Última atualização em 01/09/2026 por Alan Zampieri
Meados de novembro, o pessoal já comenta no grupo do prédio quando é que acendem as luzes da Avenida Brasil. Aí chega a noite e a terra vermelha da Cidade Canção vira outra coisa: fila do trenzinho, cheiro de milho verde, avó filmando o presépio da Catedral com o celular de ponta-cabeça.
É bonito. É nosso. E eu não vou escrever uma linha aqui pedindo para apagar essa luz.
Só que sou advogado e professor, passo o dia lendo leis, slides e planilhas, e tem uma pergunta que me persegue desde o primeiro texto publicado neste blog: quanto Maringá já gastou nisso, ano a ano, e o que recebeu de volta? Fui atrás. Passei semanas cruzando editais do Portal da Transparência com a cobertura da imprensa maringaense. O que encontrei está publicado abaixo, com link em cada número.
Adianto a conclusão, porque dado vem antes de opinião: não existe, em nenhum lugar público, uma série histórica comparável da Maringá Encantada. Existem pedaços. E pedaço não se soma.
O que já está contratado enquanto você lê isto
Vamos ao que está no papel. A primeira licitação da edição deste ano foi publicada em 17 de julho, com valor máximo de R$ 6.150.486, só para locar, instalar, manter e depois retirar a iluminação de pouco mais de 4 mil árvores, sendo 2,9 mil concentradas no eixo central. O item mais caro é banal e revelador: 261 mil metros de fita de LED branca, a até R$ 9,92 o metro, o que dá R$ 2,6 milhões em um único produto.
O edital detalha as vias e praças contempladas, Brasil, XV de Novembro, Papa João XXIII, Prudente de Moraes, Mandacaru, Tuiuti, Kakogawa, entre outras e traz um acerto técnico que merece registro: temporizadores obrigatórios, com tudo ligando às 19h e desligando às 6h. É gestão eficiente de energia, e eu digo quando é bom. Os envelopes foram abertos em 4 de agosto.
A abertura oficial está marcada para 14 de novembro, com show nacional na Praça da Catedral, e a Prefeitura negocia uma vila temática da Turma da Mônica na Praça da Prefeitura, além de ações descentralizadas nos bairros e nos distritos de Floriano e Iguatemi. Uma comissão de 20 integrantes, com poder público e entidades de classe, foi montada em março.
Guarde uma data: 14 de novembro de 2026 a 10 de janeiro de 2027 são 58 dias de programação. Vamos voltar a esse número.
Dez Natais, dez jeitos diferentes de contar a mesma conta
A SÉRIE HISTÓRICA DA MARINGÁ ENCANTADA, EDIÇÃO POR EDIÇÃO
| Edição | O que está publicado |
|---|---|
| 2017 | Primeira edição, “Um Natal de Luz e Emoção”. O túnel de luz da Praça da Prefeitura virou o cartão-postal das selfies daquele Natal. O Natal de 2017 custou R$ 5,1 milhões ao todo. Os gastos foram questionados pelo Observatório Social de Maringá na ocasião porque alguns itens tiveram preços considerados altos pelo órgão. |
| 2018 | Concorrência 021/2018, a maior do ano, com teto de R$ 5,225 milhões e 13 lotes do trenzinho aos sete carros alegóricos. Atraiu 17 empresas e chegou a ser suspensa após apontamentos das concorrentes. Foram 2,4 mil árvores iluminadas e um túnel de 80 metros. |
| 2019 | R$ 4 milhões investidos, segundo levantamento da época. A edição anterior teria movimentado R$ 37 milhões no comércio, com 369.697 famílias visitantes e alta de 20,27% no ISS. |
| 2020 | Pandemia. Dois editais somando R$ 1,4 milhão (R$ 222 mil de decoração e R$ 1,2 milhão de iluminação); o de decoração fechou por R$ 173 mil, com boa economicidade. |
| 2021 | Licitação de iluminação com teto de R$ 1,9 milhão, R$ 1,3 milhão de locação e R$ 600 mil de serviço, para 2,3 mil árvores. Túnel, roda-gigante e casinha do Papai Noel ficaram de fora. Em edital separado, até R$ 563.999,70 por quatro árvores no entorno da Catedral. |
| 2022 | Até agosto, três licitações somavam R$ 4,3 milhões, uma delas revogada após provocação do Ministério Público. Em outubro, mais um edital de decoração, com teto de R$ 2.305.646. |
| 2023 | R$ 11,8 milhões, segundo a pesquisa da Prefeitura com Codem e Acim. Na mesma apresentação, o então vice-prefeito falou em cerca de R$ 13 milhões. |
| 2024 | R$ 11,5 milhões somando pregões e contratos. O pregão da decoração tinha teto de R$ 4.344.198 e foi homologado por R$ 4.335.638,99 deságio de 0,2%. O do Parque do Japão, R$ 1.448.031,75. |
| 2025 | R$ 8 milhões públicos e mais de R$ 2 milhões da iniciativa privada, incluindo R$ 900 mil na Vila do Papai Noel. Programação de 37 dias, com as atrações de volta ao Centro. |
| 2026 | R$ 6.150.486 apenas na primeira licitação, só de iluminação de árvores. Demais contratos ainda não divulgados. |
“Mudar a festa de lugar, data e tamanho é direito de quem governa. Mudar sem dizer o que deu certo é apostar com o dinheiro do maringaense.”
