Última atualização em 26/01/2026 por Alan Zampieri
Imagem de: Revista AZ Magazine
Quando Arte Urbana Vira Sintoma de Política Sem Transparência
Quinta-feira, 8 de janeiro de 2026. Vídeos começam a circular nas redes sociais. Servidores da Prefeitura de Maringá cobrem com tinta verde diversos grafites na Vila Olímpica. Os desenhos? Foram feitos em 2022 durante o “Primeiro Festival Nacional de Graffiti de Maringá”, evento que levou 5 mil pessoas ao espaço no sábado do festival e contou com 50+ artistas de todo o Brasil e América Latina.
A viralização é imediata. Poucos pontos unitários: oficialmente, a Secretaria de Cultura negou ter solicitado o apagamento. Disse que quem mandou foi a Secretaria de Esportes. A Secretaria de Esportes respondeu que “grafite não é permanente” e que estão “abrindo espaço para novos grafites”. O Prefeito Silvio Barros (PP) pediu para “não caírem em fake news” pelo Instagram e afirmou que leva neta para tirar fotos nos grafites.
Resultado: uma série de explicações sem clareza. Nenhuma menção a diálogo prévio com artistas. Nenhuma explicação sobre por que a Secretaria de Cultura — que ajudou a promover o festival em 2022 — não foi consultada. Nenhuma comunicação anterior à sociedade sobre a ação.
Esse é o centro do problema. Não é sobre gostar ou não de grafite. É sobre como a administração pública se comunica quando toma decisões que afetam patrimônio cultural coletivo.
Por que Maringá não tem política pública formalizada para arte urbana?

Políticas Públicas de Arte Urbana em Grandes Cidades Brasileiras: Comparação de Maturidade e Estruturação
Rio de Janeiro tem. São Paulo tem. Curitiba tem. Maringá não tem.
São Paulo, desde 2014-2015, estruturou o “Corredor de Arte Urbana” na Avenida 23 de Maio. Fornece spray, tinta, segurança, lanche. 200+ artistas. Investimento de ~R$ 1 milhão. Além disso, há 20 anos mantém política de fomento a artistas que inclui arte urbana.
Maringá? Promessas. Novo edital para Terminal Intermodal. Curadoria temática no futuro. Nada formalizado em lei, nada com orçamento dedicado, nada com procedimentos claros.
A questão pragmática é simples: se você não tem lei, não tem responsabilidade clara, não tem proteção para artista, não tem critérios para autorizar ou recusar. Fica tudo na mão de burocrata, na hora, na circunstância.
Por que a Prefeitura não consultou o Conselho Municipal de Cultura antes de apagar os grafites?
Maringá tem Conselho Municipal de Políticas Culturais desde a Lei Complementar nº 1.124/2018. É órgão deliberativo, consultivo, normativo e fiscalizador das questões culturais.
Tradução: é exatamente para isso que existe — para opinar, aconselhar e fiscalizar ações da Prefeitura que envolvam patrimônio cultural.
Os grafites da Vila Olímpica não são pichação anônima. São obras criadas em festival promovido pela própria Prefeitura. Têm assinatura de artistas. Têm história documentada. Fazem parte do acervo cultural coletivo da cidade.
Não há qualquer menção a consulta ao Conselho antes da ação. Nenhuma audiência pública. Nenhum aviso prévio aos artistas que assinaram os painéis.
O que isso sinaliza? Que houve falta de processo democrático e de comunicação eficiente na administração municipal. Que decisão sobre patrimônio cultural público pode ser tomada por ato de secretário, sem passagem por órgão colegiado.
Cidades estruturadas fazem diferente. Rio criou Conselho específico para grafite. Curitiba exige passagem por Conselho Municipal de Urbanismo para obras acima de 10 metros. São Paulo envolveu curadores de artistas na seleção.
Em Maringá, parece que o Conselho existe no papel (para essa decisão administrativa, principalmente). Serve para legitimidade institucional. Mas não funciona como de fato deveria: como espaço de diálogo entre governo e sociedade civil organizada.
Onde está essa indignação quando CMEIs e UBS precisam de reforma?
Aqui entra o que chamo de fiscalização seletiva de cidadania.
Concordo que apagar grafites sem avisar é ruim. Demonstra falta de diálogo, falta de processo transparente, falta de respeito ao patrimônio que a própria Prefeitura criou.
Mas é importante fazer um clamor: precisávamos de reações indignadas quando havia 29 escolas municipais com intervenções urgentes em 2025. Onde estava a viralização nas redes quando as portas de CMEIs tiveram que ser fechadas no meio do ano letivo porque não tinham mais condição de uso? Onde estava a mobilização quando tempo médio de reforma em instituições públicas é 2 a 3 anos?
Temos que ser honestos: as redes sociais inflamaram por grafite. Isso é legítimo. Mas a indignação cidadã não pode ser seletiva por tema. Não pode aparecer quando arte é apagada, mas desaparecer quando infraestrutura de saúde e educação se deteriora.
Porque no final das contas, criança em CMEI que funciona em espaço inseguro não vê grafite. Vê risco.
Porque arte urbana tem valor. Mas saúde e educação têm valor maior.
Cidadania ativa de verdade não é seletiva
O que aconteceu na Vila Olímpica — apagamento sem aviso, sem transparência, sem diálogo — é errado. Defendo que seja corrigido, que Maringá crie política pública de arte urbana como Rio, São Paulo e Curitiba têm.
Mas defendo com a mesma força que essa indignação cidadã seja igualmente ativa para outros patrimônios públicos. Para escolas em reforma. Para CMEIs que precisam de segurança. Para UBS que funcionam precariamente.
Porque política pública decente não é política que respeita só o que é trend em rede social. É política que respeita tudo que é público, tudo que é direito, tudo que afeta vida de maringaense, tenha grafite ou não.
Independente de você gostar de arte urbana — e eu gosto — a questão é processo democrático. Transparência. Diálogo.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
🔗 Leitura Complementar
Para entender melhor como políticas públicas de inclusão social funcionam em outras cidades, e como pressionar por mudanças em Maringá, recomendamos:
Para acompanhar reflexões sobre ética, trabalho e políticas públicas que fazem Maringá prosperar, siga @alanzampieri.adv no Instagram.



