Última atualização em 16/01/2026 por Alan Zampieri

Evolução preocupante dos afastamentos de professores por problemas de saúde mental na rede municipal de Maringá
A Face Humana por Trás dos Números: Diagnósticos que Refletem uma Crise Sistêmica
Os diagnósticos mais frequentes apresentados pelos profissionais afastados – transtorno depressivo, transtorno afetivo bipolar, ansiedade generalizada e transtorno de pânico – não são coincidência. Eles refletem um ambiente de trabalho que, em muitos casos, tem se tornado insustentável para quem dedica sua vida à nobre missão de educar.
Não posso deixar de destacar que essa não é uma particularidade maringaense. O Paraná registrou mais de 8.800 professores da rede estadual afastados por motivos relacionados à saúde mental em 2024, representando 23,5% do quadro efetivo. Nacionalmente, os afastamentos por transtornos mentais passaram de 200 mil em 2021 para 470 mil no último ano.
A professora da educação infantil Bruna de Oliveira, citada em reportagem do Maringá Mais, traduz com clareza o que muitos educadores sentem: “Amo minha profissão, mas tem dias que saio completamente esgotada. Imagine 25, 30 crianças e apenas uma pessoa para dar conta de tudo, é fisicamente e mentalmente angustiante”.
O Impacto na Qualidade da Educação: Quando o Professor Adoece, Quem Ensina?
Aqui reside uma questão fundamental que precisa ser debatida com seriedade pela política maringaense: qual o impacto desses afastamentos na qualidade da educação oferecida às nossas crianças? Segundo o Estatuto do Regime Jurídico Único dos Funcionários Públicos de Maringá, quando um profissional é afastado, seu cargo não é imediatamente ocupado por outro, mas sim remanejam-se outros funcionários para cobrir as funções.
Isso significa sobrecarga para os profissionais que permanecem ativos, criando um ciclo vicioso: mais pressão sobre quem fica, maior probabilidade de novos adoecimentos, menor qualidade no ensino oferecido aos estudantes. É uma equação que não fecha e que exige intervenção urgente do poder público municipal.
Experiências Exitosas: O Que Outras Cidades Estão Fazendo Certo
Felizmente, não precisamos reinventar a roda. Várias cidades brasileiras já implementaram programas exitosos de cuidado à saúde mental dos educadores, oferecendo modelos que podem ser adaptados à realidade maringaense.
São Paulo: O Projeto “Ame sua Mente na Escola”
O estado de São Paulo, em parceria com o Instituto Ame Sua Mente, desenvolve desde 2020 uma das mais abrangentes iniciativas de saúde mental escolar do país. O projeto já impactou mais de 1.500 escolas, formou cerca de 51 mil educadores e beneficiou indiretamente mais de 50 mil alunos.
Os resultados são impressionantes: 82,2% das escolas identificaram mudanças positivas na forma como o tema da saúde mental é tratado e 98% dos participantes indicariam a formação para um colega da educação. Mais importante ainda: 85,5% dos educadores relataram que a formação ampliou sua capacidade de lidar com a própria saúde mental.
Rio de Janeiro: Programa Saúde Mental Integrado
A capital fluminense desenvolveu um programa que estabelece parcerias com múltiplas universidades – UFRJ, UERJ, UFF, UNISUAM e USP – oferecendo apoio psicológico individualizado e em grupos para profissionais da educação. O programa inclui também a série “Entrepausas”, voltada especificamente para o bem-estar dos educadores.
Paraná: O Aplicativo “Bem Cuidar”
O governo estadual do Paraná criou em 2022 uma plataforma de teleconsultas que oferece atendimento psicológico, psiquiátrico, nutricional e com educadores físicos. Entre 2022 e 2024, o programa atendeu mais de 7.621 servidores em mais de 40 mil consultas.
Recentemente ampliado, o programa agora conta com 28 psicólogos, seis médicos psiquiatras, oito nutricionistas e oito educadores físicos, além de um serviço de emergência via número 0800 para atendimentos urgentes. Nove entre 10 usuários que avaliaram o serviço responderam que indicariam o aplicativo.