O número que sumiu no caminho
Agora o pedaço que ninguém comenta nas rodas de conversa do Novo Centro.

Em 2018 e 2019, a gestão da época repetia que cada R$ 1 aplicado devolvia R$ 7 à economia, foi com esse cálculo que a imprensa estimou perdas quando se cogitou suspender a festa. Em 2023, a conta oficial já era outra: a pesquisa com metodologia da FGV apontou R$ 4,57 de retorno por real investido, com R$ 54,2 milhões movimentados, 1,2 milhão de visitantes e contagem feita por drones e catracas.
E em novembro do ano passado, sobre a edição de 2024, a Prefeitura de Maringá foi direta: o resultado teria sido “de 1 para 1”, com R$ 12 milhões aplicados pelo município e retorno equivalente segundo o cálculo do Codem, relação que ele mesmo classificou como algo a melhorar. Traduzindo: R$ 12 milhões entraram, R$ 12 milhões voltaram. Empate.
Não é acusação, é aritmética. O indicador que sustentava politicamente a Maringá Encantada caiu 86% em cinco anos e a cidade não recebeu uma linha de explicação metodológica sobre por quê. Mudou o cálculo? Mudou o público? Mudou o perfil de gasto do visitante? Sobre a edição de 2025, encerrada em janeiro deste ano, não há balanço público até hoje e já estamos contratando a de 2026.
Some a isso o histórico de controle. O Observatório Social de Maringá impugnou o edital de R$ 2,4 milhões de decoração em bambu de 2023 e voltou a questionar pregões em 2024, quando o Ministério Público passou a apurar contratos que concentraram 22% do total daquele Natal em uma única empresa. O município respondeu que preza pela lisura e prestou os esclarecimentos. Perfeito, mas repare no padrão: é sempre a sociedade civil correndo atrás do papel, nunca o papel indo ao encontro do cidadão.
E tem a contradição de calendário. Ao encurtar a festa em 2025, a gestão explicou que programação longa custa mais sem render mais. Foram 37 dias. Agora, 2026 volta com 58 dias, 57% a mais. Ou o diagnóstico do ano passado estava errado, ou mudou; nos dois casos, a cidade merece a conta refeita, por escrito.
Antes que me chamem de estraga-prazeres
Sejamos justos, que é o que se espera de quem escreve com técnica.
A Maringá Encantada é patrimônio afetivo do maringaense e ativo econômico real. Ela virou “mini-temporada de verão” para hotelaria, gastronomia e comércio, encheu a Vila Gastronômica e colocou nossa cidade no calendário turístico nacional. Ela leva a família à praça em tempos de tela, e isso é saúde mental, é convívio, é criança vendo circo pela primeira vez. Ela mantém o presépio, as cantatas e o Auto de Natal vivos numa cidade que tem a fé no seu DNA. Nada disso cabe em planilha, e eu não fingiria que cabe.
