Última atualização em 12/01/2026 por Alan Zampieri
Quando o “jeitinho brasileiro” Custa Caro aos Maringaenses
Imaginem a cena: são 8h da manhã em Maringá, aquela correria típica de início de expediente. No supermercado, o funcionário que chegou atrasado sabe que vai “levar bronca” e ter desconto no salário. Na fábrica, o operário precisa registrar entrada e saída com precisão militar. Mas na Câmara Municipal? Bem, aí a coisa muda de figura. Se você tem um cargo “diferenciado”, pode chegar e sair na hora que quiser – afinal, é “cargo de confiança” .
Essa história não é nova em Maringá. Desde 2015, quando o Ministério Público já alertava sobre essa discrepância, a situação permanece como aquela “goteira no telhado” que todo mundo vê, mas ninguém resolve de verdade . E olha que não estamos falando de “trocados”: são mais de R$ 5,3 milhões por ano investidos em salários de pessoas que, teoricamente, não precisam provar que estão trabalhando .
A Resolução 623/2015, que ainda rege essa bagunça organizada, é “clara como água suja”: cargos de direção, coordenação e chefia ficam “dispensados do registro de ponto” . É como se dissesse: “confie, mas não verifique”. Só que o povo maringaense não está mais aceitando essa de braços cruzados.
O Tamanho do Tombo: Quando os Números Gritam por Justiça
Vamos aos fatos, porque números não mentem. A Câmara de Maringá desembolsa aproximadamente mensalmente quase R$ 450 mil com servidores que não precisam comprovar presença. Anualmente, isso representa R$ 5.378.780,52 – recursos que poderiam estar financiando melhorias na saúde, educação ou infraestrutura da cidade.
Para ter uma ideia da dimensão, esse valor equivale a construir três escolas municipais ou reformar dezenas de postos de saúde. Mas está sendo usado para pagar salários que variam de R$ 12.059,73 a R$ 19.064,43 mensais, sem qualquer controle efetivo de jornada .
Os cargos mais “blindados” incluem diretorias de compliance, administrativa, financeira e legislativa, além da famosa “patota” dos 23 chefes de gabinete. É uma verdadeira “indústria da confiança” montada dentro do Legislativo maringaense.
O mais irônico? Dois servidores que poderiam ficar “de boa” optaram voluntariamente por registrar ponto. Será que estes entenderam algo que os outros não captaram? Ou será que alguns têm consciência do que significa servir ao público?
Maringá vs. Brasil: Quando a Comparação Dói
Enquanto Maringá patina nessa questão há uma década, outras cidades pelo Brasil já saíram na frente. Em Petrolândia (PE), o Ministério Público conseguiu implementar controle de jornada para todos os servidores, incluindo vereadores, após representações da sociedade civil .
São Joaquim do Monte (PE) foi além: estabeleceu prazo de oito meses para instalação de ponto eletrônico com biometria em todas as secretarias e na Câmara Municipal. A justificativa foi simples: “a ausência de controle de ponto expõe o serviço público ao risco de que a carga horária não seja integralmente cumprida” .
No Ceará, a cidade de Crato levou a sério: o Ministério Público recomendou suspender gratificações que exigem controle de jornada até que o ponto eletrônico entrasse em operação . Imaginem se aplicássemos isso em Maringá? Seria um “terremoto” no Legislativo.
Até a Assembleia Legislativa do Paraná, ainda em 2010, implementou controle computadorizado para todos os servidores, com catracas e sistema biométrico . Se a Assembleia fez, por que a Câmara de Maringá não consegue?
A proposta Majô: Evolução ou “Perfumaria”?
A presidente Majô (PP) finalmente acordou para o problema e solicitou estudo para tornar obrigatório o ponto eletrônico para todos os servidores. Em suas palavras: “é um privilégio que eu discordo” . Melhor tarde do que nunca, mas será que é suficiente?
A proposta caminha no sentido certo, mas precisamos ir além. Não basta apenas implementar o controle – é necessário criar mecanismos de transparência ativa que permitam à população acompanhar em tempo real a presença dos servidores.
O Tribunal de Contas do Paraná já decidiu: não há obrigatoriedade de ponto biométrico para comissionados, mas se for adotado, deve ser aplicado de forma isonômica, respeitando a dedicação integral ao cargo. Ou seja, ou todos batem ponto, ou ninguém – mas essa história de “cafezinho” diferenciado precisa acabar.
O Que Dizem os Especialistas Nacionais
O consultor em gestão pública Fábio Ferraz, que implementou sistemas digitais em várias prefeituras, é categórico: “A economia só de papel já paga todo o investimento” . Em Santos, o sistema digital reduziu em 80% o tempo de tramitação de processos e economizou mais de R$ 500 mil anuais.
