEM e a reorganização do transporte público. (clipping UEM)
2008 – O Conselho de Administração (CAD) aprova acordo preliminar: abertura de vias em troca da pavimentação de cerca de 35 mil m² de estacionamento. O acordo seria renegociado depois. (PET Engenharia Civil UEM)
2012 – A crise. O projeto de dois túneis, nos moldes do que passa sob a Horácio Raccanello, é apresentado à comunidade universitária. O DCE responde com carta formal ao prefeito apontando demolições, remoção da estação climatológica, assoreamento do Córrego Mandacaru e risco de especulação imobiliária na Vila Esperança. (carta do DCE)
2014 – Sai a solução alternativa: o Contorno Oeste. Drenagem de 3,7 mil metros, 32 mil m² de pavimentação, duas pontes, prolongamento da Alicio Campolina. Objetivo declarado: beneficiar mais de 30 mil usuários do transporte coletivo por dia. Nem tudo depende de cortar o campus.
2017 – A UEM implanta o anel viário interno em sentido único anti-horário e passa a operar com sete portões, projeto assinado pela Prefeitura do Campus com Engenharia Civil e Arquitetura e Urbanismo. (Maringá.com)
2017 – 2023 – Os conselhos superiores aprovam a duplicação da Rua Ardinal Ribas, prolongamento da Herval, por meio das Resoluções 204/2017-CAD, 028/2017-COU e 004/2019-COU. O tema também tramita na Assembleia Legislativa pelo Projeto de Lei 1056/2023. (nota oficial da UEM)
2025 – Em janeiro, declarações públicas de que a travessia já estaria autorizada pelo reitor provocam reação. A seção sindical dos docentes classifica a afirmação como “grave interferência na autonomia e na democracia universitária”. Em fevereiro, a UEM emite nota oficial separando o que está aprovado do que não está.
2026 – Em 18 de agosto, a travessia reaparece no pacote municipal. A Prefeitura diz aguardar autorização do CAD. Dias depois, a Reitoria esclarece que não há proposta oficial protocolada. Em 27 de agosto, o tema domina o debate do segundo turno da eleição para a reitoria.
O que já está aprovado e o que não está
Aqui está a informação que sumiu no meio do barulho, e ela muda tudo. Traduzir o difícil em simples é a parte mais útil de qualquer análise pública, então vamos ao quadro.
| Trecho | Situação | O que ainda falta |
|---|---|---|
| Duplicação da Rua Ardinal Ribas (prolongamento da Av. Herval) | Aprovada pelo CAD (Res. 204/2017) e pelo COU (Res. 028/2017 e 004/2019), em duas gestões diferentes. Também objeto do PL 1056/2023 na Assembleia Legislativa. | Recursos e execução. |
| Continuidade da travessia até a Av. Campolina, cortando o campus | Não aprovada. A UEM condicionou a análise à apresentação de projeto técnico. | Projeto elaborado, protocolado e apreciado pelos conselhos superiores. |
Ou seja: existe uma parte acordada há quase dez anos e uma parte que sequer virou papel. Anunciar as duas como se fossem a mesma obra é o que transforma uma agenda legítima em desconfiança. E desconfiança, em política pública, custa caro.
Sete dados que colocam a conversa no lugar
Os números do impasse


Fontes: IBGE (Censo 2022); Detran-PR via O Maringá; UEM; Departamento de Geografia da UEM; Maringá Mais.
Autonomia não é birra. É o artigo 207
Como advogado, sinto obrigação de dizer isso sem rodeio: a autonomia universitária está no artigo 207 da Constituição Federal. Ela não é um capricho corporativo nem um obstáculo criado para atrapalhar obra de prefeito. É norma jurídica, e norma de estatura constitucional.
Isso tem consequência prática. A UEM é autarquia estadual de regime especial; a área do campus é patrimônio público estadual afetado a uma finalidade. Qualquer uso de parte dela por via municipal exige deliberação dos órgãos competentes, como o CAD e COU, e não declaração de autoridade nenhuma, de qualquer lado. Foi exatamente o que a universidade reafirmou em nota, e o que os dois candidatos à reitoria repetiram no debate: a decisão pertence aos conselhos, com dados técnicos na mesa.
Do outro lado, o contraponto também é legítimo e precisa ser dito com a mesma franqueza: autonomia universitária não é sinônimo de veto permanente sobre o planejamento da cidade. A UEM é mantida com dinheiro público, está inserida no tecido urbano e se beneficia da infraestrutura municipal. Recusar-se a analisar um projeto é diferente de analisá-lo e rejeitá-lo com fundamento. A universidade que exige estudo tem toda a razão e, por coerência, precisa apreciar o estudo quando ele chegar.
A ciência da própria UEM já deu uma pista
Eis o que mais me incomoda nesse debate: Maringá discute a travessia do campus há cinquenta anos e ignora a pesquisa produzida dentro dele.
Um estudo publicado na revista Geoconexões em 2024, assinado por pesquisadores da UEM e da UFU, analisou a matriz de mobilidade maringaense e identificou que a região norte é justamente a que apresenta maior potencial de geração de viagens por transporte coletivo, com acesso pelas avenidas Guaiapó e Tuiuti. A conclusão aponta para faixas de circulação exclusiva como intervenção capaz de destravar o sistema, solução mais barata, mais rápida e menos invasiva do que qualquer corte no campus.
Some-se a isso o que já é lei: a Lei Municipal 11.518/2022 instituiu a Política de Mobilidade e o PlanMob Maringá, aprovado pela Câmara de Maringá em 2022 depois de audiências públicas e mais de quatro mil páginas de diagnóstico. O plano prevê metas, indicadores e até um Observatório Municipal da Mobilidade Urbana. Temos plano. Falta usá-lo como régua.
O quadro que todo gestor faria antes de assinar

