Última atualização em 22/07/2026 por Alan Zampieri
Um prédio a menos, um problema que se repete
Maringá tem no papel uma rede de assistência social estruturada. Na prática, o que se vê nos últimos dois anos é uma sequência de sinais amarelos e vermelhos no sistema de proteção a crianças e adolescentes afastados do convívio familiar. A recomendação do CMDCA para desativar mais um imóvel de acolhimento, por não oferecer condições mínimas de segurança e higiene, não é um fato isolado. É sintoma de um problema estrutural: a gestão predial e orçamentária dos equipamentos públicos que abrigam os acolhidos não acompanha a demanda, nem a legislação que rege a matéria.
Não é exagero falar em recorrência. Veja o retrospecto recente, reunido a partir de reportagens locais e decisões oficiais:
Cinco episódios em pouco mais de um ano, envolvendo unidades diferentes, mas o mesmo diagnóstico: imóveis alugados ou cedidos sem adequação estrutural permanente, manutenção predial reativa, só depois que o problema já virou notícia, e um ciclo de mudanças de endereço que não resolve a causa raiz.
Onde está o ponto forte, onde está o risco
Como gestor, é preciso reconhecer o que funciona antes de apontar o que falha. Maringá tem, há anos, o Serviço Família Acolhedora em funcionamento contínuo, coordenado pela Secretaria de Assistência Social, com inscrições abertas o ano todo e processo de seleção estruturado com visita domiciliar, entrevista e formação presencial das famílias interessadas. É um ponto forte real: a modalidade familiar é reconhecida pelo Conselho Nacional de Justiça como preferencial ao acolhimento institucional, justamente por reduzir o tempo de exposição da criança a ambientes coletivos e favorecer vínculos afetivos individualizados.
O ponto de melhoria está na outra ponta: a infraestrutura física do acolhimento institucional, que continua sendo necessária para os casos que a legislação exige, não dá para acolher todo mundo em família acolhedora do dia para a noite. E é justamente aí que o município vem sendo pego de surpresa, prédio após prédio.
A ameaça é clara: cada nova interdição gera custo emergencial de realocação, expõe crianças e adolescentes já vulneráveis a mais uma mudança abrupta de rotina, e produz desgaste institucional junto ao Judiciário e ao Ministério Público, que já vêm cobrando o Executivo e o próprio CMDCA por soluções permanentes.
A oportunidade também é clara: transformar um problema recorrente em política pública estruturada, com previsibilidade orçamentária e fiscalização preventiva, não mais reativa.
O que outras cidades já fizeram
Maringá não precisa reinventar a roda; precisa olhar para experiências consolidadas. O Distrito Federal opera o Serviço Família Acolhedora desde 2019, executado pela organização Aconchego em parceria com a Secretaria de Desenvolvimento Social e a Vara da Infância; desde então, mais de 170 crianças já foram atendidas pelo modelo, com redução comprovada de sequelas emocionais associadas à institucionalização prolongada.

O contraste nacional expõe o tamanho do desafio: apenas cerca de 5% das mais de 32 mil crianças e adolescentes acolhidos no Brasil estão em família acolhedora, segundo dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento levantados pelo CNJ. Maringá está alinhada à média nacional, o que não é elogio, é alerta. Cidades de porte semelhante ao nosso já mostraram que dá para fazer diferente, com parceria institucional bem desenhada e acompanhamento técnico contínuo.
“Entre remendar prédio alugado e investir em política pública permanente, Maringá já escolheu o caminho errado tempo demais.”
Esse é um tema que atravessa a política partidária: ninguém, de nenhum campo ideológico, defende publicamente que uma criança acolhida pelo Estado durma em colchão no chão. O que falta é cobrança sistemática e proposta técnica, não indignação pontual a cada nova reportagem.
Se você é liderança de bairro, profissional da educação, da saúde, da assistência social ou simplesmente um maringaense que acompanha as notícias de política da nossa cidade, vale acompanhar a pauta na Câmara Municipal de Maringá e cobrar dos vereadores um posicionamento claro sobre políticas de cuidado e acolhimento à crianças e adolescentes, e sobre a destinação orçamentária para manutenção predial dos serviços de assistência social no município. Debate público qualificado é o primeiro passo para transformar recomendação de conselho em solução definitiva.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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