Santos: Cobertura Municipal Abrangente
A cidade de Santos conseguiu implementar o projeto “Ame sua Mente na Escola” em 85% de sua rede municipal de ensino, demonstrando que é possível alcançar uma cobertura ampla quando há vontade política e planejamento adequado.
Maringá em Movimento: O Que Já Está Sendo Feito
É justo reconhecer que nossa cidade não está parada diante desse desafio. A Prefeitura de Maringá já possui algumas iniciativas em andamento, mas que precisam ser ampliadas e aprimoradas.
Iniciativas Atuais da Prefeitura
A Secretaria de Gestão de Pessoas (Segep), através da Diretoria de Saúde Ocupacional e da Escola de Governo, implantou em 2025 o projeto “Cuidar de Quem Ensina”, voltado para gestores educacionais e que inclui módulos sobre saúde mental e comunicação não violenta.
Existe também o programa “Um Outro Olhar”, que desenvolve ações de promoção e prevenção à saúde mental dos servidores de todos os setores, oferecendo escuta qualificada e atendimento por equipe multiprofissional formada por assistente social, psicólogos e terapeutas ocupacionais.
Iniciativas do Legislativo Municipal
A Câmara Municipal de Maringá aprovou o projeto de lei 17.159/2025, que cria o Programa de Saúde Mental para a comunidade escolar nas unidades escolares públicas municipais.
O programa contempla toda a comunidade escolar – bebês, crianças, jovens, adultos matriculados, professores, equipe gestora, profissionais que atuam na escola e pais/responsáveis – e prevê atendimento priorizado nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Centros de Atenção Psicossocial.
Marco Legal Federal: Oportunidades e Obrigações
O Brasil passou a contar com um arcabouço legal robusto para enfrentar essa questão. A Lei Federal 14.681/2023 institui a Política de Bem-Estar, Saúde e Qualidade de Vida no Trabalho e Valorização dos Profissionais da Educação. Esta lei estabelece a obrigatoriedade de elaboração de planos pelos sistemas públicos de ensino, com prazo de um ano para implementação.
Complementarmente, a Lei Federal 14.819/2024 institui a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares, prevendo a integração permanente das áreas de educação, assistência social e saúde no desenvolvimento de ações de promoção, prevenção e atenção psicossocial no âmbito das escolas.
Por Que Não Podemos Mais Esperar
Os dados apresentados demonstram uma tendência de crescimento que, se não contida, pode levar ao colapso da qualidade educacional em nossa cidade. Não se trata de alarmismo, mas de realismo baseado em evidências.
Quando um professor adoece mentalmente, o impacto vai muito além do individual. Afeta diretamente a qualidade da educação oferecida a centenas de crianças, sobrecarrega os colegas que permanecem, gera custos adicionais ao município e, mais grave, perpetua um ciclo de adoecimento que pode se tornar irreversível.
O Papel da Sociedade Civil: Todos Somos Responsáveis
Esta não é uma responsabilidade exclusiva do poder público. A sociedade maringaense precisa compreender que a saúde mental dos educadores é uma questão coletiva que exige mobilização de todos os setores.
Famílias
Reconhecer e valorizar o trabalho dos professores de seus filhos, compreendendo as dificuldades enfrentadas e colaborando para a criação de um ambiente escolar saudável.
Empresários
Apoiar programas de saúde mental através de parcerias, patrocínios ou prestação de serviços especializados.
Profissionais da Saúde
Oferecer atendimento prioritário e qualificado aos educadores, compreendendo as especificidades de sua profissão.
Mídia Local
Dar visibilidade positiva às iniciativas de cuidado à saúde mental e contribuir para a desestigmatização do tratamento psicológico.
O momento é agora. A urgência é real. A responsabilidade é de todos nós.
A saúde mental dos professores não é um tema secundário – é fundamental para o presente e futuro de nossa cidade. Quando cuidamos de quem educa, estamos investindo na formação das próximas gerações de maringaenses.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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