Última atualização em 05/09/2026 por Alan Zampieri
Toda semana alguém me manda a mesma pergunta, só que com palavras diferentes: quando é que aquilo fica pronto?
Às vezes “aquilo” é a Praça da Catedral. Às vezes é o Contorno Sul. Às vezes é o aeroporto. A pergunta é simples. A resposta não é por falta de canteiro. As obras estruturais em Maringá vivem hoje o maior volume de recursos anunciado da última década. O problema é outro: anúncio a gente tem de sobra; ficha de obra, não.
Ficha, aqui, é coisa bem comum: número do contrato, prazo vigente, quantos aditivos já foram assinados, quanto por cento foi medido e em que data, se o dinheiro está empenhado ou apenas previsto, e qual é o próximo ato administrativo pendente e quem assina esse ato.
Políticas públicas de infraestrutura se avaliam por três coisas: prazo, custo e entrega. Nenhuma delas se mede no discurso. Por isso passei as últimas semanas fazendo esse trabalho de garimpo, cruzando o painel oficial da Prefeitura, o Diário Oficial, publicações do DNIT, do Governo do Paraná e a cobertura da imprensa local. O resultado está aqui. É crítica? É. Mas crítica sem encaminhamento é só barulho organizado, então cada problema apontado vem com uma proposta de solução.
Anúncio é intenção. Contrato com data, número e responsável é compromisso.
Das frentes com situação declarada, quase o dobro está no papel em comparação com o que está no canteiro.
Quando organizei na pesquisa as obras estruturais em Maringá por situação, o desenho ficou evidente. Nove estão na condição de prometido, recurso anunciado, projeto apresentado ou licitação em curso, sem execução iniciada. Cinco dependem de decisão de terceiros: aprovação de conselho, desapropriação, definição de modelo. Apenas três estão efetivamente em obra com percentual medido.

Fonte: levantamento próprio a partir de publicações oficiais e da imprensa local, com apuração fechada em 31/08/2026. As fontes de cada frente estão indicadas ao longo do texto.
Não é um retrato ruim, atenção. Uma cidade com nove projetos estruturais prometidos é uma cidade que conseguiu atrair recurso, e conseguir recurso, em ano de aperto fiscal, é competência de gestão e sinal de eficiência administrativa. O ponto é que promessa não se administra: se administra contrato. E é exatamente no meio do caminho entre uma coisa e outra que o Brasil costuma perder dinheiro.
O dado nacional é brutal. O Tribunal de Contas da União apurou que, até abril de 2025, 11.469 das 22.621 obras mapeadas com recursos federais estavam paralisadas, 50,7% do total. E a causa número um apontada pelo próprio tribunal em auditoria operacional foi a contratação com base em projeto básico deficiente. Guarde essa informação. Ela vai voltar quando chegarmos à Praça da Catedral.
Dois contornos, um sobrenome só
São obras diferentes, com donos diferentes e orçamentos diferentes. Somar os valores das duas é erro de leitura, e acontece toda semana.
Vamos desfazer a confusão mais cara de Maringá. Existem dois projetos de Contorno Sul, e eles ligam praticamente os mesmos dois pontos, a BR-376, na saída para Paranavaí, e a PR-317, na saída para Campo Mourão.
O primeiro é a duplicação da Avenida Prefeito Sincler Sambatti: avenida urbana que já existe, que vai ser duplicada em concreto. O segundo é o Contorno Sul Metropolitano: rodovia nova, por fora da malha urbana, no mesmo modelo do Contorno Norte, para tirar caminhão de dentro da cidade. Um é responsabilidade do Estado com licitação municipal; o outro é federal, do DNIT, com concessão. São contratos, orçamentos e prazos distintos.
Na duplicação, o caminho está mais adiantado. O convênio estadual de R$ 450 milhões foi assinado em 10 de dezembro de 2025. Em julho, onze empresas disputaram o edital. Em 14 de agosto, a primeira colocada, uma construtora de Mossoró, no Rio Grande do Norte, foi desclassificada por não comprovar qualificação técnica em pavimento rígido e whitetopping. Em 28 de agosto, a Prefeitura homologou a segunda colocada, a Construtora Tripoloni, por R$ 442,9 milhões, em consórcio com a HDO Engenharia. Prazo: três anos e meio, sendo os seis primeiros meses só para elaborar projetos.
