Última atualização em 24/07/2026 por Alan Zampieri
Imagem: Correio do Povo
Quando a tragédia bate direto na nossa própria vizinhança
Tem gente que só entende a dimensão de uma tragédia internacional quando ela toca alguém que conhece, o colega de trabalho, o aluno, o vizinho de bairro. Pois é exatamente isso que está acontecendo em Maringá agora. A cidade tem uma comunidade venezuelana estabelecida há anos, parte dela reconstruída aqui depois de fugir da crise econômica e humanitária que já castigava o país antes mesmo do terremoto. Muita gente dessa comunidade perdeu parente, perdeu casa, perdeu notícia de quem ficou para trás.
Os números da tragédia impressionam pela escala. Levantamentos divulgados nos primeiros dias após o terremoto já apontavam mais de 920 mortos e quase 3 mil feridos, estimativas mais recentes da ONU, à medida que o trabalho de resgate avança, indicam um número de vítimas fatais consideravelmente maior, ainda em apuração. Mais de 250 prédios ficaram destruídos, o aeroporto internacional de Caracas chegou a ser fechado, e um site criado para localizar desaparecidos chegou a registrar dezenas de milhares de pessoas sem paradeiro conhecido nos primeiros dias.
Os números que sustentam a urgência
Antes mesmo do terremoto, a Venezuela já enfrentava uma das crises humanitárias mais graves do continente: 7,9 milhões de pessoas precisavam de algum tipo de assistência no início de 2026, resultado de anos de estagnação econômica, inflação e serviços públicos sob pressão. O terremoto agravou um quadro que já era crítico e a resposta internacional, por mais volumosa que pareça, segue historicamente subfinanciada: em 2025, apenas 17% dos mais de US$ 600 milhões solicitados pela ONU para o país foram efetivamente recebidos.

A resposta internacional se organizou rapidamente: Estados Unidos, União Europeia, Rússia, Cuba, México e França anunciaram apoio nos primeiros dias, com equipes de resgate, suprimentos médicos e recursos financeiros. A União Europeia liberou 15 milhões de euros em financiamento emergencial logo após a tragédia, dentro de uma alocação humanitária de 67 milhões de euros previstos para o país em 2026. O Programa Mundial de Alimentos da ONU fez apelo urgente por US$ 50 milhões só para garantir segurança alimentar nas semanas seguintes ao desastre. O Brasil também mobilizou o Governo Federal, com bombeiros especializados, hospital de campanha da Marinha e voos da Força Aérea Brasileira levando suprimentos.
Maringá na linha de frente, sem esperar ordem de cima

É aqui que a nossa cidade entra na história, e é um ponto forte que precisa ser reconhecido sem meio-termo: Maringá não ficou de fora. O Instituto Sendas, organização sem fins lucrativos vinculada à 2ª Igreja Presbiteriana Independente de Maringá e coordenada por migrantes internacionais de países como Venezuela, Haiti e Nigéria, atua há anos na cidade com integração de refugiados, assistência humanitária e defesa de direitos, recebeu inclusive o Selo Social em 2022. Fundado e presidido pelo reverendo Erick Perez, venezuelano radicado em Maringá, o instituto já vinha desenvolvendo a campanha “Juntos Pela Venezuela” antes mesmo do terremoto.
Com a tragédia, o Sendas deu um passo além: criou a Rede Maringaense de Solidariedade com a Venezuela, articulando igrejas, empresas, universidades, profissionais voluntários e lideranças comunitárias em duas frentes simultâneas, apoio emocional e espiritual aos venezuelanos que vivem em Maringá e ajuda humanitária às comunidades atingidas na Venezuela. A iniciativa inclusive abriu canais de escuta e orientação para quem, morando aqui, está enfrentando a angústia de ter família na zona do desastre.
“Quando o desastre é do outro lado do mapa, mas a dor está na rua ao lado, a resposta não pode ser só solidariedade de rede social, precisa ser ação organizada.”
Ponto forte, ponto de melhoria, o diagnóstico sem rodeio
Como ponto forte, é justo reconhecer: a sociedade civil maringaense se moveu rápido, com organização e capilaridade, igreja, ONG e comunidade migrante trabalhando junto, sem esperar decreto. Isso tem endereço, tem nome de instituição, tem gente à frente prestando contas publicamente do que arrecada.
Em Maringá, até o momento, não há registro público de uma articulação equivalente por parte do Executivo ou da Câmara Municipal, o protagonismo seguiu inteiramente com a sociedade civil. Não é isso que deveria acontecer numa cidade que se orgulha de ter uma gestão pública atenta. Ajuda humanitária internacional não é pauta ideológica, é dever de cooperação entre povos e o poder público municipal tem instrumentos de comunicação, logística e espaço público que amplificam qualquer campanha, sem custo relevante ao orçamento.
Chamada para quem quer ajudar de verdade
Diante de uma tragédia dessa escala, dá pra ficar só na comoção da rede social, ou dá pra fazer algo que realmente chegue à ponta. Se você é liderança comunitária, empresário, profissional liberal ou simplesmente um maringaense que quer contribuir, três caminhos concretos:
- Conhecer e apoiar diretamente a campanha do Instituto Sendas, com doação financeira ou voluntariado;
- Cobrar dos vereadores da Câmara Municipal de Maringá uma posição formal sobre apoio institucional a campanhas humanitárias, o protocolo de resposta rápida não sai do papel sem provocação pública;
- Compartilhar informação verificada sobre a crise, evitando boatos e desinformação, que sempre proliferam em momentos de comoção internacional.
A generosidade de Maringá já está em ação. Falta a gestão pública andar no mesmo ritmo.
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