Última atualização em 12/01/2026 por Alan Zampieri
O Que Rolou na Conferência: Mais que Números, Vidas em Jogo
A 12ª Conferência Municipal de Políticas sobre Drogas não foi apenas mais um evento protocolar no calendário municipal. Com o tema “Repensando a Política sobre Drogas: Ciência, Transversalidade e Transparência”, o encontro reuniu desde às 8h30 até às 15h30 profissionais, gestores públicos e representantes da sociedade civil para discutir propostas de enfrentamento ao uso nocivo de substâncias psicoativas.
A programação matinal contou com a participação da Dra. Carolina D. Pommer, atriz e especialista em Saúde Mental, que trouxe sua experiência como Assessora Técnica Territorial no Paraná pelo projeto “Gente no Centro das Políticas Sobre Drogas”, uma iniciativa da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) em parceria com a Fiocruz.
Durante a tarde, os participantes foram divididos em grupos temáticos para abordar quatro eixos fundamentais: Prevenção, Tratamento, Reinserção e Segurança. Cada eixo representa um pilar estratégico na nossa luta contra um problema que cresce exponencialmente na nossa região metropolitana.
A Epidemia Silenciosa dos Pods: Quando o “Inofensivo” se Torna Letal
Aqui em Maringá, como em tantas outras cidades brasileiras, estamos enfrentando um fenômeno que pega muita gente desprevenida: o uso desenfreado de cigarros eletrônicos pelos nossos jovens. Os números são assustadores – estamos falando de um crescimento de 480% no uso de cigarros eletrônicos no Brasil entre 2018 e 2023, saltando de 500 mil para 2,9 milhões de usuários.


O que mais me preocupa, e deveria preocupar toda família maringaense, é que muitos jovens acreditam que esses dispositivos são inofensivos por terem aromas agradáveis. Mas a realidade é bem diferente: um único pod pode conter nicotina equivalente a vinte cigarros tradicionais.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mantém a proibição da comercialização, importação e propaganda desses dispositivos desde 2009, mas isso não tem impedido sua proliferação. Em abril de 2024, a Anvisa reforçou essa posição, citando entendimentos internacionais da Organização Mundial da Saúde contra o cigarro eletrônico.
Os Dados que Nos Fazem Pensar
O Paraná se tornou protagonista nacional tanto no combate quanto no enfrentamento das consequências do tráfico de drogas. Em 2024, nossas forças de segurança apreenderam 444 toneladas de entorpecentes, tornando-se o segundo estado que mais apreendeu drogas no país.

Evolução das apreensões de drogas no Paraná (2022-2024)
Mas além dos números de apreensão, temos dados preocupantes sobre o consumo. O estado registrou um aumento de 50% nas ocorrências de uso e consumo de drogas entre 2022 e 2023, passando de 8.899 para 13.350 casos. Maringá apareceu nesse ranking com números significativos, demonstrando que o problema também chegou à nossa cidade.

Uso de substâncias por jovens brasileiros (15-24 anos)
O SISMUD: Nossa Resposta Maringaense ao Desafio
Em 2021, Maringá deu um passo importante ao criar o Sistema Municipal de Políticas Públicas sobre Drogas (SISMUD), aprovado pela Câmara Municipal. O sistema funciona sobre três pilares estratégicos: prevenção, cuidado e reinserção social.

