Última atualização em 28/05/2026 por Alan Zampieri
Deixa eu ser direto com você, maringaense: setembro está chegando. E junto com ele, uma ameaça climática que já tem nome, data e endereço.
O meteorologista Piter Scheuer, uma das vozes mais sérias do setor no Brasil, publicou nas redes sociais um alerta que circulou amplamente nos últimos dias. Ele não usou meias palavras: “O super El Niño que nós estamos prevendo é para ser um dos mais fortes da história.” A previsão aponta para chuvas muito acima da média, temporais frequentes, enchentes e até tornados no oeste da Região Sul, com Paraná incluído.
Agora me diz: o que Maringá está fazendo a respeito?
A tempestade que o Pacífico está fabricando
O El Niño é um fenômeno natural de aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Quando ele chega forte ao sul do Brasil, traz chuvas volumosas, granizo, vendavais e enxurradas. Isso não é novidade… Quem viveu 1983 ou 1997 em Maringá sabe bem o que um El Niño intenso é capaz de fazer.
O Centro de Previsões Climáticas da NOAA (EUA) estima 90% de chance de o fenômeno se consolidar a partir de junho de 2026, permanecendo ativo até o verão de 2026/27. O período mais crítico para o Paraná está previsto entre setembro e outubro, quando o fluxo de umidade da Amazônia se direciona para o Sul.
O avanço do fenômeno será gradual: começa no Rio Grande do Sul, avança para Santa Catarina a partir de junho e chega ao Paraná em seguida. Para quem mora na Cidade Canção, o recado é simples: o relógio já está correndo.

Fontes: Piter Scheuer · ND Mais (mai/2026) · NOAA — Centro de Previsões Climáticas · ND Mais (2026) – Quadro criado com o auxílio de IA
Maringá está preparada? Os números dizem que não
Em dezembro de 2025, a Prefeitura de Maringá deu um passo importante: contratou a Universidade Livre do Meio Ambiente (Unilivre), referência nacional em sustentabilidade, para elaborar um plano de adaptação às mudanças climáticas e um diagnóstico de drenagem urbana. O levantamento inicial já identificou 50 pontos com histórico de alagamento e outros 39 com processos erosivos ativos no município.
A iniciativa é válida. É o tipo de política pública baseada em dados que Maringá precisava há anos e que merece reconhecimento. Mas existe um abismo entre diagnóstico e solução. Identificar os problemas é o ponto de partida, não de chegada.
“Vamos entregar os projetos prontos para que o município possa licitar. O plano de mitigação é outra etapa importante.” – — Representante da Unilivre ao O Maringá, dezembro de 2025
A pergunta que precisa ser feita é: com o El Niño buscando endereço no Paraná para setembro, em que fase estão esses projetos? Já foram licitados? Foram executados? Quais dos 50 pontos críticos receberam solução definitiva?
A Guaiapó que vira lama e o Ingá que não absorve chuva
Quem passa pela Avenida Guaiapó nos últimos meses sabe do que estou falando. A revitalização do canteiro central virou motivo de reclamação generalizada de moradores e comerciantes. Terra exposta, poeira em dias de sol, lama em dias de chuva. “A Guaiapó parece esquecida. As melhorias demoram demais”, relatou moradora ao Maringá Mais em outubro de 2025.
A própria Secretaria de Infraestrutura reconheceu que as intervenções mais recentes na Guaiapó são emergenciais e provisórias, aguardando uma obra definitiva de macrodrenagem que substituirá tubulações antigas. Isso é honesto, mas é preocupante. Uma das principais avenidas da cidade entra na primavera de 2026, exatamente o período de pico do El Niño, com soluções paliativas.
“Construir calçadas impermeáveis dentro de um parque às vésperas do El Niño é uma oportunidade desperdiçada de proteger Maringá onde ela mais precisa.”
No Parque do Ingá, o problema tem outra face. A prefeitura previu até R$ 8 milhões em reformas para 2026, e parte das intervenções inclui áreas de circulação e calçadas. Aqui o ponto técnico é incontornável: pavimentação impermeável em área de parque urbano é contraditória com qualquer política de drenagem sustentável. A lógica deveria ser inversa — ampliar superfícies permeáveis, criar jardins de chuva, fortalecer a vegetação que retém água e protege o solo. Afinal, o Parque do Ingá é justamente um dos principais amortecedores naturais de cheias da cidade.
Os R$ 152 mil da Câmara na Expoingá 2026 e as mudanças climáticas: Debate sobre transparência e indicadores de resultado
A Câmara Municipal de Maringá firmou contrato com a Sociedade Rural de Maringá para ter um estande de 125 m² na Expoingá 2026 pelo valor de R$ 152,3 mil, além de uma licitação separada de cerca de R$ 24 mil para material gráfico. O total ultrapassa R$ 176 mil.
Para contexto: em 2025, primeiro ano em que o legislativo participou da feira, o gasto foi de R$ 10,9 mil com um espaço de 18 m². Em 2026, o espaço cresceu para 125 m² e o orçamento disparou mais de 13 vezes.
Dito isso, é preciso ser justo na análise. A participação do legislativo em eventos que aproximam a população dos serviços do parlamento é legítima e pode ser muito bem-vinda. A Expoingá reúne expectativa de mais de 500 mil visitantes, é uma vitrine para o debate público e para aproximar cidadãos da política municipal. Não há problema em estar lá.
O problema é a ausência de métricas. Quais perguntas precisam ser respondidas?
▸Quantas pessoas foram atendidas no estande ao longo dos 10 dias de feira?
▸Quantos vereadores estiveram presentes e em quais dias?
▸Quantos requerimentos ou projetos de lei foram gerados a partir das demandas ouvidas na feira?
▸O custo por atendimento justifica os R$ 176 mil investidos? E o atendimento continua funcionando normalmente na sede da Câmara?
Sem essas respostas, o debate de 2027 sobre continuar ou não no evento será uma decisão política, não técnica. E gestão pública que não se mede, não se melhora.
O que outras cidades já fizeram e o que Maringá pode aprender?
Não precisamos reinventar a roda. Cidades do porte de Maringá já enfrentaram o desafio climático com políticas públicas concretas.
Curitiba é a referência mais próxima: possui um Plano de Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas com arcabouço legal, inventário de emissões e metas de redução mensuráveis — o único município do Paraná com esse instrumento aprovado. Maringá, como apontou a própria Unilivre, seria a segunda cidade do interior do estado a ter esse diagnóstico baseado em dados primários. Mas diagnóstico não é plano.
Transparência não é detalhe, é método de governo
Há uma linha que conecta a Expoingá, a Avenida Guaiapó e o El Niño para a gestão pública de Maringá, e ela não é coincidência: a ausência de métricas de resultado.
Gastamos R$ 152 mil em um estande de feira, sem saber o retorno. Construímos calçadas em um parque e m um canteiro central na Avenida Guiapó, sem avaliar o impacto na drenagem. Mapeamos 50 pontos de alagamento, sem publicar o cronograma de soluções. E agora, às vésperas de um evento climático histórico, seguimos operando no improviso.
Isso não é crítica por crítica. É diagnóstico necessário. Porque gestão pública eficiente começa com uma pergunta honesta: o que estamos entregando, e quanto está custando para o maringaense?
A boa notícia é que temos os ingredientes: um mapeamento técnico contratado, um parque que pode ser modelo de infraestrutura verde, uma Câmara com potencial para liderar o debate climático na região. O que falta é vontade política de transformar dados em decisão e transparência em cultura de governo.
O El Niño não espera. E os maringaenses, também não.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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