Última atualização em 16/01/2026 por Alan Zampieri
O Drama de 9 Mil Maringaenses que Não Pode Mais Esperar
A saúde mental não pode ser tratada como questão de segunda classe. Enquanto outras cidades inovam com telepsicologia, espaços de escuta móveis e programas integrados, Maringá amarga uma fila que representa mais de 9 mil histórias de sofrimento silencioso. É hora de agir com a urgência que o problema demanda, utilizando gestão técnica, eficiente e baseada em evidências para transformar essa realidade.
Números que Revelam Vidas
Os dados oficiais, obtidos através de um requerimento protocolado recentemente à Câmara Municipal, revelam uma realidade assustadora: 9.127 pessoas aguardam atendimento psicológico na rede municipal de saúde. Para dimensionar este número, isso equivale a mais de 2% da população maringaense – uma proporção que coloca nossa cidade entre os casos mais críticos do país.

Distribuição das filas de espera para atendimento psicológico nas principais UBSs de Maringá, com destaque para a UBS Quebec que concentra 789 pacientes aguardando atendimento
A distribuição dessas filas pelas 35 UBSs da cidade evidencia outro problema: a desigualdade territorial no acesso aos cuidados de saúde mental. Enquanto a UBS Quebec concentra 789 pessoas em espera, a UBS Zona 6 registra apenas 12 pacientes aguardando atendimento. Essa disparidade não reflete apenas diferenças demográficas, mas também deficiências na gestão e distribuição de recursos.
Das 35 UBSs municipais, apenas 29 possuem psicólogos lotados em seus quadros, sendo que uma dessas unidades tem o profissional afastado por questões de saúde. Seis unidades – Império do Sol, Paulino, Operária, Zona Sul, Industrial e Maringá Velho – dependem exclusivamente de “atendimentos em regime de horas extras”, uma solução paliativa que não atende à demanda crescente.
O Paraná e a Crise Nacional de Saúde Mental
Maringá não é uma exceção isolada. O Paraná ocupa a sexta posição nacional em afastamentos do trabalho por transtornos mentais, com 24.706 casos registrados em 2024. Ansiedade (6.026 casos) e depressão (5.993 casos) lideram as estatísticas, evidenciando que nossa crise local faz parte de um fenômeno nacional que demanda políticas públicas urgentes e eficazes.
O contexto nacional também é preocupante. O Brasil registrou aumento de 68% nos afastamentos por transtornos mentais em 2024, chegando a 472.328 licenças médicas concedidas no país. Esse cenário reflete não apenas os impactos tardios da pandemia, mas também transformações sociais e econômicas que exigem uma resposta robusta do poder público.
Em nossa região, a situação se agrava quando consideramos que Curitiba figura entre as capitais com maior índice de hospitalizações por transtornos mentais no país. Isso indica que a falta de atenção primária adequada em saúde mental leva à cronificação de casos que poderiam ser tratados preventivamente nas UBSs.
Aprendendo com Quem Acertou
Campo Grande/MS: Pioneirismo na Telepsicologia
Campo Grande implementou um programa revolucionário que deveria inspirar Maringá. A capital sul-mato-grossense desenvolveu o único serviço de telepsicologia via SUS de seu estado, atendendo 50 pacientes semanalmente com apenas dois psicólogos. O diferencial está na eficiência: consultas de 45 minutos, agendadas semanalmente, com acompanhamento pelo mesmo profissional.
Núria Parron, chefe da divisão de telerregulação da Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande, explica que o projeto utiliza infraestrutura otimizada – instalado no Centro Comercial Marrakech, com planos de expansão para cinco psicólogos. “Seguimos os mesmos padrões do atendimento presencial, é o mesmo tempo de sessão e os pacientes são acompanhados pelo mesmo psicólogo”, destaca a gestora.
Carnaúba dos Dantas/RN: Projeto Bem Viver
Este pequeno município de 7.856 habitantes desenvolveu o “Projeto Bem Viver”, uma experiência exitosa que comprova ser possível fazer saúde mental de qualidade mesmo sem CAPS. O programa criou ambulatório de saúde mental na Atenção Básica, grupos de escuta e terapia comunitária.
Os resultados são impressionantes: redução no uso indiscriminado de psicotrópicos, melhoria na qualidade de vida dos usuários e criação de vínculos efetivos entre população e profissionais de saúde. “É possível realizar um trabalho eficaz e de qualidade junto à população em sofrimento psíquico, mesmo em municípios de pequeno porte”, conclui o relatório do projeto.
Santa Rosa/RS: Linha de Cuidado Municipal
Santa Rosa desenvolveu uma Linha de Cuidado da Saúde Mental própria, elaborando fluxos específicos para usuários na rede municipal. O projeto articula serviços para melhoria das condições de acesso e tratamento, estabelecendo protocolos claros e estratégias coordenadas.
Por Que Agir Agora?
Cada dia de atraso na implementação dessas medidas representa vidas perdidas, famílias destroçadas e sonhos interrompidos. A Maria do Quebec não pode esperar mais; os 9.127 maringaenses em fila não podem esperar mais.
A saúde mental não é um item essencial de política pública – é direito fundamental garantido pela Constituição Federal e pela Lei 8.080/90. Quando uma cidade como Maringá, com toda sua pujança econômica e tradição em gestão pública, permite que quase 10 mil pessoas aguardem indefinidamente por cuidados básicos de saúde mental, algo está profundamente errado em nossas prioridades.
O momento é agora porque:
- Os recursos federais estão disponíveis e podem ser perdidos se não captados rapidamente
- A expertise já existe em outras cidades e pode ser adaptada para nossa realidade
- A tecnologia está acessível e democratizada para implementação imediata
- A sociedade civil está mobilizada e pronta para apoiar iniciativas concretas
A UBS Quebec, que me viu crescer, não pode continuar sendo campeã de uma estatística tão triste. Maringá tem tudo para ser referência nacional em inovação de políticas públicas de saúde mental. Falta apenas vontade política e organização social para tornar isso realidade.
Que 2025 seja lembrado como o ano em que Maringá disse “não” à espera por cuidados de saúde mental. Que seja o ano em que provamos que gestão técnica, eficiente e humanizada pode transformar estatísticas em vidas salvas.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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