Última atualização em 17/01/2026 por Alan Zampieri
Esta é uma data para reconhecer o trabalho de quem mantém a cidade funcionando todos os dias. São os profissionais da saúde, da educação, da assistência social, da limpeza urbana, da administração pública. Gente que acorda cedo, enfrenta desafios diários e dedica suas vidas ao serviço público. Mas é também um momento para olharmos com honestidade os desafios enfrentados por esses profissionais, especialmente na educação municipal, onde faltam professores, infraestrutura adequada e condições dignas de trabalho.
Valorizar é Mais Que Decretar Feriado!
Celebrar o Dia do Servidor Público é fundamental, mas a verdadeira valorização vai além de uma folga anual. Em março deste ano, os servidores municipais de Maringá receberam reajuste salarial de 4,90%, percentual ligeiramente acima do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do período, que foi de 4,87%. O vale-alimentação também foi reajustado para R$ 528, aumento de R$ 24. Embora o reajuste tenha sido aprovado em assembleia do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Maringá (Sismmar), o percentual ficou abaixo dos 10% reivindicados durante a Campanha Salarial 2025.
A Câmara Municipal também aprovou o mesmo índice de 4,9% para seus próprios servidores e membros do Poder Legislativo, demonstrando isonomia nas decisões. No entanto, quando olhamos para o contexto nacional, vemos que a valorização salarial ainda é insuficiente para atrair e reter talentos na carreira pública, especialmente na educação. O cenário estadual ilustra bem esse problema: professores da rede estadual do Paraná enfrentam reajustes desiguais, com iniciantes recebendo 11,3% de aumento, enquanto profissionais experientes no topo da carreira ganham apenas 4%. Essa política de reajustes achatados desestimula a permanência na carreira e penaliza quem dedicou décadas à sala de aula.
Maringá se destaca nacionalmente em diversos indicadores de qualidade de vida, ocupando a primeira posição no ranking nacional do Índice de Desafios da Gestão Municipal (IDGM) em 2025, com pontuação histórica de 0,765. A cidade lidera em saúde (0,962), saneamento e sustentabilidade (0,978) e ocupa a segunda posição em educação (0,703). Mas esses números agregados escondem desafios específicos da rede municipal de ensino, especialmente na educação infantil e nas séries iniciais do ensino fundamental.
Educação Pública em Maringá: Faltam Professores, Faltam Recursos
A rede municipal de educação de Maringá enfrenta carências crônicas de pessoal. Em agosto deste ano, a Prefeitura abriu Processo Seletivo Simplificado (PSS) para contratação temporária de 169 professores para atuar em CMEIs e escolas municipais. Das vagas, 136 foram para ampla concorrência, 8 para pessoas com deficiência e 25 para candidatos negros. A carga horária é de 20 horas semanais, com remuneração de R$ 2.297,05, além de vale-alimentação de até R$ 528 e auxílio-transporte de R$ 406,70.
Saúde Mental dos Professores: O Adoecimento Silencioso
Outro problema gravíssimo que precisamos enfrentar é o adoecimento dos professores, especialmente relacionado à saúde mental. Dados nacionais revelam que mais de 150 mil professores da rede pública brasileira foram afastados de suas funções em 2023 por motivos relacionados à saúde mental, segundo levantamento da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) com base em dados do INSS. As principais causas de afastamento foram depressão e síndrome de burnout.
Estudo realizado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) avaliou 397 professores de vários estados e identificou que 32,75% apresentavam sinais de burnout. Professoras mulheres, sem companheiro fixo, sem filhos, com idade mais elevada, que possuem maior carga horária, que atendem maior número de alunos e trabalham em escolas públicas apresentam maior risco de desenvolvimento da síndrome. Em Santa Catarina, pesquisa com mais de 1,5 mil professores revelou que 53% relataram ansiedade e insegurança psicológica como as emoções mais recorrentes em relação ao trabalho, seguida de esgotamento mental (burnout), com 44%.
Os professores da educação infantil e dos anos iniciais são os mais vulneráveis. Para além das demandas pedagógicas, há pressões emocionais vindas da relação com as famílias dos alunos, que terceirizam completamente a educação emocional das crianças para a escola. A baixa remuneração exige carga horária cada vez maior para se manter financeiramente, além do acúmulo de funções, assumindo papéis de psicólogo, assistente social e apoio familiar.
Em nosso blog, já abordamos anteriormente os problemas psicológicos sofridos pelos professores, e a situação se agrava a cada ano.
O Que Outras Cidades Estão Fazendo? Lições de Quem Valoriza a Educação
SÃO JOSÉ DO RIO PRETO (SP)
Enquanto Maringá enfrenta esses desafios, outras cidades brasileiras de porte semelhante têm implementado políticas públicas inovadoras para valorização dos professores e melhoria da qualidade educacional. São José do Rio Preto (SP), com aproximadamente 470 mil habitantes, oferece aos professores de educação básica I vencimento inicial de R$ 4.931,20 para 40 horas semanais, além de auxílio saúde de até R$ 536 e auxílio alimentação de até R$ 682. O município também implementou sistema de bonificação por desempenho educacional, mas vinculado a indicadores mais amplos e justos.
JUNDIAÍ (SP) e FLORIANÓPOLIS (SC)
Jundiaí (SP), reconhecida no ranking de qualidade de vida, investe pesadamente em formação continuada de professores e infraestrutura escolar. A cidade mantém política consistente de reajustes salariais e benefícios para a carreira docente, com plano de carreira estruturado que prevê progressões por tempo de serviço e por qualificação profissional. Florianópolis (SC), referência nacional em educação, estabeleceu reajuste de 5% para professores da educação básica e cursos livres em 2025, além de abono salarial de 15% incidente sobre salários de março de 2024.
Chamada para a Mobilização: Maringá Precisa de Ação Coletiva
Valorizar os servidores públicos não é apenas uma questão de justiça, mas de interesse coletivo. Professores valorizados educam melhor, profissionais de saúde bem remunerados atendem melhor, servidores respeitados trabalham com mais dedicação. O desenvolvimento de Maringá depende de pessoas, não apenas de indicadores econômicos. Precisamos de uma cidade que seja boa não só para quem investe, mas para quem trabalha, estuda, cria seus filhos e envelhece aqui.
É fundamental que os maringaenses se mobilizem para exigir políticas públicas concretas de valorização dos servidores, especialmente na educação. Isso significa pressionar vereadores e o Executivo municipal para aprovação de planos de carreira robustos, realização de concursos públicos regulares, investimento em infraestrutura escolar e atenção à saúde mental dos professores. Significa também participar das assembleias dos sindicatos, acompanhar as votações na Câmara Municipal, cobrar transparência na aplicação dos recursos da educação.
Neste Dia do Servidor Público, minha homenagem sincera a todos os profissionais que fazem Maringá funcionar.
Mas também meu compromisso com a defesa intransigente de políticas públicas que valorizem esses trabalhadores de fato, não apenas no discurso.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
🔗 Leitura Complementar
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