Última atualização em 16/01/2026 por Alan Zampieri
O Retrato Atual da Violência em Nossa Região
Os dados abaixo sobre violência contra mulheres em Maringá revelam uma trajetória preocupante que exige nossa atenção imediata. Entre 2018 e 2023, presenciamos um crescimento alarmante de 57,8% nos casos registrados, saltando de 4.735 para 7.473 ocorrências. Para contextualizar: nossa cidade, com uma população feminina de aproximadamente 185.353 mulheres, registra uma média de mais de 20 casos de violência por dia.

Gráfico mostra crescimento preocupante da violência contra mulheres em Maringá, com aumento de 57,8% entre 2018 e 2023
O Paraná, como um todo, apresenta números ainda mais dramáticos. Segundo dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública, uma mulher sofre algum tipo de violência a cada dois minutos no estado, totalizando 231.196 boletins de ocorrência em 2023. Maringá figura entre as cinco cidades paranaenses com maior número de casos, ao lado de Curitiba, Londrina, Ponta Grossa e Cascavel.
É fundamental reconhecer que esses números representam apenas a ponta do iceberg. Como advogado, sei que muitos casos jamais chegam às delegacias. A subnotificação permanece sendo um dos maiores desafios no enfrentamento à violência de gênero, especialmente quando consideramos aspectos culturais e socioeconômicos que ainda inibem as denúncias.
Maringá como Referência: Políticas Públicas Que Funcionam
Apesar dos números preocupantes, Maringá tem se destacado nacionalmente pelas políticas públicas implementadas na atual gestão. A cidade é referência estadual e nacional nas iniciativas voltadas às mulheres, com ações que vão muito além do atendimento emergencial.
Estrutura Atual de Atendimento
Nossa cidade conta com uma rede robusta de proteção que inclui a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, localizada no Jardim Novo Horizonte, o Centro de Referência de Atendimento à Mulher Maria Mariá (CRAMMM) e a Patrulha Maria da Penha, criada em 2017 pela Guarda Municipal. Esses serviços realizaram, só em 2018, 1.493 atendimentos especializados, com 113 mulheres e crianças resgatadas e encaminhadas para instituições de proteção.
Inovações Administrativas
Um diferencial significativo da gestão municipal é a representatividade feminina nos cargos de chefia: impressionantes 64% dos postos de liderança na administração municipal são ocupados por mulheres. Essa não é apenas uma estatística bonita – representa uma mudança estrutural na forma como as políticas públicas são pensadas e implementadas.
Programas de Capacitação e Empoderamento
O programa “Qualifica Mulher” já capacitou cerca de 2.000 mulheres desde sua criação, oferecendo cursos de gastronomia, mecânica, costura e artesanato. É uma iniciativa que compreende a importância da autonomia econômica como ferramenta de prevenção à violência doméstica.
A Casa da Mulher Brasileira: Um Marco para Maringá
O maior avanço recente em nossa cidade é, sem dúvida, a confirmação da construção da Casa da Mulher Brasileira. Com investimento de R$ 19 milhões do Governo Federal, Maringá será uma das poucas cidades não-capitais contempladas com essa estrutura. A unidade será construída no Eurogarden, em terreno de 7 mil metros quadrados cedido pelo município.
Integração de Serviços Especializados
A Casa da Mulher Brasileira representará uma revolução no atendimento às vítimas de violência. Em um mesmo espaço, funcionarão a Delegacia Especializada, o Juizado Especializado de Violência Doméstica, a Promotoria Especializada, a Defensoria Pública Especializada, além de serviços de atendimento psicossocial, alojamento de passagem e programas de geração de renda.
Essa integração resolve um dos principais gargalos identificados por nós, profissionais que atuamos na área: a peregrinação das vítimas entre diferentes órgãos, que frequentemente resulta em revitimização e desistência dos processos.
Casos Práticos: Aprendendo com Outras Cidades
Durante minha pesquisa, identifiquei iniciativas inspiradoras em outras cidades brasileiras que Maringá pode adaptar e implementar.
Recife: Paridade de Gênero como Política Estruturante
A gestão do prefeito João Campos implementou a paridade de gênero no secretariado municipal, com 50% dos cargos ocupados por mulheres. Mais que um gesto simbólico, essa medida garante que as demandas femininas sejam consideradas em todas as políticas públicas municipais.
Experiências do SUS: Salas Lilás e Capacitação
Cidades como Mangaratiba (RJ) e Queimadas (PB) implementaram as “Salas Lilás” em unidades de saúde, oferecendo atendimento humanizado e especializado. Queimadas também investiu na capacitação de profissionais das 18 equipes de Saúde da Família, utilizando técnicas interdisciplinares de serviço social, psicologia e pedagogia.
