Última atualização em 16/01/2026 por Alan Zampieri
O Festival de Música de Maringá que acabou de acontecer não foi apenas mais um evento no calendário da cidade. Foi uma demonstração viva de como gestão pública comprometida pode transformar cultura em direito acessível, não em privilégio de poucos. Enquanto muitas cidades brasileiras concentram eventos culturais em espaços elitizados, Maringá levou música de qualidade para onde o povo está – no terminal esperando o ônibus, na feira comprando verduras, no aeroporto embarcando para São Paulo.
Essa é a diferença entre fazer cultura para aparecer no jornal e fazer cultura que transforma vidas.
Arte Onde Você Menos Espera e Mais Precisa
Imagina você saindo de casa às seis da manhã, pegando o ônibus no terminal para trabalhar, e encontrando uma apresentação musical ao vivo? Não estou falando de artista de rua improvisado – estou falando de músicos profissionais, com estrutura, qualidade e respeito pela arte. Foi exatamente isso que aconteceu durante o festival.
O Terminal Urbano, a Feira do Produtor no Willie Davids, o aeroporto, a rodoviária – todos viraram palcos temporários. E por quê? Porque cultura não pode ficar presa entre quatro paredes esperando que o povo venha até ela. Precisa ir onde o povo está, no cotidiano, no caminho do trabalho, no fim de semana com a família.
Maringá, com este festival, mostrou que entendeu o recado: cultura é política pública essencial, não é enfeite.
Juventude no Centro (Literalmente)
O Concurso de Música Estudantil foi outro acerto que merece destaque. Premiação de R$ 3 mil, R$ 2 mil e R$ 1 mil para os três primeiros colocados não é pouca coisa para estudantes a partir de 14 anos que estão começando a carreira musical.
Esse tipo de iniciativa cumpre múltiplas funções: incentiva a produção autoral local, valoriza o talento jovem, cria oportunidades reais de reconhecimento e ainda forma plateia. Porque quem participa de festival estudantil não vira apenas músico – vira também público que valoriza música de qualidade.
Maringá, que tem no DNA a vocação musical reconhecida como “Cidade Canção”, não pode abrir mão de formar, incentivar e dar visibilidade para quem está começando. Os estudantes de hoje são os artistas consolidados de amanhã – e precisam de oportunidades reais, não apenas de discursos bonitos.
Ingresso Solidário: Cultura Com Responsabilidade Social
A troca de ingressos por alimentos foi inteligente. Cada pessoa podia retirar até três ingressos doando apenas 1kg de alimento não perecível. Isso garantiu que o acesso não fosse barrado pelo poder aquisitivo e ainda gerou impacto social com doações que certamente foram direcionadas para famílias em vulnerabilidade.
Esse modelo de “ingresso solidário” tem se consolidado como alternativa eficiente para democratizar cultura sem abrir mão da sustentabilidade social dos projetos. Em vez de criar barreiras econômicas excludentes, o festival transformou o acesso cultural em ato de solidariedade coletiva.
Experiências semelhantes em festivais pelo país mostram que essa estratégia funciona. A Lei Paulo Gustavo, que destinou R$ 3 bilhões para o setor cultural pós-pandemia, priorizou justamente políticas descentralizadas e inclusivas que chegassem a artistas e públicos historicamente excluídos.
Orquestra Sinfônica e Barbatuques: Qualidade Sem Populismo
Trazer a Orquestra Sinfônica do Paraná e o grupo Barbatuques para Maringá foi apostar em qualidade artística sem cair na armadilha do populismo cultural. Muita gestão pública acha que democratizar cultura é levar show de sertanejo universitário para praça pública – não é.
Democratizar é garantir que quem nunca teve acesso à música clássica, à percussão corporal de alto nível, possa vivenciar essas experiências sem precisar viajar para Curitiba ou São Paulo. É ampliar repertório, formar plateia, educar o olhar e o ouvido para diferentes expressões artísticas.
Mega Concert: A Cidade Tocando Junto
O Mega Concert que fechou o festival no domingo foi a cereja do bolo. A proposta era simples e poderosa: qualquer músico – estudante, amador ou profissional – podia levar seu instrumento e tocar junto com centenas de outras pessoas simultaneamente.
O repertório incluiu clássicos do rock brasileiro e internacional: Será (Legião Urbana), Sociedade Alternativa (Raul Seixas), Enter Sandman (Metallica), Eye of the Tiger (Survivor), Another Brick in the Wall (Pink Floyd), Pet Sematary (Ramones), Mulher de Fases (Raimundos) e Rock and Roll All Nite (Kiss).
Esse tipo de evento cria senso de pertencimento e coletividade que vai muito além da música em si. Quando centenas de pessoas tocam juntas em praça pública, a mensagem que fica é: a cultura desta cidade não é feita apenas por artistas consagrados, mas por cada um de nós.
O Que Falta: Permanência e Estrutura
Agora vem a parte chata, mas necessária: uma semana de festival por ano não resolve o problema da cultura em Maringá. A cidade precisa de política cultural permanente, com calendário anual consolidado, recursos orçamentários garantidos e equipes técnicas capacitadas.
Não adianta fazer evento bonito em outubro e passar o resto do ano com equipamentos culturais subutilizados e artistas locais sem apoio. Política pública não é evento – é processo contínuo, mensurável, aprimorável.
Cultura É Gestão, Não É Só Festa
O Festival de Música de Maringá provou que quando há planejamento, parceria estratégica e compromisso com democratização, a cultura acontece de verdade. Mas precisa virar rotina, não exceção.
A cidade merece política cultural perene, com investimento garantido, equipes capacitadas, editais transparentes e valorização sistemática dos artistas locais. Merece que a música – e todas as artes – estejam presentes no cotidiano, nas ruas, praças, terminais, escolas.
Cultura não é luxo, não é supérfluo, não é enfeite. Cultura é direito constitucional, é ferramenta de cidadania, é instrumento de transformação social. Quando investimos em cultura, investimos em educação, em convivência, em qualidade de vida, em desenvolvimento humano.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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