Última atualização em 12/01/2026 por Alan Zampieri
Andanças: Quando as Ruas de Maringá Contam Suas Andanças, que estará disponível entre os dias 27 de julho e 28 de agosto de 2025, representa muito mais que uma simples experiência turística. Trata-se de uma revolução na forma como os maringaenses e visitantes podem se relacionar com a história da nossa cidade. Através de cinco narrativas cuidadosamente posicionadas em pontos estratégicos – o Túnel (Prudente de Morais, 515), Maria (Parque do Ingá), o Toco (Praça Regente Feijó), Um último biscoito (Bosque II) e À sombra do abacateiro (Praça Vila Rica) –, os participantes são convidados a uma jornada sonora que combina radioteatro, música eletroacústica e dramaturgia original.
Maringá pode viver um momento especial na valorização de seu patrimônio cultural imaterial. O projeto Andanças – audiotour sobre lendas maringaenses, desenvolvido pelo coletivo Projeto Akousma com recursos da Lei Aniceto Matti, representa uma iniciativa pioneira que coloca nossa cidade no mapa nacional do turismo cultural inovador. Com cinco áudios espalhados estrategicamente pela cidade, esta iniciativa não apenas resgata memórias esquecidas, mas também demonstra como políticas públicas bem estruturadas podem transformar o potencial cultural de uma cidade em ferramenta de desenvolvimento econômico e social.
A iniciativa vai além do entretenimento ao oferecer acessibilidade completa, incluindo recursos em Libras e audiodescrição, demonstrando o compromisso com a inclusão social que deve nortear todas as políticas públicas culturais. Como bem observou Vanderlei B. Junior, um dos idealizadores, durante o processo de pesquisa foi “bastante curioso que, durante nosso processo de pesquisa e criação, ao conversarmos com pessoas que nasceram ou residem na cidade há anos, muitas não tinham conhecimento dessas lendas”. Esta constatação revela a urgência e a relevância de projetos como este para a preservação da memória coletiva maringaense.
Seguindo Exemplos de Sucesso
Nossa cidade não está sozinha nesta jornada. Pelo contrário, integra um movimento nacional de valorização do patrimônio cultural através de tecnologias audiovisuais. Porto Alegre desenvolveu o projeto “Cruzando o Paralelo 30”, um audioguia com audiodescrição para roteiro turístico que serviu de referência acadêmica para pesquisas sobre turismo acessível. Santos criou tours noturnos que revelam histórias de terror e lendas urbanas do centro histórico, atraindo milhares de participantes mensalmente. Curitiba lançou o “Curitiba Sombria”, um passeio turístico que reúne mais de 30 histórias e causos da capital paranaense.
Estas experiências demonstram que o audioturismo cultural não é apenas uma tendência, mas uma necessidade contemporânea. Segundo estudos do Ministério do Turismo, a criação da Rede Brasileira de Cidades Criativas reconhece que “cidades criativas e inteligentes são melhores para os moradores e consequentemente para turistas”. O uso de tecnologias digitais para a gestão turística representa uma das principais estratégias dos Destinos Turísticos Inteligentes (DTIs), metodologia que visa otimizar a gestão dos destinos e melhorar a experiência dos visitantes.
Lei Aniceto Matti: A Base Sólida para o Desenvolvimento Cultural
O sucesso do projeto Andanças está intrinsecamente ligado à robustez da Lei Aniceto Matti, agora reformulada como Fomento Aniceto Matti. Esta política pública municipal, que destina recursos na ordem de R$ 2,5 milhões para projetos culturais, representa um dos maiores investimentos per capita em cultura entre os municípios brasileiros de porte similar. A mudança de nomenclatura, de “prêmio” para “fomento”, reflete uma evolução conceitual importante: passa-se do reconhecimento de obras já realizadas para o incentivo direto à criação de novos projetos.