Porto Alegre e o Banco Vermelho
A Lei 14.942/2024 determina a instalação de bancos vermelhos em espaços públicos como símbolo da luta contra a violência. Essa medida, aparentemente simples, tem se mostrado eficaz na conscientização e na criação de marcos visuais permanentes da campanha.
O Papel da OAB e da Advocacia no Agosto Lilás
Como advogado, não posso deixar de destacar o papel fundamental da OAB na campanha Agosto Lilás. A entidade tem coordenado ações em todo o país, mobilizando a advocacia no enfrentamento à violência de gênero. O trabalho desenvolvido pela Comissão Nacional da Mulher Advogada e pela Comissão Especial de Combate à Violência Doméstica demonstra que a advocacia tem responsabilidades que vão além da representação judicial.
A OAB Paraná tem desenvolvido iniciativas de capacitação e conscientização que complementam o trabalho do poder público, criando uma rede de apoio jurídico fundamental para as vítimas.
Transparência e Gestão Eficiente: Mensurando Resultados
Uma gestão verdadeiramente eficiente precisa de indicadores claros e transparentes. Proponho a criação do “Painel da Transparência Mulher”, uma plataforma online que disponibilize, em tempo real, dados sobre:
- Número de atendimentos realizados por cada equipamento
- Tempo médio de resposta às denúncias
- Taxa de cumprimento de medidas protetivas
- Evolução dos casos de reincidência
- Investimentos realizados em políticas públicas para mulheres
Essa transparência permitirá que a população acompanhe e cobre resultados efetivos, além de fornecer subsídios para ajustes contínuos nas políticas implementadas.
O Desafio da Região Norte da Cidade
Os dados demonstram que a região norte de Maringá concentra 72,6% dos casos de medidas protetivas expedidas, em contraste com 27,4% da região sul. Esse indicador, longe de estigmatizar territórios, deve orientar políticas públicas específicas e investimentos direcionados.
É crucial compreender que a violência contra mulheres atravessa todas as classes sociais. Como mostram os estudos, ela está presente em bairros com diferentes indicadores socioeconômicos. Isso reforça a necessidade de abordagens multifacetadas que considerem não apenas aspectos econômicos, mas também culturais e educacionais.
Agosto Lilás 2025
O Agosto Lilás de 2025 representa mais que uma data simbólica. Com a Lei Maria da Penha completando 19 anos, temos a oportunidade de avaliar conquistas e identificar desafios persistentes. A campanha nacional “Não deixe chegar ao fim da linha. Ligue 180” reforça a importância da denúncia e do engajamento social.
Para nós, maringaenses, este é o momento de transformar indignação em ação política concreta. Não basta apenas lamentar os números ou esperar soluções vindas “de cima”. Cada cidadão, cada profissional, cada líder comunitário tem papel ativo na construção de uma cidade mais segura para as mulheres.
A Construção Coletiva de Soluções
Como já disse em outras oportunidades, acredito profundamente no poder da articulação entre sociedade civil e poder público. O enfrentamento à violência contra mulheres exige essa parceria permanente. Não se trata de uma responsabilidade exclusiva do Estado, mas de um compromisso civilizatório que nos compete a todos.
A experiência de cidades como Recife, com paridade de gênero no governo, ou as iniciativas inovadoras do SUS em municípios menores, demonstram que soluções criativas e efetivas podem ser implementadas independentemente do tamanho ou recursos disponíveis.
O diferencial está na vontade política, na capacidade de articulação e no compromisso com resultados mensuráveis. Maringá tem demonstrado estar no caminho certo, mas ainda há muito a fazer.
MULHER, VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHA!
Se você é mulher em situação de violência, saiba que não está sozinha. Ligue 180, procure a Delegacia da Mulher (Rua Julio Meneguetti, 195 – Jardim Novo Horizonte) ou acione a Patrulha Maria da Penha através do 153.
O NUMAPE da UEM também oferece atendimento jurídico e psicossocial gratuito pelo telefone (44) 3011-5477.
Se você testemunha situações de violência, denuncie pelo 181. E se você é liderança em sua comunidade, empresa ou organização, engaje-se ativamente neste movimento.
Juntos, podemos fazer de Maringá uma cidade verdadeiramente segura e acolhedora para todas as mulheres. Se você testemunha situações de violência, denuncie pelo 181.
E se você é liderança em sua comunidade, empresa ou organização, engaje-se ativamente neste movimento. Juntos, podemos fazer de Maringá uma cidade verdadeiramente segura e acolhedora para todas as mulheres.
O Agosto Lilás nos lembra que a luta pelos direitos das mulheres é uma construção diária, que exige de cada um de nós coragem para sair da zona de conforto e assumir responsabilidades concretas pela transformação social. Este é nosso compromisso com o presente e nossa responsabilidade com as futuras gerações.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
🔗 Leitura Complementar
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