Última atualização em 28/01/2026 por Alan Zampieri
Quando a Fiscalização Não Reduz os Acidentes
Uma multa por minuto. Esse é o ritmo de Maringá no trânsito desde 2025: 513 mil autuações distribuídas ao longo de 365 dias significam que, enquanto você lê este parágrafo, alguém em alguma via da Cidade Canção recebeu uma notificação de infração. O fenômeno é tão expressivo que merece contextualização: há cinco anos, em 2021, esse número era de aproximadamente 230 mil multas. Hoje, mais do que dobrou.
A pergunta que permeia conversas em rádios locais, comentários nas redes sociais e mesas de padaria é incômoda: se as multas aumentaram 123% em meia década, por que os acidentes não caem na mesma proporção? Os dados revelam uma incongruência. Em 2025, Maringá registrou 7.307 acidentes (aumento de 4,5% vs 2024), mas conseguiu redução importante em mortes: 33 óbitos, queda de 13,1% em relação aos 38 de 2024 — o menor número desde 2021. Paralelamente, vítimas totais (feridos + óbitos) caíram 36%. Pior: a tendência das infrações permanece ascendente, enquanto a efetividade preventiva fica em questão.
Essa desconexão entre volume de autuações e segurança real aponta para um debate estrutural que vai além dos números: qual é verdadeiramente o objetivo da fiscalização? Arrecadar recursos para subsidiar a máquina pública, ou proteger vidas nas ruas?
O Dinheiro das Multas: Transparência e Aplicação
A prefeitura de Maringá arrecadou R$ 58 milhões com multas de trânsito em 2025, valor superior à previsão inicial de R$ 54,4 milhões. Para 2026, o orçamento municipal prevê R$ 61 milhões em receitas provenientes de penalidades. Esses números despertam atenção legítima: como esses recursos estão sendo investidos?
Segundo o Código de Trânsito Brasileiro (artigo 320), as receitas provenientes de multas devem ser aplicadas exclusivamente em cinco áreas: sinalização, engenharia de tráfego, policiamento, fiscalização e educação para o trânsito. Adicionalmente, 5% do valor arrecadado deve ser depositado em fundo nacional de segurança e educação viária.
A Lei permite clareza. O que falta é transparência pública sistemática. Maringá dispõe de Portal da Transparência, onde dados financeiros podem ser consultados. Contudo, a agregação específica de como cada centavo destinado ao Fundo Municipal de Trânsito está sendo alocado entre as cinco categorias legais permanece uma dúvida para o cidadão comum. O secretário de Mobilidade Urbana, Luciano Brito, confirmou em entrevista que os recursos cobrem “ações educativas, manutenção e estruturação de fiscalização, contratos de radar e sinalização de vias”. Mas em qual proporção? Quanto vai efetivamente para educação, quanto para infraestrutura?
Essa lacuna entre lei e execução é péssima. Uma cidade que educa seus cidadãos sobre as razões detrás de cada multa — conectando-a a investimentos em segurança e não apenas a receita — cria percepção diferente. Maringá ainda não chegou lá.
Excesso de Velocidade Domina: O Sinal Que Fala
A composição das multas revela muito sobre onde estão os problemas de segurança percebidos pelas autoridades. Em 2025, 75% das 513 mil multas foram por excesso de velocidade — especificamente, 382.368 autuações em infrações relacionadas aos artigos 208 e 218 do Código de Trânsito Brasileiro.
Essa concentração sugere duas hipóteses: primeira, os motoristas maringaenses, de fato, desrespeitam sistematicamente os limites de velocidade. Segunda, e igualmente importante, a infraestrutura de sinalização desses limites pode ser insuficiente ou pouco clara. Em resposta, o secretário Luciano Brito anunciou que até fevereiro de 2026, a cidade padronizará o limite de velocidade em 50 km/h em toda a malha viária, com exceção da Avenida Colombo e Avenida Sincler Sambatti. 35% das adequações já foram cumpridas.
Maringá Versus Curitiba: Capital reduziu 34%
A comparação mais óbvia e incômoda é com Curitiba. A capital paranaense, com população similar e volume de trânsito equiparável, conseguiu reduzir infrações em 34,1% entre 2024 e 2025—passando de 1.028.875 multas para 677.821. Como?
