Última atualização em 17/01/2026 por Alan Zampieri
Quando Política Pública Redescobre o Coração da Brasilidade
Há dias, as redes sociais explodem com comentários sobre o show de Almir Sater no Teatro Marista, em 9 de dezembro. Vagas esgotadas. Não é à toa. O que o SESC Paraná propôs — e aquilo que Maringá está prestes a vivenciar — transcende o simples espetáculo musical. Trata-se de uma afirmação política: a de que a cultura é direito, não privilégio; de que a tradição brasileira deve ecoar nos palcos para quem trabalha e produz a riqueza do país; de que a inclusão social passa pela arte. Vejo nisto algo que precisa ser dito com clareza: é bom que existam ainda gestores públicos e instituições sociais que entendam que democracia é mais que voto a cada quatro anos — é direito à beleza, ao encontro, à poesia.
A Estrutura: Um Mecanismo Elegante de Inclusão
O formato escolhido pelo SESC Paraná é precisamente o que deveria ser replicado em outras iniciativas de política pública. Trata-se do ingresso solidário—modelo em que a entrada é gratuita, mas cada ingresso custa quatro quilos de alimentos não perecíveis que são destinados ao Programa Sesc Mesa Brasil, que sustenta instituições sociais voltadas a pessoas em vulnerabilidade.
Por Que Almir Sater? Por Que Agora? Por Que Maringá?
Almir Eduardo Melke Sater, nascido em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, em 1956, é tudo aquilo que a música brasileira poderia ser em sua forma mais nobre. Com mais de quatro décadas de carreira, o violeiro consolidou-se não como um artista que toca viola, mas como guardião de uma tradição que estava em risco de desaparecimento. Sua trajetória é a de um homem que abandonou Direito no Rio de Janeiro porque ouviu o som de uma dupla tocando viola na rua e pensou: “quero essa vida”.
Desde então, Almir atravessou décadas aprimorando a viola caipira de dez cordas, experimentando, gravando discos marcantes e conquistando prêmios internacionais—como o Grammy Latino em 2016 pelo álbum AR, em parceria com Renato Teixeira. Sua presença em trilhas sonoras de novelas como Pantanal consolidou-o na memória coletiva dos brasileiros. Mas não é apenas um músico famoso. Almir Sater é algo mais raro: é um artista éticamente responsável.
Quando o violeiro explicou em Cascavel por que aceitou participar desta turnê solidária, revelou a essência de sua obra: “Eu sou músico hoje em dia porque uma vez eu vi um show numa praça pública, vi aquelas pessoas tocando e pensei: quero essa vida pra mim também… Quando você faz um show para um público que alguns não teriam condições de assistir normalmente, de repente, entre essas pessoas está um futuro artista”. Isto é humanidade em forma de reflexão. Isto é compreensão de que a arte não é privilégio de poucos, mas ferramenta de transformação para muitos.
Maringá, por sua vocação cultural e musicidade, é palco perfeito para este encontro. Nossa cidade, cujo nome nasceu de uma canção—a música Maringá, composta por Joubert de Carvalho em 1931, que inspirou o batismo da cidade em 1947—merecia este reencontro com sua própria tradição. A viola caipira toca em nosso DNA coletivo. A música regional não é estrangeira por aqui; é herança.
Os Benefícios Mensuráveis de Uma Política Pública Cultural
Não se trata aqui de romantismo vago. A pesquisa internacional comprova os impactos mensuráveis de políticas de democratização cultural. Um estudo do Reino Unido quantificou que participar regularmente de eventos artísticos reduz depressão, melhora a qualidade de vida, diminui a dependência de medicamentos e gera aproximadamente 8 milhões de libras por ano em benefícios sociais. A música não apenas alivia estresse—reduz cortisol, o hormônio que o provoca—, como estimula a liberação de endorfinas e fortalece conexões sociais.

O Programa Sesc Mesa Brasil: Mais Que Solidariedade, Gestão Social Inteligente
O que torna esta ação particularmente brilhante é a conexão com o Programa Sesc Mesa Brasil Paraná. Fundado nacionalmente em 1994, o Mesa Brasil opera como uma grande rede logística e social. No Ceará, por exemplo, em 2024 distribuiu 4,7 toneladas de alimentos; de janeiro a julho de 2025, ultrapassou 2,2 toneladas. O programa não apenas alimenta—capacita. Realiza oficinas sobre manipulação segura de alimentos, reaproveitamento, alimentação saudável, geração de renda e sustentabilidade.
