Última atualização em 17/01/2026 por Alan Zampieri
Quando a gente fala do Parque do Ingá, não estamos falando de qualquer área verde. Estamos falando do coração verde de Maringá, do nosso xodó, do cartão-postal que apresentamos com orgulho para quem vem visitar nossa cidade. Com seus 474 mil metros quadrados de área, o Parque é muito mais que uma unidade de conservação — é símbolo da nossa identidade, parte da nossa história, local de lazer e encontro de milhares de maringaenses todos os dias.
Por isso, quando surgem problemas estruturais nesse espaço tão importante, não podemos simplesmente aceitar com naturalidade. Precisamos cobrar, questionar e, principalmente, entender o que está acontecendo para que essas falhas não se repitam. E o relatório divulgado pelo IAM neste mês de outubro de 2025 nos traz informações preocupantes que precisam ser debatidas com seriedade e transparência pela sociedade maringaense.
Quando o Planejamento Falta, o Dinheiro Público Escorre Pelo Ralo
Durante reunião do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Comdema), em 23 de outubro de 2025, o IAM apresentou dados que nos fazem refletir profundamente sobre como estamos gerindo nossos recursos públicos. As obras de drenagem do Parque do Ingá, iniciadas em 2024 com investimento total de R$ 2.058.747,55 — sendo R$ 268.748,00 com planejamento e R$ 1.789.999,55 na execução —, simplesmente não funcionaram como deveriam.
A equipe técnica do IAM avaliou o sistema durante três eventos significativos de chuva: 22 de setembro (40 mm), 14 de outubro (43 mm) e 18 de outubro (78 mm). Em todos esses momentos, as falhas ficaram evidentes. O canal oeste não apresentou escoamento, mesmo durante chuvas intensas, indicando erro de concepção hidráulica com desnível insuficiente para atingir o vertedouro da água. Já o canal leste enfrentou problemas com acúmulo de folhas nas grades, dificultando a autolimpeza do sistema e causando transbordamentos.
Essas falhas estão relacionadas a divergências entre o projeto e as condições reais do terreno, incluindo declividade inadequada, diferenças nos perfis de campo e subdimensionamento das estruturas. Em outras palavras, quem projetou o sistema não considerou adequadamente as características do local onde seria implantado. É como construir uma casa sem levar em conta o tipo de solo — o resultado inevitavelmente será problemático.
Lições Não Aprendidas: A Pista Emborrachada Como Alerta Ignorado
Quem acompanha a história recente do Parque do Ingá sabe que esse não é o primeiro episódio de problemas estruturais ligados ao planejamento inadequado. A pista emborrachada inaugurada em novembro de 2020, com custo de R$ 3,9 milhões, tornou-se um caso emblemático de como a falta de planejamento adequado pode comprometer investimentos públicos significativos.
O Xodó dos Maringaenses Merece Mais: Eficiência e Respeito ao Patrimônio Ambiental
O Parque do Ingá não é apenas uma área verde qualquer — é o nosso patrimônio ambiental mais importante, reconhecido como unidade de conservação e inscrito no Cadastro Estadual de Unidades de Conservação. Inaugurado em 10 de outubro de 1971, após estudos encomendados pelo então prefeito Adriano Valente, o Parque abriga um lago, 7 km de passeios, um Jardim Japonês e é palco de atividades científicas, recreativas e educacionais.
Para entender a dimensão do que está em jogo, precisamos olhar para a história do Parque. Desde a década de 2010, quando foram implantados canais de contenção de águas que impediam o desvio da água da chuva para o lago, o Parque vem sofrendo com processos erosivos e secamento do lago. A impermeabilização progressiva do solo na região do entorno, resultado do desenvolvimento urbano acentuado desde a década de 1960, agravou o problema. Estudos da Universidade Estadual de Maringá (UEM), através da Fadec, apontaram que múltiplos fatores climáticos e históricos contribuíram para o cenário atual do lago.
Nos últimos anos, a gestão municipal realizou investimentos importantes no Parque: troca de todo o alambrado por gradil (R$ 1,6 milhão), reformas de prédios internos, revitalização do Jardim Japonês em celebração aos 50 anos de irmandade com a cidade japonesa de Kakogawa. São melhorias que reconhecemos e valorizamos. Mas quando falamos de sistemas de drenagem e intervenções hidráulicas, não podemos aceitar o improviso ou o planejamento superficial.
Quando Outras Cidades Acertam: Exemplos de Drenagem Sustentável no Brasil
RECIFE
CURITIBA
Referência nacional em planejamento urbano e áreas verdes, Curitiba está implementando novo “parque esponja” no bairro Santa Cândida, às margens do Rio Atuba. O investimento de R$ 26 milhões contempla duas bacias de contenção com capacidade total para armazenar 150 mil metros cúbicos de água — equivalente a cerca de 60 piscinas olímpicas. O conceito de “parque esponja” combina infraestrutura verde e preservação ambiental, funcionando para contenção de cheias e oferecendo bosques nativos, pistas de caminhada, ciclovias, quadras esportivas e espaços de convivência. A secretária municipal do Meio Ambiente, Marilza Dias, destacou: “Esse parque vai ter um papel muito importante na contenção das cheias e na preservação da natureza. É um exemplo de como podemos aliar infraestrutura e sustentabilidade”.
SÃO PAULO
São Paulo tem trabalhado com parques lineares e sistemas de infraestrutura verde integrados à drenagem urbana. O Manual de Drenagem e Manejo de Águas Pluviais do município estabelece diretrizes para projetos que incluem medidas estruturais (canalização, reservatórios) e não estruturais (controle de uso do solo, preservação de várzea, educação ambiental). Estudos da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano apontam para a meta de atingir, em 2040, grau de proteção hidrológica para cheias com período de retorno de 100 anos.
PORTO ALEGRE
Porto Alegre desenvolveu Plano Diretor de Drenagem Urbana que incorpora conceitos de desenvolvimento urbano de baixo impacto, com controle de escoamento na fonte, redução do escoamento por infiltração, evaporação e armazenamento temporário. O município implementou o Decreto 15.371/06, que estabelece controle do escoamento na fonte, obrigando novos empreendimentos a implantar medidas de controle para que a cheia natural não aumente.
Princípios Inegociáveis para o Futuro do Parque do Ingá
Como maringaense que acredita na política como instrumento de transformação social, como defensor da Constituição Federal e do diálogo democrático, não posso aceitar que recursos públicos sejam desperdiçados por falta de planejamento adequado. Mais de dois milhões de reais investidos em um sistema de drenagem que não funciona adequadamente é dinheiro que faz falta em tantas outras áreas — na saúde, na educação, na assistência social, no transporte público.
Juntos pelo Parque do Ingá
Amigos e amigas maringaenses, este não é momento de ficarmos parados esperando que alguém resolva os problemas por nós. A democracia participativa exige engajamento, exige que nos manifestemos, que cobremos, que fiscalizemos, que contribuamos com ideias e soluções.
Participem das reuniões do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Comdema). Acompanhem as audiências públicas relacionadas ao Parque do Ingá. Manifestem-se nas redes sociais, nos veículos de comunicação, nos espaços de participação popular. Cobrem dos vereadores e do Executivo municipal planejamento técnico rigoroso, transparência nas decisões e correção das falhas identificadas.
O Parque do Ingá é nosso, é de todos os maringaenses. Cuidar dele é responsabilidade compartilhada entre poder público e sociedade civil. Vamos juntos exigir que nosso patrimônio ambiental mais importante receba o tratamento que merece — com eficiência, transparência, planejamento técnico e respeito ao dinheiro público.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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