Como explicou Francisco Pinheiro, Superintendente de Cultura da Semuc, “a modalidade ‘Prêmio’ é mais apropriada para se usar no caso de reconhecimento a obras já realizadas. A mudança coloca o incentivo municipal em acordo com Lei nº 14.903/2024 (Marco Regulatório do Fomento à Cultura) e com o Decreto nº 11.453/2023 (Decreto de Fomento), ambos do Governo Federal”. Esta adequação às normativas federais demonstra a maturidade da gestão cultural maringaense e sua capacidade de antecipar tendências nacionais.
O Potencial Econômico do Turismo Cultural em Maringá
Maringá possui todos os elementos necessários para se consolidar como referência em turismo cultural no Paraná. Com aproximadamente 420 mil habitantes, a cidade já é reconhecida pela ONU como “Cidade Árvore do Mundo” devido à sua excepcional arborização urbana. A diversidade étnica, com importantes comunidades japonesa, alemã, árabe, portuguesa e italiana, cria um mosaico cultural único que pode ser explorado turisticamente de forma sustentável.
O Festival Nipo-Brasileiro, que recebe anualmente cerca de 70 mil visitantes, e a Expoingá, com sua programação diversificada, já demonstram a capacidade da cidade de atrair grandes públicos para eventos culturais. O audioturismo de lendas urbanas pode complementar essa oferta existente, criando uma experiência continuada que funciona durante todo o ano, não apenas em períodos de grandes eventos.
Estudos sobre turismo cultural em cidades brasileiras, como o desenvolvido para Ilhéus com base na obra de Jorge Amado, mostram que “o turismo cultural pode ser usado para ajudar no desenvolvimento da região” quando há “enfoque que busca valorizar a cultura local, preservando a identidade cultural e, ao mesmo tempo, visa fortalecer o turismo cultural e melhorar a economia”. O projeto Andanças segue exatamente esta premissa ao valorizar as lendas locais como elementos diferenciadores da identidade maringaense.
Tecnologia e Acessibilidade: Pilares da Inclusão Cultural
Uma das características mais avançadas do projeto Andanças é sua preocupação com a acessibilidade universal. A inclusão de recursos em Libras e audiodescrição não é apenas uma obrigação legal, mas uma demonstração de que o turismo cultural deve ser verdadeiramente democrático. Esta abordagem está alinhada com as melhores práticas internacionais de audioguias acessíveis, como as desenvolvidas pelo Museu do Louvre em Paris e pelo MASP em São Paulo.
A experiência de São José (SC) com audioguias acessíveis mostrou que “deficientes visuais, por meio do tato, na ponta dos dedos, vão aos poucos ‘conhecendo’ as atrações, emocionando-se com as novas descobertas”. Em Maringá, o projeto Andanças vai além ao criar uma experiência multissensorial que combina audição, movimento urbano e descoberta espacial, permitindo que pessoas com diferentes necessidades possam vivenciar igualmente a riqueza cultural da cidade.
Lendas Urbanas: Patrimônio Imaterial que Conecta Gerações
As cinco lendas escolhidas para o projeto – incluindo histórias sobre abdução alienígena, um túnel subterrâneo misterioso, a origem da canção “Maringá” de Joubert de Carvalho, um fantasma ligado a uma tragédia e um bandido encantado – representam um recorte fascinante do imaginário popular maringaense. Estas narrativas, muitas vezes desconhecidas pelas novas gerações, constituem parte fundamental do patrimônio imaterial da cidade.
A lenda de Saruê, o bandido que se transformava em animais para escapar da polícia na Vila Operária, exemplifica como o folclore urbano pode revelar aspectos sociológicos importantes sobre a formação da cidade. As histórias dos demônios da Estrada Guaiapó, documentadas pelo padre Benno Wagner em 1955, mostram como eventos históricos reais se transformam em narrativas místicas que atravessam décadas.
Este resgate das lendas urbanas conecta Maringá a um movimento nacional de valorização do patrimônio imaterial. Cidades como Santos já desenvolvem “tours noturnos que revelam histórias de terror e lendas urbanas do centro histórico”, enquanto projetos como o “Arquivo Folclore” documentam “iniciativas de turismo lendário, que buscam ativar a memória das ruas que sobrevivem na forma de lendas urbanas”.
