Última atualização em 17/01/2026 por Alan Zampieri
De Foz a Curitiba: Maringá se Encaixa no Turismo Paranaense?
O Paraná vive um momento histórico no turismo. Entre janeiro e outubro de 2025, o estado recebeu 888 mil turistas estrangeiros — um crescimento de 20% em relação ao mesmo período de 2024. O setor gerou quase 6 mil novos empregos somente nos primeiros nove meses do ano, crescimento de 14,7%. A receita nominal do turismo avançou 9,9% em setembro. São números que revelam não apenas o aquecimento econômico, mas uma transformação estrutural na forma como nosso estado se posiciona no mapa turístico brasileiro e sul-americano.
Quando o Corredor Turístico Ignora Quem Está no Meio do Caminho
Vou ser direto: Maringá está geograficamente posicionada entre dois dos maiores polos turísticos do Paraná, mas não conseguiu ainda transformar essa localização em vantagem competitiva. O chamado “Corredor do Iguaçu”, que integra Foz do Iguaçu, Curitiba, Morretes e Paranaguá nas principais rotas turísticas nacionais, simplesmente não passa por aqui.
Então, o que falta? Visão estratégica. Maringá se tornou especialista em turismo de negócios e eventos corporativos, mas permaneceu refém dessa especialização. Enquanto isso, perdemos a oportunidade de nos integrarmos aos roteiros que movimentam milhões de turistas anualmente pelo estado.
Lições de Quem Soube Fazer a Lição de Casa
Não precisamos inventar a roda. O próprio Paraná oferece casos práticos de como cidades médias podem se posicionar estrategicamente no turismo regional. Morretes, com seus 16 mil habitantes, transformou-se em parada obrigatória entre Curitiba e o litoral. Como? Integrando gastronomia (o famoso barreado), natureza (Mata Atlântica e Serra do Mar) e experiências imersivas como o Ekôa Park, que recebe visitantes de todo o Brasil e do exterior.
Carambeí, outra cidade de porte modesto, criou o maior museu histórico a céu aberto do país – 100 mil metros quadrados dedicados à preservação da memória da imigração holandesa. O resultado? Fluxo constante de turistas, geração de empregos locais e projeção nacional. A Colônia Witmarsum, em Palmeira, seguiu caminho semelhante: a apenas 60 km de Curitiba, desenvolveu turismo rural e gastronômico baseado na cultura menonita, com cervejarias artesanais, cafés coloniais e pousadas charmosas.
Ribeirão Claro apostou no turismo de aventura e natureza. Com a represa de Chavantes, fazendas históricas da Rota do Café e o Morro do Gavião, a cidade atraiu praticantes de rapel, escalada, voo livre e turismo náutico. Hoje, resorts rurais movimentam a economia local e empregam centenas de famílias.
O que todas essas cidades têm em comum? Identidade clara, integração a rotas consolidadas e políticas públicas consistentes. Não tentaram competir com Foz ou Curitiba – criaram propostas complementares que enriquecem a experiência turística regional.
As Rotas Que o Paraná Já Tem (E Maringá Ainda Não Integrou)
O Paraná estruturou nos últimos anos uma série de rotas turísticas temáticas, todas amparadas por leis estaduais e políticas públicas coordenadas. A Rota do Rosário conecta 14 municípios do Norte Pioneiro e Campos Gerais em um circuito de turismo religioso que atrai milhares de peregrinos anualmente. A Rota da Cerveja Artesanal integra mais de 100 cervejarias em todo o estado, com destaque para Curitiba e Pinhais, promovendo turismo gastronômico noturno.
A Rota do Café atravessa o Norte do Paraná, passando por Londrina e chegando a Ribeirão Claro, passado por fazendas históricas, degustações e experiências imersivas. A Rota dos Caminhos da Erva-Mate valoriza a produção tradicional no Sul do estado. A Rota Turística Caminhos do Peabiru resgata trilhas milenares que conectavam o Atlântico aos Andes.
E onde está Maringá nesse mapa? Temos muito a melhorar. Precisamos de ponto de conexão entre rotas culturais, religiosas ou gastronômicas.
Essa ausência não é acidental, é resultado de décadas sem planejamento turístico integrado e sem articulação regional.
Viagens Que Revelam o Que Está Faltando Aqui
Nos primeiros meses de 2025, tive a oportunidade de percorrer algumas dessas rotas turísticas paranaenses. A primeira viagem foi à região de Morretes, especialmente ao Ekôa Park. Ali, em meio à maior faixa contínua de Mata Atlântica do Brasil, encontrei um modelo de turismo que une preservação ambiental, educação e experiências memoráveis. Tirolesa, trilhas guiadas, arborismo, projeções imersivas e oficinas de sustentabilidade – tudo pensado para conectar o visitante com a natureza de forma responsável. O parque funciona de quinta a domingo, com estrutura completa, estacionamento, acessibilidade e integração com a gastronomia local.