Isto significa que cada quilo doado em Maringá no dia do show não desaparece em um vácuo assistencialista. Entra em um sistema que o repassa a instituições parceiras, que por sua vez desenvolvem ações educativas e de fortalecimento comunitário. Quando se vê um ingresso ser trocado por alimentos, há duas realidades convergindo: a necessidade de inclusão cultural para quem trabalha e a necessidade de segurança alimentar para quem padece de vulnerabilidade. Gestão. Eficiência. Resultado.
Música, Democracia e Redução das Desigualdades
Há algo que precisa ser nomeado claramente na política maringaense: a desigualdade no acesso à cultura. Uma pesquisa do Observatório Fundação Itaú de 2025 aponta que enquanto 93% da classe A/B participa de atividades culturais presenciais, apenas 71% da classe D/E o fazem. No teatro, a brecha é ainda maior: 76% na classe A/B contra 32% na D/E. Entre negros e brancos, as disparidades se repetem.
Maringá, enquanto polo da Região Metropolitana, não está imune a estas realidades. E é precisamente aqui que uma política como a do SESC torna-se não luxo, mas necessidade estrutural. Quando se democratiza o acesso à cultura, reduzem-se não apenas as desigualdades culturais—reduzem-se as desigualdades como um todo. Uma pessoa que assistiu a um espetáculo de qualidade, que conversou com sua filha sobre a poesia de uma viola caipira, que sentiu a emoção de uma grande voz—essa pessoa enxerga a si mesma de forma diferente. Mais digna. Mais merecedora. Mais cidadã.
O Que Faz Falta: Propostas para Ampliação
Após analisar o modelo proposto pelo SESC e considerando as lacunas ainda presentes nas políticas culturais maringaenses – e do Paraná -, ouso sugerir caminhos concretos:
Primeiro: Criar um edital municipal de fomento à música regional e caipira, com recursos destinados a grupos locais de viola e violeiros emergentes. Maringá possui população jovem e energética—existe demanda por formação nesta área. A Prefeitura já possui Lei de Fomento à Cultura; agora é questão de orçamentação e priorização.
Segundo: Estabelecer um calendário semestral de apresentações artísticas em praças e parques, com foco em música regional brasileira e artistas locais. As pesquisas mostram que 65% dos entrevistados citam praças e ruas como espaços culturais significativos—é espaço subutilizado em nossa cidade. Transformar a Praça Cívica, o Parque Lago Igapó ou mesmo praças de bairros em teatros ao ar livre seria política de inclusão de baixo custo e alto impacto.
Terceiro: Implementar programa de bolsas para estudantes de música em situação de vulnerabilidade, em parceria com conservatórios municipais e a Universidade Estadual. O retorno em desenvolvimento humano é comprovado.
Quarto: Formalizar parceria permanente entre Prefeitura, SESC e instituições educacionais para replicação anual de turês de artistas regionais em Maringá. Não deixar isto ao acaso do calendário estadual.
Posicionamento Claro: Por Que Isto Importa
Reconheço que há, em alguns círculos políticos de Maringá, tendências de reduzir cultura a “acessório da governança”—quando, na verdade, cultura é infraestrutura. É tão crucial quanto asfalto, saneamento e iluminação pública. E há razão simples: uma cidade sem acesso à beleza, sem encontros artísticos, sem transmissão de tradições é uma cidade fragmentada, desigual, mais propensa a conflitos sociais e perda de identidade.
O que Almir Sater virá fazer em 9 de dezembro não é entretenimento palatável para a elite cultural. É ato político de afirmação de que o trabalhador merece, que a música caipira importa, que a tradição brasileira continua viva não apenas em museus, mas nas ruas, nos teatros acessíveis, nas mãos de um violeiro que abraça responsabilidade social com a mesma dedicação com que dedilha suas cordas.
Isto me agrada profundamente. Não pela simpatia vaga por “eventos culturais”, mas porque representa modelo de governança que funciona: objetivo claro, execução estruturada, impacto mensurável, sustentabilidade social. É pragmatismo e sensibilidade reunidos na mesma ação.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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