Última atualização em 25/08/2026 por Alan Zampieri
O carro que não sai do pátio
Toda cidade tem uma cena que explica o resto.
Em Maringá, uma delas acontece por volta das sete e meia da manhã, no pátio de uma secretaria. Três servidores prontos para ir a campo: uma vistoria na Zona 7, um atendimento no Jardim Alvorada, um documento para protocolar no Paço, na XV de Novembro. E um veículo disponível.
Alguém fica. O trabalho atrasa. E esse atraso não é registrado em lugar nenhum, não entra em relatório, não vira indicador, não aparece na prestação de contas.
Foi essa cena, contada por servidores e não inventada por mim, que me fez pegar o assunto pelo começo. Porque a discussão sobre mobilidade para servidores não é sobre aplicativo. É sobre quanto custa o quilômetro rodado do serviço público maringaense e sobre quem consegue enxergar esse número.
O que já está na mesa e dá para conferir
Antes de opinar, é preciso saber de onde se parte. Estes são os números que qualquer maringaense pode checar hoje:
A CONTA QUE JÁ ESTÁ ABERTA EM MARINGÁ
| Indicador | Número | Referência |
|---|---|---|
| Frota municipal ativa | 1.760 veículos | Portal da Transparência, maio/2026 |
| Veículos e máquinas sob a Secretaria de Infraestrutura | 307 | Portal da Transparência, maio/2026 |
| Combustível — teto do registro de preços (SeInfra + Instituto Ambiental, 12 meses) | até R$ 21 mi | Edital municipal, maio/2026 |
| Servidores municipais | 12.679 | Folha de março/2026 |
| Subsídio anual ao transporte coletivo | ≈ R$ 60 mi | Prefeitura, agosto/2026 |
Repare em uma distorção que a tabela esconde: 1.760 veículos parecem muitos, e são. Mas frota grande não significa deslocamento resolvido. Máquina de obra não leva fiscal à Zona 7. Ambulância não entrega documento no Paço. Caminhão de zeladoria não faz visita técnica.
E há um detalhe que todo gestor conhece e poucos discutem em público: um veículo parado custa quase o mesmo que um veículo rodando. Seguro, depreciação, licenciamento, pátio, manutenção preventiva e, muitas vezes, motorista. A conta corre mesmo com o carro parado.
Mobilidade para servidores, sem economês
O modelo é mais simples do que o nome sugere. O município autoriza determinados servidores. Quando um deles precisa se deslocar a trabalho, abre o aplicativo, informa origem, destino e o motivo da viagem. O sistema cota entre os operadores integrados, motoristas de aplicativo, cooperativas de táxi, empresas de fretamento, e aciona a opção mais vantajosa. A conta vai direto para a instituição. Cada corrida fica registrada com trajeto, quilometragem, valor e finalidade.
Acabam o recibo amassado no bolso e as horas de prestação de contas. Nasce, em tese, uma base de dados.
No setor público brasileiro há dois caminhos consolidados. O MobGov, do Ministério da Gestão, sucessor do TáxiGov, já reúne mais de 14 mil usuários ativos e 103 centros de custo. E o Spid, do Banco do Brasil, desenhado justamente para entes públicos.
Um ponto técnico importante, que muita gente ignora: o MobGov não atende estados e municípios. A regra é explícita no próprio manual federal. Ou seja, Maringá não pode simplesmente “aderir” ao modelo da União, precisa contratar por conta própria. É aí que entra o banco público.
Por que o Banco do Brasil aparece nessa conversa
Três razões objetivas. Primeira: o BB é banco público e parceiro contratual da maioria das prefeituras brasileiras, o que reduz atrito jurídico e operacional. Segunda: o Spid integra vários operadores e cota pelo menor preço, sem excluir concorrentes, o desenho preserva isonomia. Terceira: o banco resolve um nó que trava as prefeituras há anos. Em Vitória da Conquista (BA), o secretário de Planejamento resumiu bem: o motorista recebe na hora, e o município paga a fatura depois.
Some-se a isso o protocolo firmado entre o Ministério das Cidades e o BB para soluções de mobilidade urbana. O histórico existe. Mas histórico não é cheque em branco: vantagem se comprova caso a caso, com planilha.
Natal, São Paulo e Brasília já rodaram esse quarteirão
Aqui a conversa sai da teoria. Custo por quilômetro rodado: antes e depois.
Valores informados pelas próprias administrações, em reais por km.