Fotografia de Alan Zampieri em meio à Mata Atlântica, no Ekoa Park, em Morretes, Paraná
Depois, conheci Carambeí e a Colônia Witmarsum, em Palmeira. Em Carambeí, o Parque Histórico reproduz fielmente a vila dos imigrantes holandeses entre 1911 e 1950, com casas, escola, igreja, comércio e até um museu de tratores. A Casa da Memória guarda acervo documental doado pela comunidade, permitindo ao visitante mergulhar na história da colonização. O Parque das Águas ensina sobre tecnologias hidráulicas holandesas – eclusas, diques, represas – em um cenário que parece ter saído da Holanda.
Witmarsum me surpreendeu pela autenticidade. A colônia menonita preserva arquitetura germânica, costumes tradicionais, gastronomia alemã e uma economia baseada no cooperativismo. Visitei cervejarias artesanais, cafés coloniais, restaurantes típicos, pousadas charmosas e o Lavandário Vale dos Sonhos, com campos de lavanda e trigo que parecem cenários europeus.
A viagem a Ribeirão Claro revelou outro Paraná. A Fazenda Monte Belo, na Rota do Café, oferece trilha ecológica de quatro horas, café rural com produtos artesanais e aula sobre o processo histórico de produção do café. O Morro do Gavião, a 850 metros de altitude, atrai praticantes de rapel, escalada e voo livre, com vista privilegiada da represa de Chavantes. A Ponte Pênsil Alves Lima, patrimônio histórico inaugurado em 1920, conecta Paraná e São Paulo e pode ser explorada por cima ou navegando pelo rio Paranapanema.

Fotografia de Alan Zampieri e seu cachorrinho Zeca em Ribeirão Claro-PR.
Foz do Iguaçu dispensa apresentações. Mas vale destacar: além das Cataratas, da Usina de Itaipu e do Parque das Aves, a cidade inaugurou recentemente um dos maiores aquários de água doce da América Latina, com 750 metros de circuito e espécies endêmicas do Iguaçu. Foz consolida-se como Destino Turístico Inteligente, com infraestrutura moderna, 30 mil leitos hoteleiros e capacidade para 16 mil pessoas em eventos simultâneos.
O que todas essas experiências me ensinaram? Turismo não é apenas sobre ter atrativos – é sobre criar narrativas, conectar experiências e integrar-se a rotas consolidadas.

Fotografia de Alan Zampieri ao lado de sua esposa Beatriz no Parque Nacional do Iguaçu-PR.
Exemplos Nacionais de Integração Turística Regional
O Brasil oferece casos inspiradores de como políticas públicas bem estruturadas podem transformar o turismo regional. Porto Alegre criou o Distrito C, polo de economia criativa que integra cerca de 100 artistas e empreendedores, promovendo turismo criativo e valorizando patrimônio cultural. A cidade gaúcha tornou-se a primeira brasileira integrada à Rede de Cidades Criativas da UNESCO em 2013, antes mesmo da criação do distrito.
Recife destaca-se como Cidade Criativa da Música pela UNESCO, promovendo turismo cultural baseado em sua rica tradição musical, carnaval e festas populares. Paraty consolidou-se como Cidade Criativa da Gastronomia, atraindo visitantes com festivais gastronômicos e de cachaça artesanal. Campina Grande, na Paraíba, tornou-se referência em artes midiáticas, aliando inovação tecnológica, economia criativa e turismo de eventos – seu São João é reconhecido como o maior do mundo.
No próprio Paraná, o Governo Federal implementou o Programa Rotas de Integração Sul-Americana, que conecta todos os estados brasileiros às rotas comerciais e turísticas continentais. A iniciativa visa reduzir custos logísticos, ampliar competitividade e promover desenvolvimento regional sustentável. Embora focado em infraestrutura de transportes e comércio, o programa reconhece o turismo como vetor estratégico de integração.
O Ministério do Turismo vem implementando o Plano Nacional de Turismo 2024-2027, que prioriza destinos inteligentes, turismo cultural e integração de indústrias criativas. A meta é fortalecer identidade territorial, ampliar inclusão social e aumentar competitividade dos destinos brasileiros nos cenários nacional e internacional.
Maringá precisa olhar para esses exemplos não como modelos a copiar, mas como inspirações para construir sua própria narrativa turística, baseada em nossas forças: infraestrutura urbana, qualidade de vida, gastronomia, cultura japonesa e posicionamento geográfico estratégico.
Por Que Esse Debate Importa Para Cada Maringaense
Turismo não é “coisa de cidade pequena” ou “luxo de capital”. É economia real que gera empregos, distribui renda, valoriza patrimônio cultural e fortalece identidade local. No Paraná, o setor gerou quase 6 mil empregos formais somente entre janeiro e setembro de 2025. Em Foz do Iguaçu, o turismo é responsável por parcela significativa do PIB municipal.
Quando Maringá se omite desse mercado, deixamos dinheiro, oportunidades e desenvolvimento na mesa. Jovens talentos migram para outros centros em busca de carreiras no setor. Empreendedores locais perdem competitividade. Nossa gastronomia, cultura e patrimônio permanecem subutilizados.
Mais do que isso: ao não integrarmos as rotas turísticas paranaenses, contribuímos para a perpetuação de desigualdades regionais. Enquanto Curitiba e Foz concentram investimentos, infraestrutura e visibilidade, cidades médias como Maringá ficam à margem de políticas públicas estruturantes.
Esse debate não é sobre transformar Maringá em “destino turístico de massa”. É sobre aproveitar o que já temos, conectar-nos ao que já existe e posicionar-nos estrategicamente no maior movimento de expansão do turismo paranaense das últimas décadas.
Turismo em Maringá
Maringá tem tudo para se tornar elo estratégico entre Foz do Iguaçu e Curitiba. Temos infraestrutura, qualidade de vida, gastronomia, cultura e posicionamento geográfico privilegiado. O que falta é visão, articulação e coragem para sairmos da zona de conforto do turismo de negócios e assumirmos protagonismo no turismo regional integrado.
O Paraná cresce. O turismo paranaense se expande. Rotas consolidam-se. Oportunidades multiplicam-se. Maringá pode continuar assistindo de camarote – ou pode entrar em campo. A escolha é nossa. E o momento é agora.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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