Última atualização em 16/01/2026 por Alan Zampieri
Cinco Obras, Cinco Histórias de Atraso
A situação das obras públicas em Maringá não é apenas uma questão de calendários alterados. É um quadro que revela fragilidades estruturais na gestão pública municipal. De acordo com dados do Portal da Transparência, cinco projetos estratégicos para a cidade enfrentam atrasos significativos, absorvendo recursos que poderiam estar chegando a outras demandas urgentes.

Obras em Atraso em Maringá: Orçamento Original vs. Aditivos Contratuais
A Ciclofaixa da Avenida Tuiuti: Mobilidade Urbana em Questão
O projeto de ciclomobilidade na Avenida Tuiuti, orçado em R$ 6,9 milhões, exemplifica bem o problema. Iniciada em dezembro de 2024, a obra deveria estar concluída em novembro de 2025. Em vez disso, a Prefeitura aprovou um aditivo de R$ 100 mil e prorrogou a entrega em 90 dias, para fevereiro de 2026. A obra estava com apenas 62% de execução quando o prazo original se encerrou.
Segundo a Prefeitura, o aditivo se deveu a “interferências não previstas” — especialmente redes de água e esgoto que precisaram ser contornadas. É uma justificativa que merece análise técnica cuidadosa: por que um projeto dessa magnitude não contemplou adequadamente a infraestrutura existente? Moradores e comerciantes da região continuam enfrentando poeira, barro e vias irregulares, impactos que poderiam ter sido mitigados com planejamento mais rigoroso.
A ciclovia é importante, sem dúvida. Maringá merece uma rede de mobilidade sustentável que interconecte a cidade. Porém, esse atraso revela uma verdade incômoda: o custo de uma obra mal planejada não se limita aos aditivos — ele se estende para a população durante meses de transtorno.
O Eixo Monumental: Críticas Legítimas Sobre Projeto e Gestão
O Eixo Monumental é talvez o exemplo mais preocupante. Iniciado em novembro de 2023, com orçamento de R$ 48,3 milhões, a obra já acumula R$ 2,9 milhões em aditivos — mais de 6% do valor original — e ainda assim não foi concluída.
Em agosto de 2025, quando a obra atingia 70% de execução, a Prefeitura aprovou um aditivo de R$ 400 mil para mudança no assentamento dos pisos da Praça da Catedral. O que estava previsto em areia passou a ser executado em argamassa. Além disso, foram adicionados R$ 300 mil para um sistema de irrigação que não estava no projeto original.
Essas mudanças sugerem um cenário perturbador: projetos incompletos saem para licitação. Quando a obra começa, descobrem-se deficiências. Aí vêm os aditivos. Isso não é normal em gestão adequada — é sintoma de falta de rigor nos estudos preliminares.
A recente prorrogação de 180 dias — de outubro 2025 para abril 2026 — coloca a conclusão em pleno período crítico de campanha eleitoral. A população maringaense tem razão em questionar se há interesse em entregar a obra antes das eleições ou se ela servirá como promessa para o próximo governo.
CMEIs em Reforma: Educação Padece com Cronogramas Elásticos
A reforma do CMEI Afonso Vidal Cézar representa outra realidade do setor público maringaense. Com investimento de R$ 15 milhões e prazo de 720 dias (dois anos), a obra foi licitada em novembro de 2025. Não é um aditivo de algo que começou atrasado — é a admissão de que levará muito tempo mesmo.
Enquanto isso, a Prefeitura segue com outros CMEIs. O CMEI Ana Chiquetti Men foi inaugurado em novembro de 2025 com R$ 11 milhões. O CMEI Márcia do Rocio Bittencourt Socreppa, em outubro de 2025, com R$ 14 milhões. São investimentos importantes, mas a concentração de recursos em novas unidades enquanto outras aguardam reforma há anos sugere falta de priorização estratégica.
O próprio prefeito reconheceu, em janeiro de 2026, que o tempo médio para reformar uma escola é de dois a três anos — número alarmante para uma gestão municipal. Sua proposta de construção industrializada em menos de um ano é bem-vinda, mas chegou com atraso para remediar os anos de atraso.
A Rodoviária: Abandono Após Investimento Desperdiçado
A história da Rodoviária é a mais frustrante de todas. Iniciada em fevereiro de 2021 com promessa de 12 meses de obra, a reforma chegou a apenas 30% de conclusão. A Prefeitura desembolsou R$ 3,2 milhões e, em abril de 2025, simplesmente a abandonou. O contrato foi rescindido.
Duas empresas foram responsabilizadas: a primeira desistiu em 2022, a segunda não conseguiu entregar até fevereiro de 2025. O projeto tinha problemas estruturais — faltava até alimentação de energia para o elevador de acessibilidade. Como um projeto dessa envergadura saiu para licitação com essas lacunas?
UPA Zona Norte: Aditivo Antes de Começar de Verdade
A situação da UPA Zona Norte em janeiro de 2026 é quase caricata. A obra começou em outubro de 2025 e, em novembro, a Prefeitura já aprovava um aditivo de R$ 500 mil. O problema? A execução estava em apenas 0,09% — praticamente zero.
A Prefeitura alega que é um reajuste anual previsto em contrato, conforme o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC-M) da Fundação Getúlio Vargas. Tecnicamente, pode estar correto. Mas eticamente, é questionável cobrar mais quando a obra nem começou de verdade.
