Última atualização em 16/01/2026 por Alan Zampieri
Sinais de Alerta: A Tempestade Chegou ao Noroeste do Paraná
Quando Donald Trump assinou a ordem executiva elevando as tarifas de 10% para 50% sobre produtos brasileiros, poucos imaginaram que uma das regiões mais prósperas do país sentiria o impacto de forma tão direta. Maringá, com o hectare mais caro do Paraná custando R$ 185,4 mil, construiu sua economia sobre pilares que agora enfrentam ventos contrários vindos do Norte.
A matemática é cruel: o Paraná exportou US$ 1,58 bilhão para os Estados Unidos em 2024, sendo o segundo maior destino das nossas vendas externas. Na região Noroeste, onde Maringá se destaca como polo econômico, o agronegócio e a indústria florestal são os motores que movimentam milhares de empregos e bilhões em receitas.

Principais produtos de exportação do Paraná em 2024 e impacto do tarifaço americano
Café Amargo: O Impacto no Coração do Agronegócio Maringaense
Vamos direto ao que mais dói: o café. Nossa região, berço de cooperativas gigantes como a Cocamar, é peça fundamental na cadeia cafeeira que alimenta os Estados Unidos – país que consome 30% do café brasileiro. Com a nova tarifa, cada saca exportada ficará até 50% mais cara para o consumidor americano.
“É como se estivéssemos vendendo um produto premium que de uma hora para outra ficou com preço de artigo de luxo”, explica um especialista em comércio exterior. Para os produtores da região de Paranavaí, tradicionais fornecedores do mercado americano, isso significa rever toda a estratégia comercial construída ao longo de décadas.
Os dados são preocupantes: o café representou US$ 1,9 bilhão das exportações brasileiras para os EUA em 2024, correspondendo a 4,7% do total exportado. Para nossa região, onde o grão dourado movimenta a economia de dezenas de municípios, o impacto será sentido desde as propriedades rurais até as torrefações locais.
Madeira e Lágrimas: O Setor Florestal em Xeque
Aqui a situação é ainda mais dramática. O Paraná responde por 60% de toda a madeira brasileira exportada para os Estados Unidos, movimentando US$ 681 milhões anuais. Empresas da região já decretaram férias coletivas para mais de 2.000 trabalhadores, numa antecipação dos efeitos que estão por vir.
A BrasPine, com unidades em Jaguariaíva e Telêmaco Borba, colocou 1.500 funcionários em férias coletivas. A Millpar, de Guarapuava, fez o mesmo com 640 colaboradores. É gente da nossa região, são famílias que conhecemos, que frequentam o mesmo supermercado que a gente.
No caso específico das molduras produzidas no Paraná, 98% das exportações – equivalente a US$ 102 milhões entre janeiro e junho de 2025 – têm como destino os EUA. Com portas de madeira, o cenário é similar: 96% da receita (US$ 34 milhões) vem do país norte-americano.
O Ecossistema de Inovação Também Sente o Baque
Maringá se orgulha de ser chamada de “Vale do Silício paranaense”, com dezenas de startups voltadas ao agronegócio. Empresas como a Farm GO, que monitora mais de 2,5 mil áreas agrícolas e gera automaticamente 18 mil mapas, podem ver seus planos de expansão para o mercado americano simplesmente evaporarem.
A Inova Agro, governança que articula o ecossistema de inovação local junto com Londrina, terá que repensar estratégias que incluíam parcerias com o mercado norte-americano. É o futuro da nossa região que está sendo redesenhado à força.
Diplomacia, não confronto
Diante desse cenário, é fundamental que adotemos uma postura técnica e pragmática. As medidas de Trump, embora questionáveis do ponto de vista comercial, são uma realidade política que precisa ser enfrentada com inteligência, não com bravatas.
O governo brasileiro já protocolou um pedido de consultas na OMC questionando as tarifas americanas, o que é o caminho correto do ponto de vista multilateral. Simultaneamente, especialistas como Rubens Barbosa, ex-embaixador em Washington, defendem uma postura independente, focada nos interesses brasileiros sem alinhamento automático com qualquer potência.
