Última atualização em 28/05/2026 por Alan Zampieri
Quem passou pela Expoingá 2026 viu, num dos corredores do Parque Internacional de Exposições Francisco Feio Ribeiro, um estande de 125 metros quadrados com tecnologia de realidade virtual, atendimentos da Ouvidoria, da Procuradoria da Mulher e vereadores revezando-se para ouvir a população. Bonito, funcional no papel, e surpreendente para quem lembrava que, em 2025, o legislativo maringaense estreou na feira com um espaço de 18 m² por pouco mais de R$ 10 mil.
O contraste não é detalhe. É um termômetro do debate que Maringá precisa ter: quanto vale institucionalizar a presença do poder público em eventos privados e como garantir que o dinheiro do contribuinte gere retorno real, mensurável e proporcional?
Da barraca de 18 m² para o salão de 125 m²: o que aconteceu?
Em abril de 2026, o Maringá Post revelou o contrato firmado entre a Câmara Municipal e a Sociedade Rural de Maringá (SRM), utilizando inexigibilidade de licitação, modalidade juridicamente cabível quando há fornecedor único para o serviço, como é o caso da própria organização da feira. O ato foi publicado no Portal da Transparência, o que cumpre a lei, mas não encerra o debate sobre proporcionalidade.
A iniciativa foi batizada de “Câmara Itinerante”, com o mote “Câmara mais perto de você”. A proposta é legítima: levar o parlamento para onde o povo está. A Expoingá recebeu mais de 500 mil visitantes em 2025 e projeta superar essa marca em 2026. Nenhum evento concentra tanto a cidade num único espaço.
Mas o salto de R$ 10,9 mil para R$ 176 mil, um aumento de mais de 1.500%, exige mais do que boas intenções. Exige critérios claros, metas publicadas antes da contratação e relatório de resultados com metodologia auditável. Até o fechamento desta análise, a Câmara não havia respondido à reportagem do Maringá Post sobre os motivos da expansão.
Comparativo de investimento da Câmara de Maringá na Expoingá (R$ mil)


Quadro criado com auxílio de IA
O lado positivo que não dá pra ignorar
Vamos ser justos… Quem lida com políticas públicas sabe que análise responsável passa também por reconhecer o que funcionou. O balanço divulgado pela Câmara após a Expoingá aponta: mais de 35 mil pessoas circularam pelo espaço em 11 dias, com cerca de 10 mil participando ativamente das ações. A Ouvidoria e a Procuradoria da Mulher prestaram atendimentos. Parlamentares ouviram demandas sobre saúde, infraestrutura, segurança e mobilidade urbana.
Autoridades como o governador Ratinho Júnior e o presidente da ALEP, Alexandre Curi, visitaram o estande. O espaço utilizou óculos de realidade virtual para aproximar jovens da democracia representativa. São iniciativas que merecem continuidade — e a vereança local anunciou o programa “Câmara de Vereadores Mais Perto de Você“, prevendo deslocamento de equipes para bairros da cidade ao longo do ano.
Custo por visitante: considerando os R$ 176 mil totais e os 35 mil visitantes do estande, chegamos a um custo de aproximadamente R$ 5,00 por pessoa — ou R$ 17,60 por participante ativo (10 mil).
Custo por visitante vs. participante ativo – CMM na Expoingá 2026


Quadro criado com auxílio de IA
O orçamento que cresce e a população que espera mais
Esse episódio não existe num vácuo. Como já analisei aqui no blog, o orçamento da Câmara de Maringá cresceu 149% em cinco anos, saltando de R$ 33 milhões em 2021 para R$ 82 milhões previstos em 2026. Em paralelo, o próprio legislativo confirma um ajuste de 24% em relação ao ano anterior, chegando à marca de R$ 72 milhões no orçamento aprovado. Cada real gasto tem que ter justificativa clara — e não apenas publicação no Portal da Transparência.
A cidade que sediou uma Expoingá com projeção de superar R$ 1 bilhão em negócios e onde o governo do Estado investirá R$ 53,7 milhões para construir um estacionamento vertical merece um legislativo à altura, com transparência ativa, metas publicadas e prestação de contas que vá além do clipping de fotos.
O que outras cidades já fizeram e Maringá pode aprender?
O que esses casos têm em comum? Governança prévia, não apenas prestação de contas posterior. Diferença fundamental para quem lida com dinheiro público.
Minha posição, sem meias palavras!
A ideia de um parlamento itinerante é correta. Ouvir o maringaense onde ele está — e a Expoingá reúne meio milhão de pessoas — é exatamente o que se espera de um legislativo comprometido com a cidade. Não tenho dúvida sobre isso.
O que me incomoda, e deve incomodar qualquer cidadão que paga impostos e acompanha a política com seriedade, é o salto desproporcional sem critérios publicados, sem meta prévia e sem metodologia de avaliação. Transparência não é só publicar o contrato depois que assina. É explicar antes, definir metas, medir e reportar. Essa sequência ainda não foi cumprida aqui.
Maringá tem um orçamento municipal de R$ 3,5 bilhões. Nosso legislativo consome uma fatia crescente desse bolo. Quando esse dinheiro gera serviço real ao cidadão, com método e prestação de contas, ele é bem empregado. Quando cresce sem critério, é dever cívico questionar. É isso que faço aqui.
Qual é a sua opinião?
Acredito que o debate público transparente é o que move a nossa cidade para frente. Como você avalia a presença das instituições públicas em grandes feiras? Você visitou o estande ou sentiu falta de algum serviço?
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
Leitura Complementar
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