Sobre a estação climatológica, um esclarecimento técnico que raramente aparece: não se trata de mudar um termômetro de lugar. A ECPM integra a rede do Inmet, órgão que representa o Brasil perante a Organização Meteorológica Mundial, e a própria OMM orienta que qualquer relocação seja documentada com precisão, sob pena de comprometer a homogeneidade da série. Superfícies asfaltadas e fluxo de veículos ao redor alteram medição.
Dado climático quebrado não se recompõe com emenda parlamentar.
Recife virou a chave: quando a via vira parque
Maringá não é a primeira cidade brasileira a esbarrar num campus. A diferença está em como cada uma tratou o conflito.
Em Recife, um trecho concebido originalmente como projeto viário de quatro faixas para automóveis foi repensado como parque linear. O Parque Capibaribe nasceu em 2013 de um convênio entre a Prefeitura do Recife e a UFPE, por meio do grupo de pesquisa INCITI, e hoje estrutura 30 quilômetros de margens e alcança 42 bairros, com o campus universitário integrado como parte do percurso. A universidade deixou de ser obstáculo e virou coautora do projeto.
Em Campinas, pesquisadores da Unicamp mediram o campus onde circulam 50 mil pessoas por dia e aplicaram metodologias de Ruas Completas e urbanismo tático, com resultados publicados em periódico internacional. A tese é simples: falta de dado prejudica a decisão, tanto da universidade quanto do município.
E há o lado da governança. Belo Horizonte criou seu Observatório da Mobilidade Urbana pelo Decreto 15.317/2013, com indicadores públicos de acompanhamento do plano. Goiânia instituiu conselho e observatório próprios pelo Decreto 1.350/2024.
“Obra que não suporta ser explicada em números não deveria ser anunciada em coletiva.”
Maringá previu o instrumento em lei há quatro anos. Não localizei, na legislação municipal publicada, o decreto que o tirou do papel. Se existe, publiquem; se não existe, instalem.
Nem muro, nem trator: ponte
Há dois discursos fáceis circulando nas redes maringaenses. Um diz que a universidade é um entrave ao progresso da cidade. Outro diz que qualquer via dentro do campus é ataque à ciência. Os dois são confortáveis, os dois rendem engajamento e nenhum dos dois resolve o trânsito de quem sai de casa às sete da manhã.
A minha posição é outra, e ela é técnica antes de ser política. A ligação norte-sul de Maringá é um problema real, documentado há cinquenta anos, e merece solução, mas solução se escolhe comparando números, não repetindo anúncios. Se o estudo demonstrar que a travessia do campus tem a melhor relação custo-benefício, que se faça, com compensações contratadas, patrimônio científico protegido e moradores indenizados com justiça. Se demonstrar que faixas exclusivas, o binário e a qualificação do Contorno Oeste entregam mais mobilidade por real investido, que se abandone a ideia sem constrangimento, cinquenta anos é tempo suficiente para admitir uma resposta.
O que não dá mais é sustentar o impasse. Nesta segunda-feira a UEM elege sua nova reitoria, e o tema já chegou lá antes da posse. Do lado da Prefeitura de Maringá, há um pacote bilionário em desenho. É a melhor janela em uma década para transformar cabo de guerra em pacto. A cidade planejada que virou referência nacional em urbanismo não pode continuar tratando seu principal ativo de conhecimento como se fosse um quarteirão atravessado.
Universidade e cidade não disputam território. Disputam, no máximo, quem chega primeiro com um bom projeto na mesa.

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