A lista de exceções divulgada pelos EUA, que contempla 694 produtos e representa 44,6% das exportações brasileiras, mostra que há espaço para negociação. Produtos como suco de laranja, celulose, petróleo e aviões ficaram de fora da sobretaxa, indicando que critérios técnicos e econômicos ainda podem prevalecer sobre decisões puramente políticas.
Alternativas Viáveis
A crise também abre oportunidades. O Governo do Paraná e entidades como o Sistema FAEP já trabalham no mapeamento de novos mercados, priorizando Oriente Médio e Ásia. Câmaras de comércio de países árabes já se manifestaram como alternativas para nossos produtos.

Destinos das exportações paranaenses em 2024 – Diversificação de mercados
Para Maringá especificamente, isso significa acelerar parcerias que já estavam em andamento. O café brasileiro tem características únicas que outros países não conseguem replicar. Nossa madeira atende padrões técnicos específicos da construção civil. São vantagens competitivas que podem ser redirecionadas para mercados que valorizam qualidade.
Os números mostram que essa diversificação já está em curso: a China absorve 24,8% das exportações paranaenses (US$ 5,8 bilhões), quatro vezes mais que os EUA. Argentina (5,2%), México (4,3%) e outros mercados emergentes oferecem alternativas concretas.
Propostas Concretas para Maringá
Apresento algumas propostas inéditas que podem ser debatidas na Câmara Municipal:
- Hub de Inteligência Comercial: Criação de um centro municipal de monitoramento de mercados internacionais, conectado às universidades locais, para identificar oportunidades em tempo real.
- Fundo Municipal de Apoio à Exportação: Linha de crédito específica para empresas maringaenses afetadas pelo tarifaço, com juros subsidiados e prazos estendidos.
- Programa Maringá Global: Missões comerciais organizadas pelo município para prospecção de novos mercados, priorizando países do Oriente Médio e Sudeste Asiático.
- Observatório do Agronegócio: Criação de um órgão municipal para acompanhar tendências de mercado e apoiar produtores locais na diversificação de destinos.
O que nós, Maringaenses, Podemos Fazer
Esta situação exige mobilização, mas não desespero. Precisamos pressionar nossos representantes em Brasília para que mantenham o diálogo diplomático, evitando retaliações que só piorariam a situação. É fundamental que Governo Federal, Estadual e Municipal trabalhem de forma coordenada.
A Câmara de Maringá deve acompanhar de perto os desdobramentos e estar pronta para aprovar medidas de apoio ao setor produtivo local. Nossos deputados federais e senadores precisam atuar ativamente nas negociações, defendendo os interesses dos paranaenses.
O setor privado também tem seu papel. Cooperativas, sindicatos rurais e associações empresariais precisam se articular para criar planos B, mapeando mercados alternativos e desenvolvendo produtos que atendam às demandas de outros países.
A Tempestade que Pode Virar Oportunidade
O tarifaço americano é, sim, uma ameaça real à nossa economia regional. Mas também pode ser o empurrão que precisávamos para acelerar a diversificação de mercados e fortalecer nossa autonomia comercial. Maringá sempre soube se reinventar – da cidade planejada que éramos nos anos 1950 ao polo tecnológico que somos hoje.
Com técnica, diplomacia e determinação, podemos transformar este desafio em uma nova fase de crescimento para nossa região. O agronegócio maringaense é resiliente, nosso ecossistema de inovação é criativo, e nossa gente é trabalhadora. Juntos, vamos superar mais esta.
Os dados mostram que temos motivos para otimismo: das US$ 23,3 bilhões em exportações paranaenses, apenas 6,8% dependem dos EUA. Temos 176 países comprando nossos produtos alimentícios, e nossa balança comercial positiva de US$ 3,7 bilhões demonstra a solidez da economia estadual.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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