Última atualização em 17/01/2026 por Alan Zampieri
A Revolução Silenciosa das Telas
Não dá pra fingir que não vemos. Basta caminhar por qualquer praça do Centro, sentar num restaurante da Zona 7 ou entrar num transporte coletivo: cabeças abaixadas, olhos fixos em telas brilhantes, dedos deslizando compulsivamente. A tecnologia, que deveria nos conectar, paradoxalmente nos isola. E o pior: está adoecendo nossa gente.
Os números não mentem. Segundo dados nacionais, 97,3% dos adolescentes brasileiros apresentam algum grau de nomofobia – o medo irracional de ficar sem o celular – sendo que 56,8% estão em nível moderado e 16,2% em nível grave. Estamos falando de quase todos os nossos jovens presos a uma dependência que sequer reconhecemos como doença.
O que está acontecendo com nossas crianças e adolescentes?
Olhem ao redor. Crianças com tablets antes de aprenderem a ler. Adolescentes que passam mais de 12 horas diárias conectados. Jovens adultos apostando economias inteiras em jogos de azar online. Isso não é evolução tecnológica – é uma crise de saúde mental disfarçada de modernidade.
Uma pesquisa recente mostrou que 78% das crianças e adolescentes brasileiros de 9 a 17 anos estavam conectados em 2021, um aumento de 10% em relação a 2019. E o TikTok, plataforma preferida de 34% dos usuários dessa faixa etária, demonstra como a captura da atenção infantojuvenil se tornou uma indústria bilionária.
Mas aqui está o ponto que precisamos entender: não se trata apenas de “uso excessivo”. Estamos diante de um transtorno reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como dependência digital e nomofobia, listados no Código Internacional de Doenças (CID). É tão sério quanto parece.
O Brasil acordou: novas leis e marcos regulatórios
Felizmente, o Brasil não está de braços cruzados. Em 2025, o país deu passos gigantescos na proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital. A Lei nº 15.211, de 17 de setembro de 2025, conhecida como “ECA Digital” ou “Lei Felca”, estabeleceu obrigações para proteger crianças e adolescentes em ambientes digitais, aplicando-se a todo produto ou serviço de tecnologia da informação direcionado a esse público.
O marco legal determina que menores de 16 anos só poderão usar plataformas com supervisão ativa dos responsáveis, exige que empresas ofereçam ferramentas de controle parental acessíveis e eficazes, proíbe as chamadas “loot boxes” (caixas de recompensa aleatórias) em jogos eletrônicos voltados a menores e estabelece multas que podem chegar a R$ 50 milhões para empresas que descumprirem as normas.
Essa lei não surgiu do nada. É fruto de uma mobilização da sociedade civil, de famílias desesperadas vendo seus filhos adoecerem, de profissionais de saúde alertando sobre a epidemia silenciosa e de políticos comprometidos com o futuro da nação.
Paralelamente, em janeiro de 2025, entrou em vigor a Lei nº 15.100, que restringe o uso de celulares nas escolas públicas e privadas de todo o país. Estudantes da educação infantil, ensino fundamental e médio ficam proibidos de usar aparelhos eletrônicos portáteis durante aulas, recreio e intervalos, exceto para fins pedagógicos orientados por professores ou em situações de acessibilidade, saúde e segurança.
Apostas online: o novo vício da vez
Se a dependência de redes sociais e jogos eletrônicos já é preocupante, as apostas online representam um desafio ainda mais complexo e devastador. A ludopatia, ou vício em jogos de azar, funciona no mesmo mecanismo que a dependência de álcool ou drogas, mas com uma particularidade cruel: a pessoa perde tudo, literalmente tudo, antes de perceber que precisa de ajuda.
Patrícia, uma cozinheira, perdeu R$ 80 mil em dois meses em jogos de cassino online. Ela recebeu um link para o jogo, abriu por curiosidade e usou para passar o tempo. Quando percebeu, tinha perdido todas as economias e estava fazendo empréstimos para jogar. Histórias como a dela se multiplicam pelo Brasil.
O sistema de recompensa do cérebro é ativado quando a pessoa aposta, e a dopamina liberada reforça a compulsão, aumentando os níveis de excitação e reduzindo a inibição de decisões arriscadas. Pesquisas recentes mostram que a fissura dos jogadores por aposta é tão ou mais intensa do que a fissura de dependentes químicos por cocaína ou álcool.
O Brasil finalmente regulamentou o setor. A partir de 1º de janeiro de 2025, apenas empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), vinculada ao Ministério da Fazenda, podem operar legalmente no país. As novas regras incluem controle de fluxos financeiros, proibição de crédito para apostas, eliminação de bônus de entrada, exigência de identificação dos apostadores por meio de CPF e reconhecimento facial e medidas de jogo responsável como limites de depósito, alertas de tempo de sessão e possibilidade de autoexclusão.