Alcance dos programas de prevenção e tratamento de drogas em Maringá
O Programa Mobiliza Maringá foca na prevenção do uso abusivo de drogas através de uma série de ações intersetoriais. Já o Programa Acolhe Maringá oferece cuidado especializado aos dependentes químicos e seus familiares, enquanto o Programa Integra Maringá realiza a inclusão produtiva de pessoas vulneráveis às drogas.
Um destaque especial vai para o PROERD (Programa Educacional de Resistência às Drogas), que desde 2017 já alcançou 18.300 alunos da rede municipal. Em junho de 2024, mais de 1,1 mil alunos do 5º ano participaram da formatura do programa, demonstrando o alcance e a importância dessa iniciativa preventiva.
O Brasil que Deu Certo
São Paulo, nossa referência em políticas urbanas, instituiu em 2019 a Política Municipal sobre Álcool e outras Drogas através da Lei Municipal nº 17.089. A cidade realiza conferências regulares sobre o tema, como a 8ª Conferência Municipal realizada em 2023, que teve como tema “Os Direitos Humanos no centro das Políticas sobre Drogas”.
O programa paulistano inclui ações de redução de danos que realizaram 54.185 atividades em 2024, incluindo palestras de conscientização, campeonatos de futebol, visitas a museus e oficinas de arte. Essas estratégias têm se mostrado eficazes na promoção da saúde e na redução de danos, proporcionando bem-estar e diminuição da compulsão.
No Paraná, temos o exemplo de Sarandi, que em dezembro de 2024 inaugurou seu Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD), ampliando o atendimento especializado a usuários de drogas. A unidade conta com equipe multidisciplinar e atenderá cerca de 200 pacientes.
Outros estados também implementaram políticas inovadoras de redução de danos. Pernambuco criou o Programa Atitude, que oferece atendimento psicossocial e centros de acolhimento. A Bahia desenvolveu o Programa Corra pro Abraço, focado no fortalecimento de vínculos sociais e aproximação com serviços públicos.
O Futuro das Políticas Antidrogas
O governo federal, através da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, lançou em 2024 a versão brasileira do programa “Escutar para Cuidar”, uma iniciativa global de prevenção do uso de álcool e outras drogas voltada para crianças e jovens. O programa, desenvolvido em parceria com o UNODC, visa promover práticas eficazes de prevenção baseadas em evidências científicas.
A abordagem moderna das políticas sobre drogas enfatiza a importância da escuta, do acolhimento e da redução de danos, superando modelos puramente repressivos. Como destacou a secretária da Senad, Marta Machado, “a adaptação desses recursos ao nosso contexto é crucial para a eficácia das práticas de prevenção no país”.
Cronograma da Semana que Marcou Maringá
A semana da conferência foi cuidadosamente planejada para maximizar o engajamento e os resultados. Começou na segunda-feira, 23 de junho, com a divulgação oficial do evento, seguida por dias de preparativos intensos que culminaram na conferência de sexta-feira.
A Verdade que Precisamos Enfrentar
É fundamental que entendamos: o cigarro eletrônico não é uma alternativa segura ao tabaco tradicional. Como alertou a promotora de Justiça Danielle Cristine Cavali Tuoto, do Ministério Público do Paraná: “Isso está destruindo nossas meninas e meninos”.
Os dispositivos eletrônicos para fumar causam dependência química através da nicotina e podem provocar doenças respiratórias, cardiovasculares e até câncer. A falsa sensação de segurança criada pelos aromas e sabores agradáveis torna esses produtos especialmente perigosos para os jovens.
Esperança e Ação
As políticas públicas sobre drogas não podem ser vistas apenas como números ou estatísticas – elas representam vidas, famílias e o futuro da nossa comunidade. A 12ª Conferência Municipal de Políticas sobre Drogas nos mostrou que, quando unimos ciência, transparência e participação social, podemos construir soluções efetivas.
Como maringaenses, temos a responsabilidade de transformar os debates desta conferência em ações concretas. Seja apoiando programas de prevenção nas escolas, seja fiscalizando o cumprimento das leis que proíbem a venda de cigarros eletrônicos, cada um de nós tem um papel a desempenhar nesta luta.
O futuro dos nossos jovens está em nossas mãos, e não podemos deixar que a epidemia silenciosa dos pods destrua uma geração inteira. A hora de agir é agora, e Maringá pode ser exemplo para todo o Brasil de como uma cidade comprometida com sua juventude pode vencer esse desafio.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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