Natal (RN) foi a primeira capital a adotar o Spid. O contrato, de até R$ 9,6 milhões e vigência até setembro de 2026, substituiu parte da frota alugada. O secretário municipal de Administração relatou queda do quilômetro rodado de R$ 11,30 para R$ 3,50 e afirmou que um veículo que custava cerca de R$ 9 mil por mês, com motorista incluído, passou a custar entre R$ 800 e R$ 900. A estimativa de economia anual apresentada pela gestão variou, em momentos diferentes, entre R$ 12 milhões e R$ 10 milhões. Registro a variação de propósito: número que muda de entrevista para entrevista é número que ainda precisa de auditoria.
São Paulo tem a série histórica mais longa. Desde 2017, a Secretaria de Gestão contabilizou mais de R$ 93 milhões de economia. E fez algo que considero exemplar em termos de fiscalização: criou um setor dedicado exclusivamente a monitorar as viagens. A capital paulista também manteve frota própria para o que aplicativo não resolve, áreas de risco, zonas rurais, transporte de cidadãos, Guarda Civil e Defesa Civil.
Governo federal e Distrito Federal completam o quadro. O TáxiGov registrou redução superior a 60% frente ao modelo anterior, resultado documentado em estudo de caso da Enap. O GDF projetou 40% ao migrar para o modelo.

As taxas: ninguém roda de graça, nem o banco
Aqui costuma nascer a confusão. Quando aparece a palavra “taxa” num contrato público, muita gente já se asssuta. Eu prefiro perguntar pelo que se paga.
A taxa de plataforma remunera coisas concretas: a integração dos operadores, o painel de gestão, a auditoria das corridas, o faturamento único no lugar de centenas de reembolsos, o suporte ao servidor e, sobretudo, o risco financeiro de pagar o motorista na hora e cobrar a prefeitura depois. Nenhum desses serviços cai do céu.
O que torna a taxa legítima é uma única conta. O custo total por quilômetro, já com a taxa embutida, precisa ficar abaixo do custo atual por quilômetro da frota própria e/ou locada. Simples assim. Se ficar, é eficiência. Se não ficar, é despesa nova com nome bonito.
E é exatamente essa conta que ainda não vi publicada em Maringá.
A taxa é devida, mas precisa trazer transparência.
Onde eu piso no freio
Seria fácil escrever um texto só de elogios. Não é o meu jeito, nem o que o maringaense espera de quem se propõe a analisar políticas públicas. Há cinco pontos que me incomodam.
- A porta de entrada jurídica. Natal contratou por inexigibilidade de licitação. O artigo 74 da Lei 14.133/2021 exige inviabilidade de competição. Ocorre que existe mais de uma plataforma de mobilidade no mercado brasileiro. Onde há mercado, presume-se competição. A justificativa pode até se sustentar, mas precisa ser robusta, escrita e pública. Credenciamento ou pregão resolveriam a dúvida na origem, e blindariam o gestor perante o Tribunal de Contas do Paraná.
- A qualidade do serviço. O aplicativo Spid tem nota 2,8 de 5, com 101 avaliações, na App Store brasileira. Servidores de outros municípios reclamam de demora para achar motorista, cancelamentos e cotações acima de Uber e 99. Avaliação de loja é indício, não prova. Mas é indício suficiente para exigir SLA no contrato: tempo máximo de espera, taxa de cancelamento tolerada e multa quando o padrão não for cumprido.
- O alcance real. Se apenas algumas secretarias forem atendidas na primeira fase, a economia será proporcionalmente menor que a manchete. Isso não invalida o projeto. Mas o número anunciado precisa ser o número da fase contratada, não o número do sonho.
- O dinheiro que sai da cidade. Corrida paga com imposto maringaense deveria, sempre que possível, virar renda em Maringá. Vitória da Conquista chamou os taxistas para dentro da plataforma justamente por isso. Aqui, a Câmara acabou de aprovar pontos exclusivos de embarque e o Cadastro Municipal de Condutores de Aplicativos. A amarração existe, basta usá-la.
- O bolso do servidor. Ninguém pode ser obrigado a bancar plano de dados e aparelho para trabalhar. E há deslocamentos que aplicativo não cobre: plantão de madrugada, zona rural, área de risco, transporte de material. São Paulo manteve frota própria exatamente para isso. Maringá também precisará manter.
Modernizar sim, no escuro não
Sou favorável, em tese, a que a Prefeitura de Maringá adote uma plataforma de mobilidade para servidores. Os dados de Natal, São Paulo e do governo federal são consistentes demais para serem ignorados por preconceito ideológico. Frota própria em excesso é dinheiro parado no pátio, e dinheiro parado no pátio é sala de aula sem reforma e rua sem tapa-buraco. Boas políticas públicas nascem quando o recurso migra do custo administrativo para a ponta: educação, saúde, zeladoria.
Mas sou contra assinar antes de medir. Contratação direta sem justificativa robusta, contrato sem linha de base, taxa sem comparação e economia sem auditoria, isso não é gestão eficiente. É aposta com dinheiro alheio.
A boa notícia é que Maringá acabou de provar que quer medir. A cidade inaugurou um centro que monitora os ônibus em tempo real e passou a tratar dado como instrumento de decisão. Quem consegue georreferenciar a frota do transporte coletivo consegue, com folga, publicar o custo por quilômetro do deslocamento dos próprios servidores.
É a mesma tecnologia. É a mesma competência técnica. Falta apenas apontar a lente para dentro de casa.

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