Última atualização em 17/01/2026 por Alan Zampieri
Não é que viagem internacional seja errada por si só. Não é isso. O problema está no timing, nas prioridades e, principalmente, na forma como o dinheiro público está sendo usado neste exato momento em Maringá. Vamos conversar sobre isso com a franqueza que o tema exige.
Quando o Calendário Não Fecha: Quênia, ONU e a Maringá Que Espera
A Câmara Municipal aprovou, por 13 votos a 5, mais uma licença para o prefeito Silvio Barros viajar ao exterior. O destino agora é o Quênia, especificamente Nairóbi, para participar da “Cúpula de Cidades e Regiões” promovida pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. A ausência será entre os dias 3 e 10 de dezembro, exatamente quando a Maringá Encantada deveria estar em pleno funcionamento.
O Descompasso Que Maringá Sente na Pele
Vamos aos fatos. Londrina lançou oficialmente o “LondriNatal 2025” no dia 18 de novembro, com evento espetacular que incluiu a chegada do Papai Noel em uma catita, decoração em mais de 40 pontos da cidade, roda gigante no calçadão e programação estendida até janeiro. Curitiba iniciou seu Natal no dia 24 de novembro, com mais de 150 atrações, incluindo o espetáculo oficial da Disney e investimentos recordes.
E Maringá? A terceira maior cidade do Paraná ainda estava instalando luzes natalinas na segunda quinzena de novembro. A abertura oficial foi marcada para 6 de dezembro, duas semanas após Londrina e quase duas semanas após Curitiba. O período do evento também foi reduzido: de 6 de dezembro a 11 de janeiro, enquanto em 2024 começou em 15 de novembro.
A Conta Que Não Para de Crescer
Agora, vamos falar de números, porque dinheiro público exige transparência total. Em apenas oito meses de 2025, a Prefeitura de Maringá dobrou os gastos com diárias de viagens em comparação com todo o ano de 2024. Foram R$ 1,4 milhão até agosto de 2025, contra R$ 700 mil em 2024 inteiro.
As viagens mais caras? Internacionais, obviamente. O prefeito Silvio Barros recebeu R$ 30,6 mil em diárias pela viagem ao Japão em junho (nove diárias de R$ 3.409,90 cada) e R$ 27,2 mil pela viagem à Europa em fevereiro (dez diárias de aproximadamente R$ 2.727 cada). Somadas, essas duas viagens representam quase R$ 58 mil só em diárias do prefeito, fora as passagens aéreas e despesas de acompanhantes.
Viagens Estratégicas Versus Prioridades Urgentes
Não vou cair na armadilha de demonizar todas as viagens institucionais. Algumas são, sim, estratégicas e até desejáveis para o crescimento econômico e social da cidade. A busca por parcerias internacionais, atração de investimentos, intercâmbio de boas práticas – tudo isso tem valor quando bem planejado e executado.
O problema é quando a quantidade e o momento dessas viagens se sobrepõem às urgências do dia a dia municipal. Enquanto o prefeito está no Quênia debatendo políticas climáticas globais (tema importante, sem dúvida), quem resolve a falta de médicos no posto de saúde da Zona Norte? Quem acelera a entrega de uniformes escolares atrasados? Quem fiscaliza a qualidade do asfalto que está sendo colocado nas periferias?
O Que o Cidadão Maringaense Realmente Quer
A mensagem é unânime: ninguém é contra representação internacional da cidade. Mas todos querem ver prioridades corretas e gestão eficiente do que é urgente.
O comerciante quer a decoração de Natal no prazo, porque isso movimenta vendas e empregos. A mãe quer o filho com uniforme completo e material escolar no primeiro dia de aula. O morador dos bairros quer asfalto de qualidade na rua que vira lama a cada chuva. O paciente quer atendimento rápido e digno no posto de saúde.
Essas demandas não são complexas. São básicas, essenciais e urgentes. E enquanto não forem resolvidas de forma eficiente, qualquer viagem internacional – por mais bem-intencionada que seja – vai soar como desconexão com a realidade local.
O Futuro Que Podemos Construir Juntos
Imaginem uma Maringá onde cada centavo público seja aplicado com máxima eficiência. Onde viagens internacionais sejam raras, estratégicas e sempre seguidas de prestação de contas detalhada. Onde a decoração de Natal saia no tempo certo, o asfalto seja de qualidade, os postos de saúde funcionem bem e as escolas tenham tudo que precisam.
Essa Maringá é possível. Mas exige mudança de mentalidade, tanto dos gestores quanto da população. Exige planejamento rigoroso, transparência total e foco absoluto nas prioridades corretas. Exige coragem para dizer não a viagens que não são essenciais naquele momento específico. Exige humildade para reconhecer que o glamour internacional não substitui a eficiência local.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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