Última atualização em 12/01/2026 por Alan Zampieri
A Realidade Atual das Nossas UPAs
Vamos começar pelos fatos, que sempre devem guiar qualquer análise séria de políticas públicas. As Unidades de Pronto Atendimento de Maringá enfrentam um problema conhecido: a superlotação e as longas filas de espera. Mas os dados revelam algo ainda mais preocupante.

Distribuição de atendimentos por classificação de risco nas UPAs de Maringá, mostrando predominância de casos não urgentes
Um levantamento recente mostrou que, das 851 consultas realizadas em um feriado de maio, mais de 70% dos casos atendidos nas UPAs Zona Norte e Sul eram de baixa gravidade – casos que poderiam ter sido resolvidos nas Unidades Básicas de Saúde. Na UPA Zona Norte, 59,8% dos atendimentos foram classificados como “verde” (pouco urgentes), enquanto na UPA Zona Sul esse percentual foi de 52%.
Essa realidade não é exclusiva dos feriados. O próprio secretário de Saúde, Antônio Carlos Nardi, confirmou que a produtividade média dos profissionais nos turnos da manhã e tarde não atinge três atendimentos por hora. É aqui que entra a polêmica: como avaliar se isso é um problema de gestão, estrutura ou mesmo de comportamento profissional?
Uma Proposta Técnica
O vereador Uilian da Farmácia apresentou uma proposta objetiva. O projeto de lei determina que a Prefeitura publique mensalmente, no Portal da Transparência, dados sobre:
- Número de médicos por UPA e por turno
- Quantidade de atendimentos realizados por cada profissional
- Justificativas quando a produtividade ficar abaixo da média da unidade
- Atualização até o décimo dia útil de cada mês
A proposta é clara em um ponto crucial: não haverá identificação de pacientes ou médicos, respeitando a Lei Geral de Proteção de Dados. “Nós queremos deixar mais claro a quantidade de médicos que estão atendendo, trabalhando nos turnos”, explicou o parlamentar.
O Que Funciona?
Antes de formar uma opinião, precisamos olhar para além das fronteiras de Maringá. Afinal, boas práticas em gestão pública devem ser replicadas, não reinventadas.
O Rio de Janeiro, sob a gestão de Eduardo Paes, alcançou 98,66% de índice de transparência e recebeu o Selo Diamante em transparência pública. A cidade carioca disponibiliza dados sobre filas de atendimento, contratos e indicadores de saúde de forma proativa.
Curitiba implementou a Lei 21.242/2022, que obriga a divulgação semanal das filas públicas de saúde. João Campos, prefeito do Recife, desenvolveu a plataforma Conecta Recife, que digitaliza serviços públicos e promove inovação na gestão.
Esses exemplos mostram que a transparência, quando bem implementada, fortalece a gestão pública sem criar perseguição aos servidores. Como disse Ratinho Junior sobre transparência no Paraná: “Temos que levar o máximo de transparência para as pessoas”.
Os Benefícios da Transparência Responsável
Identificação de necessidades reais: Se uma UPA tem poucos médicos em determinado turno, os dados evidenciarão isso, permitindo ações corretivas.
Proteção dos bons profissionais: Como explicou Uilian da Farmácia, “esse projeto visa proteger os bons médicos e os pacientes também”.
Otimização de recursos: Gestores poderão redistribuir equipes conforme a demanda real de cada unidade.
Controle social efetivo: A população terá informações concretas para acompanhar a gestão da saúde.
Não Podemos Simplificar Demais
Agora, vamos ao contrabalanço necessário. Como alguém que defende o diálogo e a democracia, reconheço que há preocupações legítimas sobre essa proposta.
O Conselho Regional de Medicina do Paraná repudiou declarações do prefeito Silvio Barros sobre “baixa produtividade” médica, considerando-as difamatórias. Essa reação nos ensina algo importante: métricas de saúde são complexas e não podem ser reduzidas a números simples.
Cada paciente é único. Um médico pode atender menos pessoas porque está lidando com casos mais complexos. A qualidade do atendimento não se mede apenas pela quantidade, mas pela resolutividade e humanização.
Precisamos também considerar a realidade dos nossos profissionais. O Brasil tem 546 mil médicos ativos, mas há distribuição desigual entre regiões. Maringá, como outras cidades do interior, enfrenta desafios para atrair e manter profissionais no serviço público.
Uma Proposta Equilibrada para Maringá
Sugestões de aprimoramento:
- Contextualização dos dados: Além dos números, incluir informações sobre complexidade dos casos e disponibilidade de recursos.
- Indicadores qualitativos: Pesquisas de satisfação dos pacientes e tempo médio de espera.
- Participação profissional: Envolver médicos e enfermeiros na construção dos indicadores .
- Período de adaptação: Implementação gradual, começando com dados agregados por unidade.

Transparência em saúde pública com dados e indicadores
Transparência Como Ferramenta de Democracia
Defendendo a Constituição Federal e o diálogo como instrumentos de progresso, acredito que a transparência fortalece nossa democracia. O Portal da Transparência do Governo Federal já disponibiliza dados detalhados sobre gastos em saúde. Estados como o Paraná são referência em licitações ao vivo e prestação de contas.
Maringá não pode ficar para trás nesse movimento. Nossa cidade, que sempre foi pioneira na região, tem a chance de liderar também na transparência da gestão de saúde.
O Caminho do Meio
Respondendo à pergunta inicial: sim, divulgar dados sobre atendimentos médicos pode melhorar nossos serviços de saúde, mas apenas se fizermos isso de forma responsável e técnica.
A proposta do vereador Uilian da Farmácia tem mérito, mas precisa de refinamentos. Precisamos de transparência que informe, não que exponha; que melhore a gestão, não que persiga profissionais; que fortaleça o SUS, não que o enfraqueça.
O importante é que façamos isso com base em evidências, não em achismos. Afinal, quando se trata de saúde pública, não podemos nos dar ao luxo de improvisar. Nossa população merece o melhor, e a transparência responsável é um caminho para chegarmos lá.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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