Última atualização em 17/01/2026 por Alan Zampieri
Quando o Sistema Grita por Justiça
Os Números Não Mentem: O Padrão da Segunda-Feira

Padrão de Emissão de Atestados Médicos em Curitiba: Segunda-feira 2,5x Maior que Domingo (2025)
Quando olhamos para Curitiba, cidade que implementou medida semelhante em outubro de 2025, os dados são reveladores. Entre janeiro e setembro daquele ano, as UPAs da capital paranaense emitiram 45.465 atestados aos domingos. Nas segundas-feiras, esse número saltou para 114.336 – uma diferença de 151%, ou 2,5 vezes mais atestados. O horário de pico? Entre oito e dez da manhã, exatamente quando começa a jornada de trabalho da maioria dos brasileiros. Nesse período de duas horas, foram emitidos 224.917 atestados, de um total de 915.800 no período analisado.
O Diálogo com o Setor Produtivo: Quando Todos Perdem
A implementação da medida em Maringá não aconteceu de forma unilateral. A Secretaria Municipal de Saúde trabalhou junto com entidades representativas do setor empresarial – a Associação Comercial e Empresarial de Maringá (ACIM), o Conselho de Desenvolvimento Econômico de Maringá (CODEM) e o Sindicato do Comércio Varejista (SIVAMAR). Essas entidades, que representam uma cidade com 429.660 habitantes, PIB de R$ 22,7 bilhões e mais de 173.900 empregos formais, vinham manifestando preocupação com o volume excessivo de atestados apresentados por colaboradores.
A Violência Contra Quem Cuida: Protegendo os Médicos
Um aspecto frequentemente negligenciado nessa discussão é a pressão e a violência que os profissionais de saúde enfrentam. Em 2024, o Conselho Regional de Medicina do Paraná registrou 531 casos de violência contra médicos no estado. Muitos desses casos estão relacionados à pressão pela emissão de atestados médicos, quando o profissional, baseado em sua avaliação clínica, determina que não há necessidade de afastamento.
O Movimento Regional: Paraná na Vanguarda
Maringá não está sozinha nesse movimento. Foz do Iguaçu lançou a Campanha Atestado Responsável em 28 de agosto de 2025, tornando-se pioneira na iniciativa. Curitiba aderiu oficialmente em 20 de outubro do mesmo ano, com apoio enfático da Câmara Municipal. Londrina publicou a Portaria 668/2025, que entrou em vigor em 17 de novembro. Cascavel também já implementou medidas semelhantes, e até Sarandi, município vizinho a Maringá, seguiu o padrão adotado pelas UPAs maringaenses.
Eficiência e Desperdício: Os Desafios do SUS
O Sistema Único de Saúde brasileiro é o maior sistema de saúde público e gratuito do mundo, atendendo mais de 100 milhões de brasileiros. Mas enfrenta desafios estruturais significativos. Estudos da Escola Nacional de Saúde Pública apontam que cerca de 20% a 30% dos recursos destinados à saúde são desperdiçados devido a ineficiências. O Banco Mundial estimou em 2017 que R$ 22 bilhões eram desperdiçados anualmente com saúde no Brasil – R$ 9,3 bilhões na atenção primária e R$ 12,7 bilhões nas atenções de média e alta complexidades.
Lições de Outras Cidades: Inovação na Gestão da Saúde
Enquanto discutimos a regulamentação de atestados, vale olhar para outras iniciativas brasileiras que mostram caminhos para uma saúde pública mais eficiente. O Recife, sob a gestão do prefeito João Campos (PSB), tornou-se em outubro de 2025 a primeira cidade do Brasil a formalizar convênios na nova modalidade do programa federal “Agora Tem Especialistas”. Com R$ 35 milhões do Governo Federal, a iniciativa garante mais de 6.800 procedimentos anuais de média e alta complexidade a pacientes do SUS, em parceria com o Imip, Hospital Santo Amaro e Hapvida.
A estratégia é engenhosa: hospitais privados e filantrópicos que possuem dívidas com a União podem abatê-las prestando serviços ao SUS, com complementação financeira do Ministério da Saúde. O resultado? Redução de filas, ampliação do acesso a especialistas e fortalecimento do SUS por meio de parcerias público-privadas eficientes. É o tipo de inovação que precisamos replicar, adaptando às realidades locais.
Equilíbrio Entre Direitos e Deveres: O Coração da Questão
Acredito profundamente que liberdade e responsabilidade são indissociáveis. Tenho o direito de buscar atendimento no sistema público de saúde quando estou doente. Mas tenho também o dever de fazer isso de forma responsável, sem abusar do sistema, sem buscar vantagens indevidas às custas da coletividade.
O trabalhador tem o direito de faltar ao trabalho quando está doente, com a garantia de que não será penalizado por isso. Mas tem também o dever de ser honesto, de não buscar atestados médicos quando não há real necessidade de afastamento. O empregador tem o direito de exigir comprovação quando um funcionário se ausenta. Mas tem também o dever de respeitar as condições de saúde de seus colaboradores, sem criar ambientes de trabalho que adoeçam as pessoas.
O médico tem a autonomia técnica de decidir se há ou não necessidade de emissão de atestado. Mas tem também o dever de exercer essa autonomia com critério, baseado em evidências clínicas, sem ceder a pressões indevidas. E o gestor público tem o dever de garantir que o sistema de saúde funcione de forma eficiente, priorizando quem mais precisa, combatendo fraudes e desperdícios, sem nunca perder de vista que está lidando com vidas humanas.
Justiça e Eficiência Caminham Juntas
A política do Atestado Responsável implementada em Maringá não é sobre ser contra o trabalhador. É sobre ser a favor de todos os trabalhadores – especialmente daqueles que realmente precisam do sistema de saúde e encontram filas intermináveis por conta de quem busca vantagens indevidas. Não é sobre dificultar o acesso à saúde. É sobre garantir que esse acesso seja efetivo para quem mais necessita.
Eu defendo igualdade de oportunidades, o que significa criar condições para que todos tenham acesso a serviços públicos de qualidade, não para que alguns se aproveitem do sistema em detrimento de outros.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócio
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