Última atualização em 16/01/2026 por Alan Zampieri
Quando Boas Intenções Podem Comprometer Vidas: Minha Posição Contrária ao Projeto de Perdão de Multas
Às vezes, as propostas que mais tocam nosso coração são exatamente aquelas que precisamos analisar com mais frieza. Foi assim que me senti quando soube do projeto do vereador Luiz Neto sobre perdão de multas do EstaR para doadores de sangue. Enquanto católico, entendo profundamente o valor da doação – é um gesto supremo de amor ao próximo, uma manifestação tangível da nossa responsabilidade cristã de zelar pela vida. Mas é justamente por valorizar tanto esse ato sagrado que preciso me posicionar contrariamente a essa proposta.
Por Que Às Vezes Precisamos Dizer “Não” ao Que Parece Certo
Vocês já repararam como Maringá tem dessas discussões que dividem a cidade? Pois então, esse projeto de lei 17631/2025 é mais uma dessas situações onde o coração puxa para um lado e a razão técnica aponta para outro. E eu, depois de muito refletir, preciso ficar com a razão técnica – não por frieza, mas por responsabilidade.
A doação de sangue é sagrada demais para ser instrumentalizada. Quando colocamos qualquer tipo de incentivo material – por menor que seja – corremos o risco de desvirtuar a natureza altruísta que deve reger esse ato de solidariedade. É como tentar comprar um gesto de amor: pode até funcionar, mas perde sua essência mais profunda.
O Problema Real Que Ninguém Quer Falar
Aqui vou ser direto, na lata: quando oferecemos benefícios para doação de sangue, criamos o risco de pessoas mentirem na triagem. Não é desconfiança da natureza humana – é realismo baseado em evidências científicas. Em 2023, quando projeto similar foi debatido na nossa Câmara, a diretora do Hemocentro, Márcia Regina Ferreira, foi clara sobre esse “risco para a segurança do sangue coletado, já que o doador, em busca do benefício, pode omitir informação”.
Imaginem a situação: uma pessoa recebeu uma multa de R$ 130,16 (valor médio das multas leves). Para economizar esse dinheiro, ela vai doar sangue. Durante a entrevista de triagem, o profissional pergunta sobre comportamentos de risco, uso de medicamentos, viagens recentes. Será que essa pessoa vai ser 100% honesta sabendo que uma resposta pode desqualificá-la e ela perder o benefício?
Não estou dizendo que todo mundo vai mentir. Mas basta uma pessoa omitir informação crucial para colocar vidas em risco. E isso não podemos aceitar.
Quando a Matemática Fala Mais Alto que a Emoção
Vamos aos números que realmente importam. Em 2024, Maringá registrou 422.401 autuações urbanas, arrecadando R$ 32 milhões em multas. Nosso Hemocentro atende 30 municípios e precisa constantemente de doadores. Parece lógico conectar esses dois problemas, não é?
Mas as melhores políticas públicas não são as que parecem lógicas – são as que funcionam sem criar novos problemas. E esse projeto criaria vários:
Primeiro problema: A segurança do sangue. Toda a literatura médica internacional aponta que incentivos financeiros (mesmo indiretos) aumentam o risco de omissão de informações pelos doadores.
Segundo problema: A função educativa das multas. Como bem explicou um especialista em trânsito: “A multa também educa, ainda que a alteração do comportamento se dê não pela consciência quanto à necessidade de uma conduta segura, mas como um desdobramento do desejo de não ser multado”. Se perdoamos multas sistematicamente, perdemos essa função pedagógica.
Terceiro problema: A questão jurídica. Municipal legislando sobre trânsito? Advogados mais experientes que eu já alertaram sobre a constitucionalidade duvidosa dessa medida.
O Que Realmente Funciona: Lições de Quem Entende do Assunto
Se querem saber o que realmente estimula doação de sangue, olhem para o que funciona no mundo inteiro. No Zimbábue, por exemplo, estudantes criaram o “Clube da Promessa 25”, comprometendo-se a doar sangue 25 vezes na vida e permanecer HIV negativos. Resultado? Triplicaram o número de doadores estudantis.
Não foi oferecendo benefício material. Foi criando cultura de doação baseada em valores.
O Brasil já tem programas que funcionam: campanha permanente do Ministério da Saúde, aplicativo Hemovida integrado ao ConecteSUS, parcerias com escolas e universidades. São estratégias que respeitam a natureza altruísta da doação enquanto facilitam o processo.