E aqui entra um detalhe técnico que quase ninguém comentou, mas que muda tudo: a contratação é integrada. Ou seja, a mesma empresa elabora os projetos básico e executivo e executa a obra.
Como advogado, digo com tranquilidade que esse regime tem uma virtude, pois transfere para a contratada o risco do erro de projeto, que é justamente o que arrasa cronogramas de obra Brasil afora. Mas tem uma exigência inegociável: o anteprojeto e a matriz de riscos precisam estar públicos e bem feitos, porque é neles que o município define o que vai receber. Se a matriz de riscos for frouxa, a contratação integrada vira porta de aditivo, não escudo contra ele.
A conta que ninguém conciliou
Já no Contorno Sul Metropolitano, o problema é de outra natureza: os números não batem entre si. A ordem de serviço foi assinada em 12 de março de 2026, em Brasília. A cobertura da imprensa e a Prefeitura registraram R$ 409 milhões. No mesmo dia, o DNIT publicou aproximadamente R$ 328 milhões e 13,80 quilômetros. O contrato de 2022 registra R$ 254 milhões e 13,18 quilômetros. Uma reportagem falou em 32 quilômetros; outra, em quase 12.
O mesmo Contorno Sul Metropolitano, cinco números diferentes

Leitura: nenhuma das fontes concilia a diferença. Os valores podem se referir a escopos distintos, trecho contratado, fase autorizada, custo total com concessão, mas essa explicação não foi publicada por nenhum dos entes.
Fontes: DNIT, Prefeitura de Maringá e imprensa local, todas de março de 2026, além do contrato de maio de 2022.
Não estou dizendo que há irregularidade. Estou dizendo algo mais simples e mais incômodo: não dá para fiscalizar o que não se consegue somar. Se o valor federal empenhado é R$ 328 milhões e o valor anunciado no ato é R$ 409 milhões, alguém precisa publicar a memória de cálculo. Uma nota técnica de uma página resolveria, e é isso que qualquer cidadão pode pedir hoje, via Lei de Acesso à Informação, ao DNIT e à Prefeitura.
Aeroporto: o superavitário que virou canteiro
O Aeroporto Regional de Maringá é um dos poucos aeroportos municipais superavitários do país e ultrapassou 800 mil passageiros em 2025. O projeto autorizado em março prevê reforma de 4.009 m² do saguão atual, ampliação com 3.135 m² de nova edificação, três pontes de embarque, duas novas esteiras de bagagem, estacionamento para 800 veículos e um terminal intermodal. A torre de controle ganha três posições operacionais e sistemas compatíveis com o CINDACTA II.
É um salto real de qualidade para quem viaja a trabalho ou para as tão sonhadas férias. Mas repare na composição divulgada: a Prefeitura informa R$ 118 milhões para o saguão (R$ 90 milhões federais e R$ 28 milhões de contrapartida municipal) mais R$ 10 milhões para a torre, e conclui com o total de “R$ 128 milhões do Governo Federal”, somando no mesmo bolo o dinheiro federal e a contrapartida da própria cidade. Já a cobertura do dia seguinte trouxe R$ 129,1 milhões, sendo R$ 100,4 milhões do FNAC e R$ 29,1 milhões de contrapartida estadual e municipal.
Três divergências em um parágrafo só: o total, a origem e a existência de contrapartida estadual. Some-se a isso que a publicação oficial não informou prazo algum, a data de conclusão no final de 2030 aparece apenas em matéria de imprensa. Para um investimento dessa monta, isso é pouco.
O livro aberto do Niemeyer, na metade
R$ 75 milhões, 51% executados, entrega prevista para junho de 2027. Esta é a frente que anda.
Justiça seja feita: entre as obras estruturais em Maringá, a Ópera Oscar Niemeyer é a que mais avança de forma verificável. Ordem de serviço em 18/12/2023, contrato de R$ 75 milhões com prazo de 40 meses, mais de 11 mil m², oito andares e uma sala para cerca de 630 pessoas, no formato de livro aberto desenhado por Niemeyer em 1980.
