Última atualização em 20/06/2026 por Alan Zampieri
O número que anima todo mundo — e o que ele esconde
Vamos começar pelos dados que circulam nas redes: uma projeção da Abrasel, em parceria com a empresa Goomer, estima alta de até 150% no fluxo de clientes em dias de jogos do Brasil. Na Copa do Catar, em 2022, a estreia da seleção contra a Sérvia gerou crescimento de 50% nos pedidos e 40% no faturamento, na média nacional. Em São Paulo, os números chegaram a 103% de pedidos a mais.

Esses são números que empolgam qualquer empreendedor. E a Copa de 2026 tem vantagens claras em relação a 2022: os jogos do Brasil serão majoritariamente às sextas, sábados e à noite — horários muito mais favoráveis para quem frequenta bares e restaurantes. O calendário, desta vez, joga a favor.
Mas há um contraponto que precisa ser colocado na mesa com a mesma clareza.

Em outras palavras: a Copa é um pico de receita pontual em um cenário de pressão estrutural permanente. Confundir os dois é um erro que o gestor sério não pode cometer.
O setor gastronômico de Maringá: muito potencial, pouco apoio público
Maringá tem uma vocação gastronômica que qualquer maringaense reconhece. Basta dar uma volta pela Avenida Humaitá no fim de tarde para perceber que a cidade vive seus bares e restaurantes com intensidade.
No Brasil, o setor reúne cerca de 700 mil estabelecimentos, emprega 1,5 milhão de pessoas diretamente e movimenta R$ 200 bilhões por ano. Para uma cidade do porte de Maringá, com aproximadamente 430 mil habitantes, o impacto proporcional é enorme: o setor gastronômico é, de longe, um dos maiores empregadores locais na economia privada.
Quando a festa acaba, o problema continua: três desafios que a Copa não resolve
1. A bomba tributária na nova ordem fiscal
A partir de 2026, com implementação gradual até 2033, a Reforma Tributária institui o CBS e o IBS em substituição a cinco tributos. Para bares e restaurantes, há uma redução de 40% nas alíquotas para itens preparados no estabelecimento, o que parece ótimo. Só que a regulamentação publicada em abril de 2026 criou restrições não previstas na lei, como a proibição de que bebidas não alcoólicas industrializadas usufruam da alíquota reduzida, mesmo que manipuladas no local. Isso gera insegurança jurídica e cumulatividade não percebida para muitos estabelecimentos.
Em termos práticos: o empresário maringaense que não tiver um bom contador e um sistema de gestão atualizado vai pagar mais do que deveria. E a Prefeitura de Maringá e a Câmara Municipal têm papel a cumprir aqui, seja articulando orientação fiscal coletiva ao setor, seja desonerando taxas municipais complementares.
2. A crise silenciosa da mão de obra
A taxa de rotatividade de 74,3% ao ano no setor, mais que o dobro da média de serviços, é um problema crônico. Para a Copa, isso significa risco real: com pico de demanda e equipes incompletas, a experiência do cliente cai, o empresário perde a chance de fidelizar novos frequentadores que a Copa trouxe.
A Abrasel lançou o “Bora Formar Garçons” em parceria com Ambev e Catho. É uma iniciativa privada interessante. Mas Maringá precisa de um programa municipal que integre as escolas profissionalizantes, o SENAC, o SENAT e a Prefeitura num ciclo contínuo de qualificação. Isso é gestão pública eficiente.
3. O ciclo vicioso de eventos sem planejamento integrado
Maringá tem vocação para eventos. A Vila Gastronômica na Maringá Encantada, o Maringá Coffee Festival, a Festa da Canção, a cidade sabe criar marcos no calendário. Mas esses eventos ainda funcionam de forma fragmentada, sem uma política pública de turismo gastronômico que conecte os estabelecimentos, crie uma identidade e distribua o impacto econômico ao longo de todo o ano, não apenas em picos como a Copa ou o Natal.
O que cidades do mesmo porte estão fazendo — e Maringá ainda não fez
Enquanto debatemos o tema nas redes sociais, outras cidades brasileiras com perfil semelhante ao de Maringá já tomaram decisões práticas. Vale aprender com elas.
Em Alagoas, a Abrasel/AL lançou o “Projeto Capacita e Emprega”, que qualifica profissionais para o setor e gerou mais de mil novos empregos formais em 2024, ultrapassando a marca de 20 mil trabalhadores formais no segmento no estado.
Maringá tem a Abrasel Noroeste, tem SENAC, tem UEM, tem UNINGÁ, tem UNICIVE, tem UNICESUMAR — tem estrutura para criar algo equivalente. O que falta é vontade política e um projeto de lei que dê sustentação legal a esse esforço.
A Copa é a oportunidade, a política pública é o legado
Vou ser honesto com você que lê este blog: a Copa do Mundo vai gerar caixa para quem estiver bem preparado e bem capitalizado. Para quem já vinha acumulando prejuízo, ela pode até agravar a situação — se o empresário contratar mais pessoal, ampliar o estoque e o retorno não compensar o investimento.
O dado da Abrasel é revelador: em 2025, o setor faturou R$ 495 bilhões no Brasil, mas começou 2026 com perda de ritmo no emprego e pressão nos custos. Crescimento de receita e saúde financeira são conceitos diferentes — e Maringá precisa trabalhar pelos dois.
“Evento pontual gera caixa. Política pública permanente gera prosperidade. Maringá merece as duas coisas e ainda não tem a segunda como deveria.”
O faturamento do setor no Brasil até que segue em crescimento, mas em muitas regiões é instável e não uniforme, e as cidades que avançaram mais foram aquelas que combinaram o aquecimento do mercado com políticas públicas consistentes de apoio, qualificação e desoneração. Não foi coincidência, foi gestão.
Maringá tem tudo para ser referência gastronômica do Paraná — não apenas em época de Copa, mas o ano todo. Tem gastronomia diversa, tem empreendedores dedicados, tem capacidade instalada. O que ainda falta é um projeto de lei que transforme esse potencial em política pública mensurável, transparente e eficiente.
A Copa passa, o problema do setor fica e a resposta precisa ser permanente.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
🔗 Leitura Complementar
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