Última atualização em 29/05/2026 por Alan Zampieri
Um homem de 52 anos foi trabalhar e perdeu um olho. Isso não pode ser tratado como página de policial.
Antes de qualquer análise técnica, política ou jurídica, preciso dizer o óbvio: um ser humano foi ao trabalho para cuidar de adolescentes em situação de vulnerabilidade e saiu de lá sem a visão de um olho. Isso é grave. É chocante. E, acima de tudo, é evitável.
Um servidor da Prefeitura de Maringá, de 52 anos, perdeu a visão de um dos olhos após ser agredido por um interno enquanto trabalhava em um abrigo de adolescentes. O caso foi registrado no último sábado, 16 de maio, e foi denunciado pelo SISMMAR. O servidor precisou passar por cirurgia e teve confirmada a perda da visão de um dos olhos.
Solidariedade, primeiro. Análise, depois.
Esse servidor é colega de centenas de maringaenses que trabalham na linha de frente da assistência social, profissionais que, dia após dia, lidam com as situações mais complexas e delicadas que nossa cidade produz: crianças sem família, adolescentes com histórico de violência, jovens que o mundo deixou para trás. Não é fácil. Nunca foi. E esse trabalho merece respeito, estrutura e proteção.
Isso não é um caso isolado!

Já escrevi aqui, em julho de 2025, sobre a crise no abrigo infantil de Maringá: fugas, superlotação, servidores ameaçados, crianças no telhado, depredação do prédio. O abrigo enfrenta problemas desde maio de 2025, quando sucessivas fugas expuseram a fragilidade da unidade. Em apenas três dias, foram registradas quatro ocorrências, incluindo depredações, crianças no telhado e agressões contra servidores.
O que aconteceu em maio de 2026 não caiu do céu. É o resultado de uma crise crônica que não foi resolvida com a profundidade necessária.
Quem paga essa conta? O servidor que foi trabalhar na última semana e não voltou com a visão intacta.
O que a Prefeitura fez e o que ainda falta fazer?
A resposta do poder público merece ser analisada com isenção, sem o vício de defender ou atacar a gestão por princípio ideológico. Isso é o que um gestor técnico precisa fazer.
Isso é o básico. E está correto.
Mas o passo seguinte levantou questões sérias. A Secretaria publicou o Ofício Circular nº 11, convocando servidores de outras unidades da própria SAS para atuar emergencialmente no serviço de acolhimento, em regime de escala e rodízio, a partir do dia 20 de maio, com agendamentos previstos até 19 de junho.
O nó do problema: complexidade disfarçada de simplicidade
Abrigo de adolescentes não é creche. Não é escola. Não é posto de saúde. É um serviço de altíssima complexidade, que reúne jovens com histórico de violência, abandono, uso de substâncias, transtornos de comportamento e dor acumulada ao longo de anos. Exige equipe especializada, protocolos claros, supervisão técnica constante e, sobretudo, continuidade de vínculos.
Quando você dissolve uma equipe que construiu vínculos com adolescentes em crise, não está apenas trocando funcionários. Está destruindo o único capital social que mantinha aquela unidade funcionando.
Isso não é opinião. É a norma técnica nacional do SUAS — Sistema Único de Assistência Social.
O que cidades do mesmo porte fizeram diferente
Não preciso inventar soluções. Elas já existem. Só precisam ser aplicadas em Maringá com método, métricas e vontade política.
Joinville (SC) referencia-se como exemplo ao integrar saúde mental e assistência social nas unidades de acolhimento: o CAPS IJ da cidade realizou em 2025 capacitações específicas com todas as casas-lares municipais, com foco em identificação de mudanças de comportamento e vínculos entre cuidadores e adolescentes, exatamente o tipo de formação continuada que falta em Maringá.
Recife estruturou uma Cartilha de Acolhimento Institucional com parâmetros e procedimentos claros para a medida protetiva, articulando Secretaria de Desenvolvimento Social, Vara da Infância e rede de proteção, um modelo de integração intersetorial que pode orientar a reorganização do serviço em Maringá.
A lição dessas cidades é sempre a mesma: gestão eficiente não é gestão cara. É gestão com planejamento, dados e responsabilidade.
Servir é uma responsabilidade de qualquer líder: ouvir, agir e entregar melhoria real
Maringá tem tudo para ser referência no Paraná em políticas de proteção social. Temos universidades de ponta, organizações da sociedade civil engajadas, um funcionalismo público dedicado e uma comunidade que, quando chamada, responde.
O que não podemos aceitar é normalizar o risco como condição de trabalho de quem serve ao público. Não é heroísmo exigir que um servidor enfrente agressões sem estrutura, sem protocolo, sem proteção. É negligência institucional disfarçada de gratidão.
A gestão sensível não é aquela que chora junto com o servidor no hospital. É aquela que, antes do acidente acontecer, coloca em prática os sistemas que o previnem.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
🔗 Leitura Complementar
Para entender melhor como políticas públicas de inclusão social funcionam em outras cidades, e como pressionar por mudanças em Maringá, recomendamos:
Para acompanhar reflexões sobre ética, trabalho e políticas públicas que fazem Maringá prosperar, siga @alanzampieri.adv no Instagram.