O SUS está preparado? A resposta dolorosa
A verdade precisa ser dita: não, o SUS não está preparado para enfrentar o desafio da dependência tecnológica e da ludopatia. O atendimento a pessoas com ludopatia é realizado por meio da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), com apoio dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), mas faltam profissionais especializados e até mesmo espaço físico adequado para o tratamento.
Uma pesquisa feita pela organização sem fins lucrativos ImpulsoGov com 2.000 profissionais de saúde do SUS revelou que mais da metade (55,2%) dos entrevistados não se sentem preparados para atender pacientes com vício em apostas. Isso é grave. Muito grave.
Entre 2018 e 2023, o número de pessoas atendidas pelo SUS com problemas associados ao jogo patológico subiu de 108 para 1,2 mil. E esses são apenas os casos que chegaram ao sistema público – a quantidade real é certamente muito maior.
O presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Antônio Geraldo da Silva, foi contundente em depoimento à CPI das Bets: o SUS não tem estrutura para enfrentar o desafio da ludopatia, defendeu investimentos na área e pediu que o Congresso restrinja ou proíba os jogos no país.
O tratamento da ludopatia e da dependência digital requer uma abordagem multidisciplinar e individualizada. Entre as estratégias utilizadas, destacam-se terapias psicodinâmicas, comportamentais, grupos de apoio como Jogadores Anônimos e, quando necessário, intervenções farmacológicas para comorbidades psiquiátricas.
Em Maringá, o grupo de Jogadores Anônimos se reúne às quartas-feiras, às 20h, e aos sábados, às 15h, na Igreja Divino Espírito Santo, na Zona 7. É um serviço gratuito, acessível, baseado nos 12 passos de recuperação dos Alcoólicos Anônimos, e que tem salvado vidas.
O que outras cidades estão fazendo?
Não precisamos reinventar a roda. Outras cidades brasileiras já enfrentam esse desafio com políticas públicas inovadoras e eficazes. Podemos e devemos aprender com elas.
Recife, sob a gestão do prefeito João Campos, tornou-se referência nacional em transformação digital com foco no cidadão. O Conecta Recife é uma plataforma acessível, transparente e rápida para escuta da população, prestação de serviços e criação de políticas públicas, com mais de 1,6 milhão de usuários ativos e 1,2 milhão de downloads. A experiência digital de Recife é tão bem-sucedida que a Câmara dos Deputados e mais de 500 municípios brasileiros já se cadastraram para replicar o modelo.
A inovação de Recife não está apenas na tecnologia, mas na forma como ela é usada para criar políticas públicas baseadas em dados reais. João Campos explica: “Todas as políticas públicas a gente georreferencia para contemplar todo mundo. Tomo decisões olhando o mapa”. Essa abordagem permitiu, por exemplo, que Recife identificasse beneficiários da tarifa social de energia elétrica cruzando dados do governo federal com consumo de energia, incluindo mais de 30 mil pessoas no programa.
Florianópolis, sob o comando do prefeito Topázio Neto, é outra cidade que inspira. A capital catarinense, com 570 mil habitantes, possui 6.500 empresas de base tecnológica cadastradas, emprega 38.000 profissionais no setor e faturou R$ 27 bilhões em 2024. O índice de desemprego de Florianópolis é de apenas 2,8%, praticamente pleno emprego.
Mas o mais impressionante é o programa Floripa Mais Tec, patrocinado pela prefeitura, que tem por objetivo pegar o jovem a partir de 14 anos e educá-lo e formá-lo para o setor de tecnologia. Topázio Neto conta: “Fomos pesquisar e descobrimos que o jovem não sabia que aquilo ali era uma carreira possível”. Hoje, Florianópolis forma 300 a 350 desenvolvedores por ano através do programa municipal.
Essas experiências mostram que é possível usar a tecnologia como aliada, e não como inimiga. O desafio é equilibrar inovação com responsabilidade, progresso com saúde mental e conectividade com humanidade.
Olhar para frente: o futuro é agora
O fórum desta sexta-feira é mais do que um evento – é um marco. Maringá está dizendo: nós vemos o problema, nós entendemos a gravidade, nós vamos agir. E isso é fundamental.
Mas o verdadeiro desafio começa depois. Transformar debates em ações, palavras em políticas públicas, intenções em resultados concretos. É aí que a política de verdade acontece.
Defendo uma política pública baseada em evidências científicas, com gestão profissional, transparência radical e foco no resultado para a população. Não adianta criar programas bonitos no papel se eles não funcionam na prática. Não adianta gastar dinheiro público se não há impacto mensurável na vida das pessoas.
A dependência tecnológica – seja de redes sociais, jogos eletrônicos ou apostas online – é o desafio do nosso tempo. E Maringá tem todas as condições de ser protagonista na construção de soluções inovadoras, eficientes e humanas.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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