Em Maringá mesmo, nossa Santa Casa tem trabalho sólido de educação sobre doação. O Hemocentro Regional faz campanhas regulares. O que falta não são incentivos materiais – são campanhas mais intensas e educação continuada.
Por Que Dizer “Não” Às Vezes É o Maior Ato de Amor
Como católico, aprendi que às vezes amar significa dizer não ao que pode parecer bom na superfície, mas compromete algo maior e mais profundo. A doação de sangue é um sacramento leigo – um ato que toca o sagrado da vida humana. Não podemos permitir que se torne transação comercial, mesmo disfarçada de política pública bem-intencionada.
Quando Jesus expulsou os vendilhões do templo, não foi porque era contra o comércio. Foi porque havia coisas sagradas demais para serem comercializadas. A doação de sangue é uma dessas coisas.
Não estou sendo rigoroso por prazer. Estou sendo responsável por necessidade. Porque uma única bolsa de sangue contaminada por omissão de informação pode infectar quem a receber com HIV, hepatite B ou C. E isso seria tragédia irreversível que nenhum benefício administrativo justifica.
A Incoerência Que Precisamos Enfrentar
Tem algo que me incomoda profundamente nessa discussão: estamos falando de perdoar multas de trânsito para quem salva vidas. Vejam a contradição: queremos premiar quem cuida da vida dos outros, mas relevando infrações que colocam vidas em risco no trânsito.
Cada multa do EstaR existe porque alguém desrespeitou regras de estacionamento que existem para organizar o trânsito urbano. Se começarmos a perdoar infrações sistematicamente, qual a mensagem que estamos passando sobre a importância das regras de convivência urbana?
É como se disséssemos: “Tudo bem desrespeitar as regras do trânsito, desde que você doe sangue.” Que tipo de educação cidadã é essa?
O Que a Experiência Nacional Nos Ensina
Curitiba, Rio de Janeiro, Caruaru – várias cidades já discutiram propostas similares. Algumas aprovaram versões diferentes, outras enfrentaram questionamentos jurídicos. Mas nenhuma conseguiu demonstrar que incentivos materiais aumentam significativamente as doações seguras.
O que realmente aumenta doação é cultura de doação consolidada. E isso se constrói com educação, facilitação logística e reconhecimento social – não com trocas materiais.
Por Que Não Podemos Ceder ao Populismo de Boa Intenção
Esse projeto tem tudo para virar unanimidade na Câmara. Quem vai votar contra doação de sangue, não é mesmo? Mas política responsável às vezes exige coragem de contrariar o senso comum quando ele está tecnicamente equivocado.
Não estou sendo contra doação de sangue. Pelo contrário: estou defendendo que ela continue sendo o que deve ser – um ato puro de solidariedade humana, livre de qualquer contaminação mercantil.
Se o vereador Luiz Neto quer realmente estimular doação de sangue (e eu tenho certeza de que quer), que retire esse projeto e apresente outro: criando campanha municipal permanente, facilitando logisticamente a doação, estabelecendo parcerias com empresas locais, intensificando educação nas escolas.
Isso sim seria política pública à altura da generosidade que queremos estimular.
O Chamado à Reflexão Responsável
Peço aos meus colegas vereadores, aos formadores de opinião da nossa cidade e aos cidadãos maringaenses: não deixemos o coração falar mais alto que a responsabilidade técnica. Doação de sangue salva vidas justamente porque é feita por pessoas que estão preocupadas em salvar vidas – não em economizar dinheiro de multa.
Se vocês querem realmente ajudar a aumentar as doações em Maringá, vão ao Hemocentro Regional doar sangue. Levem amigos, familiares, colegas de trabalho. Compartilhem informações corretas sobre doação nas redes sociais. Pressionem suas empresas para facilitar a doação dos funcionários.
Façam isso por amor ao próximo, não por desconto em multa.
E para quem está lendo e ainda não doa sangue: o Hemocentro Regional de Maringá fica na Rua Mandacaru, 1.600. Funciona de segunda a sexta, das 7h às 11h45 e das 13h às 16h45. Sábados, das 7h às 10h45. Uma doação pode salvar até quatro vidas.
Não precisamos de lei para fazer isso. Precisamos de consciência. E consciência não se compra – se educa.
A doação de sangue é dádiva sagrada demais para ser transformada em moeda de troca. Vamos mantê-la assim: pura, altruísta e salvadora de vidas.
Por isso, manifesto minha posição contrária ao Projeto de Lei 17631/2025. Não por falta de sensibilidade, mas por excesso de responsabilidade. Porque defender a vida às vezes exige dizer não ao que pode comprometê-la.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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