Última atualização em 16/01/2026 por Alan Zampieri
O equipamento desenvolvido pela empresa local Easy Ground Service Solutions, em parceria com a GOL Linhas Aéreas, representa um salto qualitativo impressionante. Reduzir o tempo de embarque de pessoas com deficiência de 4 minutos para apenas 49 segundos não é apenas eficiência operacional – é dignidade humana em ação. Como bem destacaram os colegas jornalistas Angelo Rigon e Diniz Neto, do Maringá News e Hoje Maringá, respectivamente, essa é uma dessas notícias que nos lembra do potencial transformador de nossa cidade.
A palestrante e escritora Giane Rodrigues, cadeirante, resumiu com precisão o significado dessa conquista: “A nova escada acessível representa autonomia, conforto e segurança para pessoas com deficiência”. Suas palavras ecoam o que deveria ser o norte de todas as políticas públicas: garantir que cada cidadão tenha as mesmas oportunidades de participação social.
Voamos Alto, Mas Tropeçamos no Chão
Entretanto, como alguém que transita pela cidade diariamente e acompanha de perto as discussões sobre gestão pública, não posso deixar de apontar uma realidade incômoda. Enquanto nosso aeroporto se torna referência mundial, obras entregues recentemente na cidade ainda não garantem acessibilidade plena.
A Catedral de Maringá, símbolo máximo de nossa identidade urbana, passou por extensas obras de revitalização da Praça que custaram mais de R$ 50 milhões. Contudo, o Ministério Público instaurou inquérito civil para apurar denúncias relacionadas à falta de acessibilidade no seu entorno. O piso de pavers instalado apresenta desníveis e irregularidades que dificultam a locomoção de cadeirantes e pessoas com deficiência visual. A ausência de continuidade do piso tátil e problemas nas rampas de acesso contrariam as normas técnicas da ABNT NBR 9050:2015.
Como pode uma cidade que inova na aviação entregar uma obra de tamanha magnitude sem seguir as diretrizes básicas de acessibilidade? A resposta está na falta de fiscalização rigorosa dos projetos executivos e na ausência de uma política municipal integrada de acessibilidade.
O Que Outras Cidades Nos Ensinam
Enquanto Maringá celebra conquistas pontuais, cidades como Curitiba e Uberlândia demonstram que acessibilidade urbana é resultado de planejamento estratégico e execução consistente. Curitiba possui 98% de sua frota de ônibus adaptada e planejamento urbano que prioriza calçadas niveladas e sinalização tátil. Uberlândia foi pioneira, tornando-se a primeira cidade brasileira com 100% do transporte coletivo acessível, recebendo certificado de Boas Práticas em Transporte da ONU em 2012.
O diferencial dessas cidades está na aprovação condicionada de projetos: nenhuma nova rua, prédio ou loteamento é licenciado sem plano de acessibilidade. Em Uberlândia, essa política resultou em mais de 70 mil pessoas beneficiadas e cerca de 10 mil pessoas com deficiência inseridas no mercado de trabalho.
Por que Maringá, cidade de qualidade de vida nacionalmente reconhecida, ainda não adotou critérios similares? Segundo dados do Censo 2022 do IBGE, Maringá aparece como líder nacional em vias com rampas de acesso para cadeirantes, com 65,7% da população urbana residindo em locais com essa estrutura. Paradoxalmente, nossas obras públicas recentes não refletem esse potencial.
Mobilização pela Maringá Acessível
A conquista do aeroporto não pode ser tratada como ponto de chegada, mas como ponto de partida para uma transformação mais ampla. Como pessoa de opinião e defensor da transparência na gestão pública, convido todos os maringaenses a cobrarem maior rigor na fiscalização de obras e projetos urbanos.
É inadmissível que uma cidade com nosso potencial técnico e econômico continue entregando espaços públicos que excluem parte da população. A verdadeira qualidade de vida se mede pela capacidade de incluir todos os cidadãos, sem exceção.
Que o exemplo da escada acessível nos inspire a voar mais alto – mas sem esquecer de cuidar de quem caminha no chão. Maringá merece ser pioneira em acessibilidade não apenas na aviação, mas em todas as dimensões da vida urbana inclusiva.
A transformação começa com cada um de nós exigindo mais das nossas políticas públicas. Juntos, podemos construir uma cidade onde a acessibilidade não seja exceção, mas regra. O futuro de Maringá está em nossas mãos – e deve estar ao alcance de todos.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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