Última atualização em 16/01/2026 por Alan Zampieri
O que está acontecendo de verdade com o Parque do Ingá?
O prefeito Silvio Barros anunciou em fevereiro de 2025 sua intenção de conceder a gestão do Parque do Ingá à iniciativa privada. Em agosto, ele confirmou que três empresas já demonstraram interesse na concessão, com edital previsto para sair em 2025.
Agora, em janeiro de 2026, a Prefeitura lançou uma consulta pública oficialmente sobre o edital de concessão do Parque do Ingá. A consulta pública ficará aberta por 20 dias úteis, até 1º de fevereiro de 2026, período em que a população poderá acessar a documentação completa e enviar contribuições por meio de formulário on-line.
A diferença entre concessão e privatização é fundamental aqui, gente.
Na privatização, você vende o patrimônio — ele deixa de ser público. Na concessão, o poder público mantém a propriedade, mas transfere temporariamente a gestão para uma empresa privada, com regras claras, metas de qualidade e fiscalização constante.
O argumento do prefeito faz sentido do ponto de vista da gestão: “Quem vai colocar papel higiênico no banheiro? Quem vai cuidar da segurança? Quem vai fazer propaganda do parque?” Como ele mesmo disse, com várias concessionárias pequenas, ninguém assume responsabilidade integral.
Mas aqui está o ponto crucial: a entrada continuaria gratuita. Isso é importante porque preserva o caráter público e democrático do espaço. A receita viria da exploração dos serviços pagos dentro do parque, e a prefeitura receberia uma outorga de 1% a 6% do faturamento da concessionária.
A triste realidade atual: um patrimônio em abandono
Não dá para ignorar a situação atual do Parque do Ingá. Quem visitou recentemente sabe: é realmente de dar dó. O Centro de Apoio ao Turista está em reforma há meses, equipamentos que funcionavam em gestões anteriores simplesmente sumiram, a infraestrutura está deteriorada. Como disse uma visitante nas redes sociais: “Um passeio cheio de memórias e tristezas. Está entregue ao desleixo.”
E isso dói, porque sabemos do potencial daquele espaço. O Parque do Ingá tem 47,3 hectares de mata preservada, um lago artificial lindo, história rica — foi inaugurado em 10 de outubro de 1971 como o “Clube do Povo” — e recebe entre 300 a 600 pessoas durante a semana, chegando a 8 mil aos domingos.

Comparativo de População: Cidades Paranaenses (2025)
O que outras cidades estão fazendo?
São Paulo: Modelo em Escala
Entre as melhorias previstas estão a requalificação das estruturas existentes, a ampliação de áreas de lazer, a criação de equipamentos esportivos e a implantação de novos serviços voltados ao bem-estar da população. Um dos destaques é a reativação do conjunto aquático no Parque Ecológico do Tietê, que contará com piscinas para recreação, prática esportiva e uso infantil.
Rio de Janeiro: Programa Estruturado
Blumenau: Cidade Similar em Porte
Até Blumenau, cidade de porte similar ao nosso, está estudando concessões. O Parque Prefeito Carlos Curt Zadrozny custa entre R$ 250 mil e R$ 270 mil anuais para manter.
O que a cidade de Maringá pode aprender?
Maringá tem cerca de 429.660 habitantes em 2025, de acordo com dados do IBGE, similar a Londrina (581.382), Cascavel (368.195) e São José dos Pinhais (345.880).
Um estudo comparativo mostrou que Maringá tem bons indicadores ambientais mesmo gastando menos em política ambiental per capita que essas cidades. Isso sugere que nosso planejamento urbano é eficiente. Mas também revela que talvez tenhamos sub investido na manutenção de nossos ativos ambientais. O Parque do Ingá é prova disso.
Blumenau, com população similar, gasta até R$ 270 mil anuais para manter um só parque. Isso nos dá uma dimensão dos custos envolvidos e por que a prefeitura busca alternativas.

Investimento Estimado em Concessões de Parques: São Paulo e Rio de Janeiro
Propostas inéditas para Maringá
Como alguém que pensa políticas públicas inovadoras, deixo algumas sugestões que poderiam ser discutidas:
Primeira: Criação de um Conselho Gestor do Parque do Ingá com representantes da sociedade civil, independentemente do modelo de gestão escolhido. Este conselho teria poder de veto sobre mudanças que descaracterizem o espaço.
Segunda: Contrapartidas sociais obrigatórias. Se for concessão, que a empresa seja obrigada a oferecer um percentual de atividades gratuitas para crianças de escolas públicas, idosos e pessoas com deficiência.
Terceira: Cláusula de reversão. Se a gestão privada não atender aos indicadores de qualidade em dois anos consecutivos, o poder público retoma automaticamente a administração.
Quarta: Transparência total. Relatórios trimestrais públicos com números de visitantes, investimentos realizados, receitas geradas e indicadores de satisfação.
O que está em jogo?
No final das contas, pessoal, não estamos discutindo apenas modelos de gestão. Estamos discutindo o tipo de cidade que queremos deixar para as próximas gerações. Uma cidade onde os espaços públicos são bem cuidados, acessíveis e verdadeiramente democráticos.
O Parque do Ingá é muito mais que uma área verde – é parte da identidade maringaense. É onde avós levam netos para ver os patos, onde jovens casais passeiam de pedalinho, onde famílias fazem piquenique aos domingos. É patrimônio afetivo de três gerações.
Por isso, qualquer decisão sobre seu futuro precisa ser tomada com a participação efetiva da população. Não podemos aceitar que uma questão tão importante seja resolvida apenas nos gabinetes ou baseada em opiniões polarizadas nas redes sociais.
O que o Parque do Ingá Merece?
Como maringaenses, temos a responsabilidade de construir um debate qualificado sobre essa questão. Isso significa buscar informação, participar de discussões, cobrar transparência do poder público e contribuir com propostas construtivas.
Não importa se você é a favor ou contra a concessão. O que importa é que essa decisão seja tomada de forma democrática, transparente e com base em dados concretos sobre custos, benefícios e alternativas.
O Parque do Ingá merece muito mais que abandono ou decisões apressadas. Merece um projeto sério, sustentável e participativo de revitalização. E isso só acontece quando toda a cidade se envolve no processo.
Que tal começarmos essa conversa de verdade?
Cobremos da Câmara Municipal a realização de audiências públicas qualificadas. Exijamos estudos técnicos detalhados. Participemos ativamente das discussões. E, principalmente, lembremo-nos de que democracia não é só votar de quatro em quatro anos – é participar das decisões que afetam nosso cotidiano.
O futuro do Parque do Ingá está em nossas mãos. Vamos construí-lo juntos, com responsabilidade, transparência e muito diálogo. Afinal, essa é a Maringá que todos merecemos: uma cidade que cuida de seu patrimônio ouvindo quem realmente importa – sua gente.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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