O Padrão: 25 Milhões em Aditivos em Oito Anos
Olhando para o histórico consolidado de Maringá, entre janeiro de 2017 e dezembro de 2023, a Prefeitura pagou mais de R$ 25 milhões em aditivos contratuais distribuídos em 81 contratos de obras. O investimento total dessas obras foi de R$ 216 milhões — significa que, em média, aproximadamente 11,5% do valor original precisou ser adicionado.
A Lei 8.666 de 1993 permite aditivos de até 25% do valor inicial atualizado do contrato. Maringá está em zona segura legalmente, mas estar dentro da lei não significa estar fazendo bem. Significa apenas que não cometeu ilegalidade — ainda assim, cometeu ineficiência.
Esses números sinalizam um problema estrutural: deficiência de planejamento. Quando você consistentemente precisa adicionar recursos, é porque o projeto saiu para licitação incompleto, ou o orçamento foi subestimado, ou houve omissões técnicas graves. Independente da causa, o resultado é o mesmo: o contribuinte paga mais por menos qualidade de execução.
A Defesa da Transparência: Um Direito Inegociável
Aqui em Maringá, temos um Portal da Transparência. Dados sobre obras estão lá, acessíveis. Mas acessibilidade não é o mesmo que clareza. Quantos cidadãos maringaenses conseguem consultar o Portal e entender por que uma obra que custaria R$ 10 milhões terminou custando R$ 13 milhões?
A transparência precisa ser inteligível — não apenas numericamente transparente, mas compreensível para a população. Quando a Prefeitura publica um termo de aditivo, deveria vir acompanhado de:
Justificativa técnica clara: Por que o aditivo foi necessário? Interferências de terceiros? Falha de projeto? Aumento de material? Cronograma impreciso?
Análise de responsabilidade: Quem responde pela falha? A administração anterior? O projetista? A empresa executora? O órgão ambiental causou demora?
Impacto visual: Um gráfico mostrando orçamento original, aditivos e nova previsão de custo final.
Cronograma revisado: Quando, de fato, a obra será entregue? E, se falhar novamente, que mecanismo de penalidade existe?
Isso não é burocracia — é democracia. É o povo sabendo para onde seu dinheiro está indo e por quê.
A Hora de Cobrar Fiscalização
A Constituição Federal, em seu artigo 31, é clara: “A fiscalização do município será exercida pelo Poder Legislativo municipal, mediante controle externo.” Isso significa que a Câmara de Vereadores de Maringá tem responsabilidade constitucional de fiscalizar e controlar as obras públicas.
Isso pode ser feito através de instrumentos concretos:
Pedidos de informação por escrito — vereadores podem solicitar explicações detalhadas sobre cada aditivo, prazos e responsáveis.
Convocação de secretários — especialmente o de Obras Públicas, para prestar contas sobre prazos, custos e resultados.
Comissões de Inquérito (CPI) — para investigar irregularidades e abusos contratuais quando houver suspeita de ilegalidade.
Inspeções presenciais — visitando obras para verificar o andamento real versus o reportado, uma vez por mês no mínimo.
Proposição de projetos de lei — criando regulamentos mais rígidos sobre limite de aditivos em futuras contratações municipais.
Em ano de eleições municipais, candidatos têm oportunidade de diferenciar-se por comprometimento com essa fiscalização. Não é populismo — é responsabilidade constitucional básica.
O Centro de Eventos Oscar Niemeyer: Promessas Para 2027
A Prefeitura anuncia que o Centro de Eventos Oscar Niemeyer será entregue em 2027. É uma obra que já consumiu mais de 30% de um orçamento de R$ 75 milhões. Seus fundamentos e estacionamento subterrâneo foram concluídos. A arquitetura impressiona — um livro aberto em concreto.
Se a obra terminar em 2027, ótimo. Maringá ganhará um equipamento cultural importante, assinado por Oscar Niemeyer, com potencial de ser ponto turístico. Mas se atrasar — e dados sugerem que pode — quando será realmente entregue? Em 2028?
Esse é o fio da meada que devemos usar: obras prometidas em ano eleitoral somente são críveis se entregues antes das eleições, não depois. Caso contrário, alimentam desconfiança.
2026 é Ano de Eleições — Use Seu Voto Para Cobrar
Em 2026, Maringá elegerá sua seus deputados, senadores, governador e presidente da república. Esse é o momento certo para questionar quem você vai eleger.
Pergunte: “Qual é sua proposta concreta para reduzir aditivos em obras públicas?” Se a resposta for genérica (“vou cobrar eficiência”), desconfie.
Pergunte: “Você visitou as obras públicas da cidade? Quantas vezes?” Se não conseguir responder com precisão, é porque não está comprometido com o trabalho que deveria fazer.
Merece uma Câmara que exerça seu poder de controle externo com rigor, pragmatismo e compromisso com resultado.
Merece uma Prefeitura que execute com excelência e planejamento adequado.
Tudo isso é possível. Cidades maiores, com estruturas mais complexas, fazem funcionar. Recife, Fortaleza, Curitiba — são exemplos de gestão pública eficiente. Não é questão de tamanho ou complexidade. É questão de vontade, cultura organizacional e liderança comprometida com resultado.
2027 virá. O Centro de Eventos Oscar Niemeyer será entregue — ou não. As eleições passarão em outubro de 2026. Novos candidatos virão com novas promessas. Mas enquanto isso, a população quer saber: onde está meu dinheiro? Por que uma obra que deveria custar R$ 10 milhões custou R$ 13 milhões? Quando ela chega realmente?
Essas não são perguntas complicadas. São perguntas simples e diretas. E simples demanda respostas simples e honestas.
Maringá merece isso.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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