Última atualização em 23/02/2026 por Alan Zampieri
Dinheiro público não entra em recesso
- impacto bilionário acumulado ao longo de anos;
- pressão adicional sobre o teto de gastos e sobre a meta fiscal;
- efeito cascata em outras carreiras do setor público, que passam a reivindicar “isonomia” com os salários da capital federal.
Enquanto isso, o brasileiro comum enfrenta:
- inflação de alimentos, aluguel, energia;
- dificuldade de acesso a serviços básicos em saúde, educação e segurança;
- falta de perspectiva de emprego formal em muitas regiões do País.
A pergunta que surge, de forma legítima, é: qual é a prioridade real de quem ocupa os espaços de poder em Brasília?
Máquina pública inchada e supersalários: sintoma de um modelo esgotado
Do ponto de vista de gestão, o Brasil carrega um problema estrutural: uma máquina pública que se expandiu em diversos níveis sem que o mesmo ritmo de crescimento fosse observado em produtividade, qualidade de serviço e inovação. Esse descompasso se manifesta em:
- carreiras de Estado com salários e benefícios muito acima da média do setor privado, inclusive em comparação internacional;
- quantidade significativa de cargos em comissão e estruturas administrativas com baixa avaliação de desempenho;
- sobreposição de órgãos, funções e atribuições, com pouca racionalização.
Ninguém defende aqui o sucateamento do serviço público; ao contrário. Um Estado forte, com servidores bem pagos e qualificados, é essencial para garantir direitos fundamentais, fiscalizar contratos, combater corrupção e implementar políticas públicas sustentáveis. O que se critica é o desequilíbrio: há áreas onde se paga muito para entregar pouco e áreas onde se paga pouco para exigir muito.
O aumento da remuneração no Legislativo federal, em bloco, sem indicador claro de contrapartida, reforça o que boa parte dos brasileiros já sente nas redes e nas conversas de bar:
“O sistema se protege primeiro, e o resto vem depois.”
Corrupção sistêmica e o silêncio ensurdecedor em casos como o do Banco Master
- a gravidade das acusações, mencionando possível participação de agentes públicos de alto escalão;
- a relação com operações financeiras relevantes que, direta ou indiretamente, impactam o erário;
- a ausência, até o momento, de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) forte, ampla e transparente para investigar o caso.
Quando surgem suspeitas que mencionam, ainda que indiretamente, ministros de tribunais superiores, grandes bancos e figuras importantes da República, a reação das instituições deveria ser a oposta do silêncio. Transparência e investigação robusta não são opcionais; são dever republicano. Fica a pergunta que ecoa por todo o Brasil, inclusive aqui em Maringá:
- Por que ainda não há uma CPI instalada para apurar a fundo essas denúncias?
- Quem tem medo de ver esse novelo ser puxado até o fim?
- Em ano eleitoral, essa bomba vira pauta ou será cuidadosamente guardada, esperando cair no esquecimento?
As eleições, inevitavelmente, vão trazer esses temas à tona. A dúvida é: será para enfrentar o problema de verdade ou para usá‑lo como munição de guerra na disputa de poder?
Propostas de caminho: como trazer esse debate para a realidade de Maringá
Do ponto de vista de quem vive e atua em Maringá, a pergunta é: o que isso tem a ver com a nossa vida aqui?
Tudo. Porque:
- o dinheiro que banca supersalários em Brasília sai do mesmo bolo tributário que financia o SUS, as universidades, a segurança pública nos Estados e a educação básica nos municípios;
- cada vez que a União precisa se endividar mais para manter estruturas inchadas, sobra menos espaço fiscal para transferências voluntárias, investimentos e políticas regionais;
- a cultura de privilégio em Brasília reverbera nos parlamentos estaduais e municipais, inclusive na forma como se pensa cargos comissionados, diárias, verbas de gabinete e reajustes locais.
Como resposta, algumas linhas de ação que podem ser defendidas a partir daqui:
- Apoiar abertamente uma reforma administrativa responsável
Uma reforma que proteja quem está na ponta (professores, profissionais de saúde, segurança) e enfrente os excessos de “topo de pirâmide” em carreiras que acumulam benefícios. - Reforçar o controle social sobre gastos com pessoal
Em todas as esferas – inclusive em Maringá –, defender portais de transparência amigáveis, relatórios de fácil compreensão e participação da sociedade em audiências públicas sobre orçamento e folha de pagamento. - Pressionar por CPIs e investigações consistentes em casos como o do Banco Master
Cobrar de deputados federais e senadores uma postura clara: quem é contra a corrupção não pode ter medo de CPI bem feita, com prazo definido, foco claro e transparência. - Construir uma cultura de serviço público como vocação, não como privilégio
Valorizar servidores que entregam, inovam, se dedicam. E, ao mesmo tempo, questionar sem medo estruturas que parecem existir apenas para manter benesses para poucos.
Folia passa, a fatura fica
O Carnaval vai, a fatura fica. O que está sendo decidido hoje sobre aumento da remuneração do Legislativo federal, blindagem de supersalários, silêncio em torno de denúncias graves e falta de CPI tem consequências de longo prazo para:
- o nível de confiança das pessoas na política;
- a capacidade do Estado de investir em políticas sociais e em desenvolvimento sustentável;
- a disposição das novas gerações de acreditarem que vale a pena seguir pelas vias democráticas para mudar o País.
Diante disso, algumas atitudes são inadiáveis:
- Escrachar com responsabilidade: denunciar, expor, explicar – com dados e argumentos – por que certas decisões são injustas, ineficientes e antiéticas.
- Cobrar com firmeza, mas sem radicalização: pressionar parlamentares, partidos, lideranças e instituições, sem cair na tentação do ódio ou do “quanto pior, melhor”.
- Opinar publicamente: usar redes sociais, espaços em rádios locais, artigos e conversas de bairro para levar a discussão do “grupo de WhatsApp” para o debate público qualificado.
- Mobilizar‑se politicamente: participar de conselhos, audiências, associações, entidades de classe e movimentos que defendam governança, ética, transparência e eficiência.
Folia é bom, e ninguém aqui está propondo demonizar o Carnaval ou a alegria popular. Mas, quando se fala em aumento da remuneração do Legislativo federal em meio a tanta desigualdade e suspeitas de corrupção, o mínimo que se espera de uma sociedade madura é que não dance conforme a música dos privilégios.
Se o Brasil quiser, de fato, virar a página da corrupção sistêmica e da gastança irresponsável, será preciso que mais gente – em Maringá, em Curitiba, em Brasília e em cada canto deste País – faça exatamente isso que você está fazendo agora: parar um pouco no meio da festa, olhar para os números e dizer em voz alta que assim não dá mais.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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