E é barato? Depende do que você compara. Os R$ 6,15 milhões da primeira licitação, num orçamento municipal de R$ 3,582 bilhões, representam 0,17%. Divididos pelos 429.660 habitantes estimados pelo IBGE, dá R$ 14,31 por maringaense para dois meses de cidade iluminada e acesso livre.
Quem quer simplesmente proibir gasto público com festa está resolvendo um problema de R$ 14 e ignorando os outros R$ 8,3 mil per capita do orçamento. É debate pobre e tecnicamente errado.
Meu contraponto é outro, e mira a gestão: a cidade sabe quanto paga e não sabe o que recebe. Sabemos o teto do edital porque a lei manda publicar. Não sabemos o valor de mercado do aporte privado, não sabemos o público aferido com método divulgado, não sabemos o resultado da última edição. E, sem isso, no primeiro aperto de caixa a Maringá Encantada cai e cairá sem que ninguém consiga defendê-la com argumento melhor do que “é bonito”.
Curitiba, Gramado e São Paulo resolveram isso sem drama
Não estou inventando exigência. Estou pedindo o que já é rotina a 400 quilômetros daqui.
Curitiba (PR) fez o movimento mais ousado: lançou chamamento público de patrocínio para o Natal em que os custos são bancados pelos patrocinadores, sem repasse financeiro do município, em troca de contrapartidas de divulgação. Foram 23 patrocinadores na edição de 2025 de banco a supermercado, de cosmético a montadora e a temporada terminou com 3 milhões de visitantes e balanço divulgado.
Gramado (RS) organiza o Natal Luz por meio da Gramadotur, autarquia municipal que se financia com bilheteria e cotas de patrocínio. E, o mais importante, presta contas evento a evento em reunião do Conselho de Administração: a Festa da Colônia custou R$ 900 mil, integralmente cobertos por patrocínio; o Festival de Cinema custou R$ 6 milhões, recuperados via parcerias comerciais. Custo e cobertura, item por item, publicados.
São Paulo (SP) gasta muito mais e mede mais: contratou a FGV para auditar o impacto da sua Virada Cultural, com pesquisa de campo, perfil de público e estimativa de tributos gerados. Quem gasta mais mede mais. Aqui, quem gasta menos não mede quase nada.
A lição é sempre a mesma: onde há governança clara e prestação de contas padronizada, o patrocínio privado cresce e a conta pública encolhe. Maringá já provou que sabe fazer a parte difícil, os mais de R$ 2 milhões privados de 2025 são resultado concreto de mesa de negociação com o empresariado. Falta transformar isso em regra escrita, para que não dependa de quem estiver na cadeira em 2029.
Dia 14 de novembro, quando as luzes acenderem
Nas redes, o maringaense já disse o que quer, e não é o que os extremos gostariam de ouvir. Ninguém quer acabar com o Natal. As reclamações que se repetem nos grupos de bairro e nos comentários dos portais locais são práticas: estacionamento, deslocamento até as atrações, preço dos brinquedos e desejo de que os bairros e os distritos também recebam luz e não só o eixo central. São demandas de mobilidade e de equidade territorial, não de austeridade.
Dez edições são tempo mais que suficiente para uma cidade que se orgulha de ser bem administrada saber exatamente o que faz com o próprio dinheiro. A Maringá Encantada merece o mesmo rigor que exigimos de um contrato de saúde ou de uma obra viária: começo, meio, fim e prestação de contas. Isso não é desconfiança. É respeito pelo tamanho que a festa alcançou e pelo maringaense que a paga.
“Transparência não apaga a luz do Natal. Ela só mostra, com honestidade, quem pagou a conta.”
E agora, o que você faz com isso? Três atitudes, todas ao alcance de quem lê este texto hoje:
- Cidadão: acompanhe as próximas licitações da edição de 2026 no Portal da Transparência do município. Edital acompanhado é edital mais barato.
- Lideranças de bairro ou de entidades da sociedade civil: peça, por escrito e com protocolo, o relatório de encerramento da edição de 2025. Pedido individual vira estatística; pedido coletivo vira pauta.
- Empresário maringaense: o patrocínio privado pode ser o caminho que reduz a conta pública sem apagar uma única lâmpada. Cobre contrapartida clara e prestação de contas, isso protege a sua marca tanto quanto protege o município.

🔗 Leitura Complementar
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