Propostas Inéditas para Ampliar o Impacto do Projeto
Considerando o sucesso potencial do projeto Andanças, proponho a criação de um Programa Municipal de Audioturismo Cultural que poderia incluir as seguintes iniciativas para Maringá:
- Circuito Gastronômico Sonoro: Desenvolvimento de audioguias específicos para os principais estabelecimentos gastronômicos da cidade, contando a história das comunidades étnicas através de seus pratos típicos e tradições culinárias.
- Trilhas Sonoras dos Parques: Criação de roteiros audioguiados pelos bosques e parques da cidade, explorando tanto aspectos ambientais quanto histórias e lendas associadas a cada espaço verde.
- Rota dos Pioneiros: Um circuito audioguiado que conecte os principais marcos da colonização maringaense, incluindo entrevistas com descendentes das primeiras famílias e reconstituições históricas sonoras.
- Festival Anual de Audioturismo: Realização de um evento que reúna projetos similares de outras cidades brasileiras, transformando Maringá em referência nacional nesta modalidade turística.
Estas propostas poderiam ser financiadas ou através da ampliação dos recursos do Fomento Aniceto Matti e ou de parcerias com a iniciativa privada, especialmente estabelecimentos comerciais que se beneficiariam diretamente do aumento do fluxo turístico.
Alicerces do Sucesso
O sucesso de qualquer política pública cultural depende fundamentalmente da qualidade de sua gestão. A reformulação da Lei Aniceto Matti, adequando-a às normativas federais mais recentes, exemplifica esta abordagem técnica e responsável.
A importância de uma gestão eficiente fica ainda mais evidente quando analisamos casos de sucesso em outras cidades. O projeto “Quarteirão Jorge Amado” em Ilhéus demonstrou que “o patrimônio cultural pode ser usado para ajudar no desenvolvimento da região” quando há gestão integrada que “busca valorizar a cultura local, preservando a identidade cultural e, ao mesmo tempo, visa fortalecer o turismo cultural e melhorar a economia”.
Em Maringá, a integração entre a Secretaria de Cultura e outros órgãos municipais, especialmente aqueles ligados ao turismo e ao desenvolvimento econômico, será fundamental para maximizar os benefícios do audioturismo cultural. A cidade já possui infraestrutura turística consolidada, com destaque para o Mercadão de Maringá, reconhecido entre as melhores feiras do Brasil pelo TripAdvisor, e uma agenda cultural robusta que inclui eventos como o Festival Nipo-Brasileiro e o Mês da Música.
Mobilização para o Futuro Cultural de Maringá
O projeto Andanças representa apenas o início de uma transformação que pode posicionar Maringá como referência nacional em turismo cultural inovador. Para que isso se torne realidade, é fundamental a mobilização de todos os setores da sociedade maringaense.
Convoco os empresários do setor turístico, gastronômico e cultural para se envolverem ativamente na divulgação e potencialização deste projeto. A experiência de outras cidades mostra que o engajamento do setor privado é fundamental para amplificar os resultados de iniciativas culturais públicas.
Chamo os educadores e estudantes a utilizarem o projeto Andanças como ferramenta pedagógica, integrando o conhecimento das lendas urbanas locais aos currículos escolares e projetos de extensão universitária.
Convido os profissionais de comunicação a documentarem e divulgarem amplamente esta iniciativa, contribuindo para que outros municípios possam replicar e adaptar o modelo maringaense às suas realidades locais.
A participação cidadã será determinante para o sucesso e continuidade desta iniciativa. Como demonstram as melhores práticas em políticas públicas culturais, “a elaboração de políticas públicas de turismo cultural deve empreender-se pela transversalidade, em sintonia com as outras políticas setoriais e baseadas em informações, dados e análises”. O envolvimento ativo da comunidade garante que estas políticas reflitam verdadeiramente as necessidades e aspirações locais.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
🔗 Leitura Complementar
Para entender melhor como políticas públicas de inclusão social funcionam em outras cidades, e como pressionar por mudanças em Maringá, recomendamos:
Para acompanhar reflexões sobre ética, trabalho e políticas públicas que fazem Maringá prosperar, siga @alanzampieri.adv no Instagram.