O resultado? Não apenas a redução de multas — mas também comunicação clara: os radares estão ali para orientar e salvar vidas, não para arrecadar.
Maringá investiu em quê? A “Operação Cruzamento”, lançada em janeiro 2026, representará avanço ao utilizar dados da “Plataforma Vida” (sistema interno de análise) para focar fiscalização em cinco cruzamentos críticos. Mas trata-se, ainda, de intensificação de fiscalização, não reengenharia de segurança. Onde estão as travessias inteligentes? Os investimentos em sinalização viária que previnam o avanço de sinal, em vez de apenas puni-lo?
A Tríade Que Funciona: Engenharia, Educação, Esforço Legal
Especialistas em segurança viária identificam uma “tríade” de fatores essenciais para reduzir sinistros: engenharia (geometria de via, sinalização, fluidez), educação (comportamento de motorista e pedestre) e esforço legal (fiscalização efetiva).
Maringá tem lei. Tem fiscalização intensiva. O que falta é, simultaneamente, engenharia visível e educação estruturada. O Código de Trânsito Brasileiro, desde 1997, determina que educação para o trânsito é direito de todos e prioridade do Sistema Nacional de Trânsito. Campanhas isoladas no Maio Amarelo — simuladores de capotamento, palestras — são louváveis, mas insuficientes.
São Paulo, por exemplo, integrou educação para segurança viária na Base Nacional Comum Curricular, com módulos de formação de condutores na rede básica. O programa “Na Pista Certa” alcançou crianças em 2024 através de carretas educativas e teatros com bonecos. Vitória desenvolve o “Faixa da Vida”, humanizando pedestres através de faixas pintadas em vermelho estrategicamente. Rio de Janeiro completou seu Plano de Mobilidade Urbana Sustentável com processo participativo de 18.300 votos.
Maringá possui Plano de Mobilidade desde 2022, estruturado e participativo. Mas permanece em implementação parcial. A população espera ver execução, não apenas planejamento.
O Papel da Comunicação Estratégica
Nenhuma das medidas acima funcionará sem comunicação clara. Maringá precisa mudar narrativa: de “vamos fiscalizar e punir” para “vamos fazer um trânsito seguro que não exija multas”.
Quando Curitiba reforçou sinalização em radares com películas refletivas e pintura, fez questão de comunicar: “Queremos mostrar que os radares estão aqui para orientar e salvar vidas, não para arrecadar”. Mensagem unificada, direta.
Maringá pode fazer similar. Campanha integrada destacando: (1) transparência sobre investimento de multas em segurança; (2) novas sinalizações visíveis implementadas; (3) campanhas escolares em andamento; (4) redução de acidentes como indicador de sucesso, não aumento de multas.
Cidadãos competentes e bem-informados ajustam comportamento. Cidadãos céticos em relação às intenções da administração, ressentem-se e litigam. Comunicação estratégica transforma a percepção da população.
Segurança Viária como Projeto de Cidade
Maringá tem capacidade técnica e legal para mudar. Possui PlanMob aprovado, Portal da Transparência, Semob sob nova liderança, e dados precisos através da Plataforma Vida. Tem exemplos próximos — Curitiba demonstrou que é possível reduzir infrações enquanto investe em segurança.
O que falta é decisão política clara: priorizar vidas ou arrecadação? Porque ambas não são compatíveis como objetivos simultâneos. Uma cidade que previne sinistros reduz multas. Uma cidade que apenas fiscaliza infrações aumenta multas, mas não salva vidas.
Os dados de 2025 são relatório, não sentença. Maringá pode reescrever a história do trânsito local começando em 2026. Curitiba fez. Vitória fez. São Paulo e Rio fazem. A questão não é se é possível, mas se há vontade política de priorizar segurança sobre receita pública.
Cada multa que deixa de ser aplicada porque o motorista mudou de comportamento preventivamente — porque viu sinalização clara, porque aprendeu em escola, porque confiou que a administração protege vidas — essa é a vitória que importa.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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