Última atualização em 11/06/2026 por Alan Zampieri
O que é, afinal, esse tal modelo cívico-militar?
Antes de qualquer opinião, é preciso separar o debate do mito. O modelo cívico-militar não transforma a escola em quartel. Os professores continuam os mesmos. O currículo permanece intacto. A gestão pedagógica segue sendo responsabilidade dos educadores e da Secretaria de Educação.
O que muda é a presença de profissionais — em geral militares da reserva — responsáveis pela disciplina, segurança, patrimônio e organização da rotina escolar. A ideia é criar um ambiente mais ordenado, com regras claras de conduta, sem substituir o papel do professor em sala de aula.
O Paraná foi pioneiro nesse caminho. O programa estadual começou em 2021, durante o primeiro mandato do governador Ratinho Junior. Hoje, são 312 colégios cívico-militares estaduais no estado, a maior rede do gênero no Brasil, atendendo cerca de 190 mil estudantes. Em Maringá, cinco escolas estaduais já funcionam nesse formato — e a comunidade, quando consultada, aprovou a adesão.
O que dizem os dados? Evidências que não podem ser ignoradas
Quem defende o modelo não está falando no vazio. Uma pesquisa publicada em 2025 na International Journal of Educational Development — uma das revistas científicas mais respeitadas da área de educação — analisou dados de aproximadamente 66 mil alunos de escolas cívico-militares de Goiás. Os resultados merecem atenção.
Impacto do Modelo Cívico-Militar — Resultados em Goiás (UFPB/IJED, 2025)

Fonte: Araujo, J.M. — International Journal of Educational Development, mai/2025 | Gazeta do Povo
No Paraná, das 20 escolas com os melhores índices no IDEB 2023, duas seguem o modelo cívico-militar estadual. O estado aparece consistentemente entre os líderes nacionais na educação básica.
Quando a consulta pública foi realizada nas escolas estaduais de Maringá, o resultado também foi expressivo: 89,3% dos pais e responsáveis e 90,4% dos professores aprovaram a adesão.
Mas aqui vem o contraponto necessário, e é onde o debate precisa de mais honestidade intelectual.
O que o sindicato e os críticos têm razão em apontar
O Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Maringá (Sismmar) foi rápido em reagir. E, nesse caso, tem razão em parte de suas críticas. A entidade argumenta que os desafios reais da rede municipal exigem investimento em infraestrutura, concursos públicos, valorização das carreiras e melhores condições de trabalho. Isso não é corporativismo, é política pública básica.
E aqui está o dado que mais me incomoda nesse debate todo, o elefante na sala: Maringá investiu menos do que o mínimo constitucional em educação nos primeiros quatro meses de 2026. O município gastou R$ 171 milhões, quando deveria ter aplicado ao menos R$ 199 milhões, uma diferença de R$ 28 milhões. Descontando os gastos que não entram no índice constitucional (alimentação, uniforme, transporte), o número despenca para R$ 105 milhões, representando apenas 13% da receita, contra os 25% exigidos pela Constituição Federal.
Como se pode debater a implantação de um modelo que custa 40% a mais por aluno do que o ensino convencional, ao mesmo tempo em que se descumpre o piso constitucional de investimento em educação? Essa pergunta precisa ser respondida antes de qualquer decisão.
Maringá: Investimento em Educação — Jan a Abr/2026 (em R$ milhões)

Fonte: Secretaria Municipal da Fazenda (SeFaz) — Audiência Pública, 27/mai/2026
Outros pontos legítimos dos críticos merecem espaço no debate:
Argumentos favoráveis ao modelo
- Resultados positivos no IDEB e na aprendizagem em pesquisas científicas independentes
- Redução documentada da violência e do uso de drogas no ambiente escolar
- Alta aprovação de pais e professores nas consultas realizadas no Paraná
- Foco em disciplina e segurança sem alterar currículo ou autonomia pedagógica
- Experiência estadual consolidada: 312 escolas no Paraná com resultados mensuráveis
Pontos de atenção e críticas legítimas
- Custo 40% maior por aluno, sem respaldo orçamentário no cenário atual de Maringá
- Município abaixo do mínimo constitucional de 25% em educação
- Risco de militarização da gestão escolar em contextos inadequados
- Necessidade de concurso público, infraestrutura e valorização docente antes do modelo
- Ausência de projeto concreto: consulta sem parâmetros claros pode gerar desinformação
O que outras cidades do Brasil fizeram e o que Maringá pode aprender?
Maringá não precisa reinventar a roda. Existem casos práticos bem documentados pelo Brasil que mostram caminhos — e armadilhas.
Goiânia (GO) foi das primeiras a implementar o modelo em escolas públicas estaduais de alta vulnerabilidade. O programa Colégio Estadual da Polícia Militar de Goiás (CEPMG) opera há mais de 40 anos. Hoje, as escolas cívico-militares de Goiás têm IDEB médio de 4,8 no Ensino Médio — acima da média nacional de 4,3 — e as unidades integralmente militarizadas chegam a 5,3, conforme dados do próprio programa estadual.
São Paulo (SP), por sua vez, tomou um caminho mais cauteloso. O governo estadual estendeu a consulta pública até 2025 e adiou a implantação para 2026 após debate com especialistas. A lição paulista é que a pressa na implementação sem critérios claros gera mais conflitos do que soluções.
O denominador comum das experiências bem-sucedidas? Três condições: projeto pedagógico claro, consulta pública genuína (não apenas protocolar) e seleção criteriosa das escolas, priorizando vulnerabilidade social e histórico de violência — não a rede inteira de uma vez.
“A pergunta certa não é ‘escola cívico-militar: sim ou não?’. A pergunta certa é: o que Maringá está disposta a investir, de verdade, na educação das nossas crianças?”
A democracia se fortalece na escola. E a escola pública só cumpre seu papel transformador quando recebe o investimento que a Constituição determina, a autonomia pedagógica que os professores merecem e o respeito que cada criança e família da nossa cidade têm direito.
Isso não é pauta de esquerda nem de direita. É responsabilidade de gestão. E Maringá precisa, urgentemente, dessa conversa séria.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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