Última atualização em 28/01/2026 por Alan Zampieri
Quando o Exame Revela Mais do Que Notas
A divulgação do Enamed 2025 pelo Ministério da Educação na última segunda-feira (19 de janeiro) transformou o que seria apenas mais um resultado estatístico em um sinal de alerta para Maringá. Pela primeira vez, o Brasil teve uma avaliação específica sobre a qualidade da formação médica, e os números não mentem.
A UEM conquistou a nota máxima — conceito 5 — com 90% dos seus alunos formandos (36 de 40 avaliados) demonstrando proficiência adequada para exercer a medicina. Esse resultado coloca a universidade entre os apenas 49 cursos no Brasil que atingiram essa excelência em um universo de 351 instituições avaliadas. No Paraná, apenas três cursos de universidades estaduais alcançaram essa marca. Fica claro: a UEM não é apenas um orgulho local, mas uma referência nacional de excelência pública e gratuita.
A Unicesumar, por sua vez, recebeu conceito 4, com 77% de proficiência (238 de 308 alunos). Um desempenho que merece reconhecimento: está acima da média nacional de universidades privadas, que é de apenas 57%. Essa instituição, fundada há 35 anos por Wilson de Matos como um pequeno empreendimento educacional, consolidou-se como potência em educação médica, ofertando metodologias inovadoras e convênios com hospitais de referência.
A Uningá, contudo, recebeu conceito 2 — a segunda pior classificação na escala. Isso não é um detalhe. Significa que a instituição figura entre os 107 cursos de medicina no Brasil considerados de “baixo desempenho” pelo MEC. Dos 351 cursos avaliados, 83 ficaram com conceito 2, e 24 com conceito 1. A Uningá está nesse grupo preocupante. E, importante lembrar, essa instituição possui hospital próprio e unidade básica de saúde, estruturas que estão conectadas diretamente ao Sistema Único de Saúde (SUS) e ao atendimento à população maringaense.

Conceitos Enamed 2025 das universidades maringaenses
A Cidade que Brilha em Gestão, Mas Precisa Brilhar em Educação Médica
Há uma contradição que salta aos olhos. Maringá é conhecida nacionalmente como modelo de qualidade de vida, gestão pública eficiente e inovação municipal. A cidade de 410 mil habitantes lidera rankings de desenvolvimento, educação básica de excelência (Ideb de 7,2 nos anos iniciais) e transparência pública com Selo Diamante (índice de 98,41%).
Maringá construiu modelo de governança que integra sociedade civil em um plano de metas com indicadores claros em saúde, educação, segurança e equilíbrio fiscal. É referência internacional em como fazer política pública com eficiência. O município já foi citado por especialistas em cidades sustentáveis como exemplo de planejamento que funciona.
Pois bem: essa excelência em gestão deve irradiar também para a educação superior. E aqui começa o trabalho que Maringá não pode adiar. O ensino de medicina — profissão que lida com vidas humanas, segurança da população e formação de um capital intelectual que migra pelo Brasil — não pode estar fora da agenda de excelência que caracteriza a cidade.
Os Números Que Contam a História Mais Ampla
Maringá abriga quase 45 mil estudantes universitários distribuídos em 12 instituições de ensino superior (uma pública, 11 privadas). O ensino superior movimenta a economia local de forma significativa: em 2021, o setor gerou R$ 20,8 milhões em arrecadação de Imposto Sobre Serviços (ISS), quase dobrando o valor de 2019. Cerca de 35% desses alunos vêm de outras cidades e estados, fixando residência na cidade durante seus cursos e movimentando segmentos como imobiliário, alimentação, comércio e serviços.
UEM: O Padrão-Ouro que Não Pode Ser Exceção
A Universidade Estadual de Maringá merece ênfase especial, não por vaidade institucional, mas por pragmatismo. Fundada em agosto de 1988, já formou 1.051 médicos em 33 turmas. Seu curso integra-se ao Hospital Universitário e ao Complexo de Saúde, criando ecossistema onde ensino, pesquisa e extensão funcionam de forma sinérgica. A universidade oferece 11 programas de residência médica vinculados ao departamento, o que significa que seus alunos completam especialização dentro da mesma instituição.
O conceito máximo no Enamed não é surpresa para quem conhece a instituição: já havia sido avaliada anteriormente com notas máximas em outros indicadores. Mas é decisivo: comprova que qualidade pública, gratuita e com forte produção científica não é utopia. É prática.