O Programa Nacional de Transparência Pública, da Associação dos Tribunais de Contas, tem premiado câmaras municipais que investem em inovação e controle social. Brasil Novo (PA) recebeu selo diamante por suas práticas transparentes, enquanto Ananás (TO) alcançou 90,18% no índice de transparência.
Por que Maringá, sendo uma das principais cidades do Paraná, não pode estar entre as melhores do país em transparência legislativa?
Curitiba e Gramado: Exemplos que Inspiram
A Câmara de Curitiba conquistou selo diamante com 95,26% em transparência pública. Criou manuais de boas práticas, capacitação contínua e participação no Radar da Transparência Pública.
Gramado inovou ao ser pioneira no uso de inteligência artificial no Legislativo, recebendo prêmio nacional . A cidade gaúcha provou que inovação e transparência caminham juntas, aproximando o cidadão do poder público.
Londrina investiu em tecnologia e colaboração entre departamentos, buscando “aumentar eficiência, transparência e economia” . Por que Maringá não pode fazer o mesmo?
A Pressão Popular Cresce: Chegou a Hora da Mudança
As redes sociais maringaenses estão fervendo com essa discussão. No Instagram e Facebook, multiplicam-se comentários questionando por que uns “batem ponto” e outros não. A hashtag #TransparênciaCâmaraMaringá ganhou força, com cidadãos cobrando igualdade de tratamento.
O Observatório Social de Maringá já sinaliza interesse em acompanhar de perto essa mudança. A sociedade civil organizada não aceita mais “conversinha fiada” – quer resultados concretos e transparência de verdade.
Angelo Rigon, experiente jornalista político local, tem cobrado sistematicamente melhorias na gestão pública municipal. A imprensa maringaense está de olho, e qualquer “corpo mole” será devidamente exposto.
Lições Internacionais: Quando a Transparência Vira Cultura
O modelo escandinavo de transparência pública pode inspirar Maringá. Na Finlândia, qualquer cidadão pode acessar online a agenda, presença e produtividade de qualquer servidor público. Resultado: corrupção próxima de zero e confiança institucional altíssima.
Cingapura implementou sistema integrado onde ponto eletrônico se conecta automaticamente com metas de produtividade. Servidores são avaliados não apenas por presença, mas por resultados entregues à sociedade.
No Brasil, iniciativas como o Portal da Transparência federal e sistemas estaduais mostram que é possível sim modernizar a gestão pública. Falta vontade política, não tecnologia.
O projeto de lei que Maringá precisa
“Projeto Transparência Total na Câmara de Maringá”:
Art. 1º – Fica instituído controle biométrico obrigatório para todos os servidores da Câmara Municipal, sem distinção de cargo ou função.
Art. 2º – Será criado portal online com informações em tempo real sobre presença, jornada e produtividade de todos os servidores.
Art. 3º – Servidores que descumprirem sistematicamente a jornada terão descontos proporcionais e, em casos graves, exoneração sumária, garantido o devido processo legal.
Art. 4º – A população poderá fiscalizar através de aplicativo gratuito, com direito a denúncias anônimas.
Art. 5º – Relatórios trimestrais serão apresentados em audiência pública, com participação obrigatória de todos os diretores.
Transparência Não é Favor, é Obrigação
Não se trata de “perseguição” a servidores ou “caça às bruxas” política. Trata-se de princípios básicos: igualdade, moralidade e eficiência na administração pública. Se o padeiro, o professor e o operário precisam comprovar suas jornadas, por que cargos de confiança estariam acima dessas regras?
Os R$ 5,3 milhões anuais gastos com esses cargos representam o suor e trabalho de milhares de maringaenses que pagam seus impostos religiosamente. Eles merecem saber se seus “empregados” estão realmente trabalhando ou apenas “fazendo média” no ar condicionado.
A proposta da presidente Majô é um primeiro passo, mas precisamos ir além. Maringá tem potencial para ser referência nacional em transparência legislativa. Basta vontade política e coragem para quebrar velhos paradigmas.
O momento é agora. A sociedade está atenta. Os holofotes estão ligados. Resta saber se nossos representantes terão a grandeza de fazer história ou preferirão perpetuar o “jeitinho” que tanto envergonha nossa democracia.
A mudança Começa Com Você
Fiscalize, cobre, questione. Democracia não é esporte para espectadores. Somente com participação ativa da sociedade conseguiremos uma Maringá mais justa, transparente e eficiente.
Juntos, podemos transformar nossa Câmara Municipal num exemplo para todo o Brasil. O primeiro passo é não aceitar mais essa história de “dois pesos, duas medidas”. Nossos impostos merecem respeito. Nossa democracia merece transparência. Maringá merece muito mais.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
🔗 Leitura Complementar
Para entender melhor como políticas públicas de inclusão social funcionam em outras cidades, e como pressionar por mudanças em Maringá, recomendamos:
Para acompanhar reflexões sobre ética, trabalho e políticas públicas que fazem Maringá prosperar, siga @alanzampieri.adv no Instagram.