Os percentuais medidos contam a história: pouco mais de 10% depois de onze meses, 43,38% em abril de 2026 e 51% em agosto de 2026. A previsão de entrega migrou de “primeiro semestre de 2027” para março e depois junho de 2027. Em 12 de agosto, a Prefeitura contratou por R$ 388,8 mil o projeto completo de cenotecnia.
Aqui vale um comentário de gestor, não de crítico: contratar cenotecnia com a obra em 51% é a decisão certa na hora certa. Equipamento cultural que sobe sem projeto de palco vira galpão bonito. Cultura, turismo e lazer não são supérfluos em Maringá.
Catedral: quatro prazos e um silêncio
Se existe um cartão-postal que dói em termos de obras inacabadas, é esse. A fase 1 do Eixo Monumental foi orçada em R$ 48 milhões, começou em 2023 com prazo de um ano e cinco meses e entrega prevista para abril de 2025.
De lá para cá foram quatro alterações de cronograma: 30 de outubro de 2025, depois 28 de abril de 2026, depois 31 de maio de 2026 e, desde 1º de junho de 2026, nenhum prazo definido. Já foram pagos R$ 38,8 milhões, com R$ 4,3 milhões em aditivos. E o percentual? Olhe o gráfico.
Eixo Monumental: nove meses, quatro prazos, um percentual que não sai do lugar

Fontes: medições divulgadas pelo Portal da Transparência da Prefeitura de Maringá e notas oficiais, noticiadas por Maringá Post (29/10/2025), Maringá Mais (29/12/2025), Maringá Post (15/01/2026), Maringá Mais (27/03/2026) e Maringá Mais (29/04/2026). Ressalva importante: os percentuais foram divulgados por fontes distintas e podem se referir a escopos de medição diferentes, o que, por si só, já é parte do problema.
Sabe de uma coisa? Se o projeto estava errado, corrigir é o certo. Entregar uma praça com piso instável na frente da Catedral seria pior. Mas há uma diferença entre corrigir e não informar. Correção técnica se explica com laudo, cronograma refeito e nova data.
Fio no poste é dívida com juros
A Câmara aprovou em primeira discussão, por 19 votos, o Projeto de Lei nº 17.975/2026, que altera a Lei nº 11.256/2021 e dá às empresas 15 dias para corrigir irregularidades na fiação aérea, com multa de R$ 10 mil por irregularidade, R$ 20 mil em caso emergencial e valores dobrados na reincidência. Em paralelo, a minuta da nova Lei de Parcelamento do Solo prevê fiação 100% subterrânea em novos loteamentos. Em audiência pública de 28 de julho de 2026, estimou-se custo entre R$ 1.500 e R$ 3.000 por metro, com impacto de até R$ 50 mil no preço do terreno.
Onde eu me posiciono
Eu defendo o pacote de obras, claro. Duplicar o Contorno em concreto é decisão técnica correta para uma via que recebe caminhão pesado. Tirar caminhão de dentro da cidade pelo Contorno Metropolitano é acerto de planejamento metropolitano, e uma região que reúne quase 900 mil habitantes não pode continuar tratando trânsito como problema de bairro. Modernizar o aeroporto de uma cidade que vive de negócios é investimento, não vaidade. E devolver a Praça da Catedral à população, bem feita, vale a espera.
O que eu não aceito é o modelo de comunicação. Anunciar R$ 2 bilhões sem individualizar valor por obra não é transparência: é manchete. Publicar painel com execução em 0% e valor em branco não é prestação de contas: é vitrine. E ficar três meses sem prazo em obra de cartão-postal não é rigor técnico: é ausência de gestão da informação.
Fiscalizar não é atrapalhar. É a forma mais barata que uma cidade tem de garantir que a obra que ela pagou chegue inteira até o fim.
Obra bem documentada é obra mais barata, mais rápida e mais sustentável, porque não precisa ser refeita. Eficiência e transparência andam no mesmo passo. Padronizar dado de obra exige servidor, sistema e rotina. Mas o município que já tem Plano de Metas aprovado, portal de transparência estruturado e histórico de Selo Diamante não pode alegar que o custo é desculpa para não fazer do jeito certo.
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