A UEM é também exemplo de como universidades estaduais do Paraná figuram entre as 30 melhores instituições de ensino superior do Brasil. Londrina (UEL) e Maringá consolidaram reputação de excelência que transcende fronteiras. Universidades estaduais não competem com a lógica de mercado — competem com a lógica da qualidade e da responsabilidade pública. E venceram.
Unicesumar: Quando a Iniciativa Privada Prova Capacidade
A Unicesumar representa uma história diferente, mas igualmente relevante. Iniciou-se em 1990 com dois cursos e 35 alunos. Hoje, 35 anos depois, está presente em cinco estados, com mais de 800 mil alunos ativos e história de pioneirismo: foi a primeira instituição privada de ensino superior em Maringá; primeira a autorizar EAD no Brasil (2006); primeira a oferecer Medicina em Maringá como privada (2011).
O conceito 4 no Enamed reflete compromisso institucional com qualidade. A Unicesumar investe em laboratórios de simulação clínica altamente tecnológicos, convênios com hospitais renomados e residência médica em diversas especialidades. Seus alunos vivenciam a prática desde o primeiro ano. A Dra. Solange Munhoz Arroyo Lopes enfatiza que avaliações como essa reforçam necessidade de aprimoramento contínuo — “educação superior de qualidade é bem público que deve transformar vidas”.
O ponto não é romantizar a privatização da educação. É reconhecer que quando instituições privadas fazem bem feito — com coordenação pedagógica rigorosa, infraestrutura adequada, professores qualificados, engajamento com a saúde pública — contribuem para o sistema educacional mais robusto.
Uningá: O Sinal de Alerta Que Não Pode Ser Ignorado
O conceito 2 da Uningá é mais que fracasso, é um chamado de atenção para a sociedade maringaense. Significa que estudantes formados por essa instituição estão abaixo das competências esperadas para exercer a profissão que envolve decisões que impactam vidas.
A instituição possui infraestrutura que deveria garantir qualidade: hospital próprio e unidade básica de saúde conectadas ao SUS. Isso torna o resultado particularmente preocupante. Não é falta de estrutura física que explica o desempenho — é necessário investigar como essa estrutura está sendo utilizada, qual é a qualidade de supervisão dos estágios, como estão sendo recrutados e desenvolvidos os docentes, qual é o projeto pedagógico efetivamente implementado.
O MEC já sinalizou: instituições com conceito 2 sofrerão redução de 25% das vagas para ingresso nos próximos anos. Isso é sanção — mas é sanção que deveria servir como oportunidade de reflexão profunda. O que está faltando? Investimento em qualificação docente? Revisão do currículo? Integração mais efetiva com cenários reais de prática?
A Câmara Municipal de Maringá, através de sua Comissão de Educação, tem legitimidade e responsabilidade para questionar essa situação — não de forma punitiva, mas propositiva. Qual é o plano da instituição para melhoria? Há compromissos públicos? Há cronograma? Há transparência no processo?
Quando a Política Pública Funciona: Exemplos de Outras Cidades
O modelo de Maringá demonstra que planejamento com indicadores claros, envolvimento de sociedade civil, transparência fiscal e foco em resultados produzem cidades mais eficientes. Esse mesmo modelo poderia irradiar para a educação superior sem necessidade de enormes investimentos iniciais — demanda principalmente de coordenação e vontade política.
A Janela de Oportunidade Está Aberta
O Ministério da Educação avisou: a partir de 2026, o Enamed será aplicado no 4º e 6º ano dos cursos de medicina, e não apenas no final. Isso significa que há tempo para correção, para aprendizado contínuo, para intervenção antes que o aluno chegue ao diploma. É janela de oportunidade.
O Governo do Paraná (Ratinho Junior, PSD) vem investindo em políticas estruturantes de qualidade. O Estado repassa R$ 55 milhões para 48 municípios através do “Pacto Pela Inovação”, programa que simplifica transferência de recursos e fortalece autonomia municipal. Maringá tem capacidade técnica e governança para ser protagonista.
Transparência Além de Placas com QR Code
Maringá acaba de aprovar (PL 17499/2025) o Programa Concessão Transparente que obriga publicação de informações sobre todos os contratos de concessão no Portal da Transparência com QR Code. É um passo importante de governança digital. Mas transparência em educação superior merecia movimento similar: divulgação anual de indicadores de qualidade dos cursos de medicina ao lado dos dados de saúde pública, segurança e educação básica.
Isso não é exposição vexatória de instituições. É exercício de cidadania informada. Uma cidade que monitora a qualidade de vida, que publica indicadores de Ideb, que acompanha resultados de saúde etc. merece também acompanhar indicadores de qualidade da formação de seus futuros médicos.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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