Última atualização em 17/01/2026 por Alan Zampieri
De Diamante para Ouro: O que Aconteceu com Maringá em 2025

Declínio de Maringá no Ranking de Transparência (2022 – 2025)
A Prefeitura de Maringá cai no ranking de transparência do Tribunal de Contas. Há pouco mais de uma semana, Maringá recebeu uma notícia que, embora tecnicamente explícita, carrega um peso político e institucional significativo. A cidade que em 2024 ocupava a 30ª posição no Índice de Transparência da Administração Pública (ITP), com o prestigiado Selo Diamante – o reconhecimento máximo concedido pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) em parceria com a Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon) – caiu para a 50ª posição, com o Selo Ouro. Isso significa uma queda de 20 posições em apenas um ano, e, mais importante, a perda do status de excelência em transparência pública.
Para colocar em perspectiva o que isso representa: entre as 399 cidades do Paraná, Maringá saiu do topo da pirâmide e desceu significativamente. A nota matemática da queda é de 98.41 pontos em 2024 para 94.45 pontos em 2025 – uma redução de aproximadamente 3.96 pontos percentuais. Parece pouco numericamente, mas em termos de classificação institucional, representa uma mudança de paradigma no que tange à percepção pública da capacidade de Maringá em disponibilizar, de forma clara e acessível, as informações sobre os recursos públicos e as ações governamentais.
O que mais intriga nessa história, porém, não é exatamente o número em si, mas sim o que está por trás dele. E este é o ponto de partida para uma análise mais profunda.
A Migração do Portal da Transparência: Modernidade Que Tropeça na Usabilidade
A Prefeitura de Maringá apresentou sua nota oficial sobre a queda, e o argumento é técnico, claro e, devo admitir, compreensível: a culpa não está na inexistência de dados, mas na forma como eles estão sendo apresentados no novo Portal da Transparência. Especificamente, a Prefeitura argumenta que a queda está relacionada à migração do sistema antigo para um novo portal chamado OXY, fornecido pela empresa Elotech, com migração efetivada em agosto de 2025.
Este é um cenário que revela uma tensão clássica na modernização de sistemas públicos: a diferença entre ter a informação e conseguir disponibilizá-la da forma como os cidadãos conseguem acessá-la. A Prefeitura está certa em afirmar que todos os dados apontados na avaliação de 2025 já constavam como “plenamente atendidos” em 2024. O problema é que quando você troca de plataforma tecnológica no meio do jogo, especialmente durante o período em que as auditorias estão sendo realizadas, a “visualização das informações” – para usar o termo da própria Prefeitura – fica comprometida.
Mas aqui reside uma questão que deve ser colocada em rosto limpo: se o dado existe, o problema não é apenas técnico. É também uma questão de planejamento de timing, de governança de projetos e de priorização de recursos públicos. Uma migração de sistema tão crítico – o Portal da Transparência não é um sistema secundário, é a vitrine pública da gestão municipal – deveria ter sido planejada para evitar coincidências com períodos de avaliação externa.
Não se trata de crítica destrutiva, mas construtiva. É análise baseada em princípios de administração moderna: planejamento, comunicação antecipada e mitigação de riscos. Estes são os pilares que diferenciam uma gestão competente de uma gestão amadora.
Não Está Sozinha, Mas Isso Não é Consolação
Um detalhe importante que merece análise é o fato de que Maringá não é a única cidade do Paraná que experimentou essa queda em 2025. Também caíram de Diamante para Ouro: Londrina, Umuarama e Sarandi. Ou seja, houve uma mudança estrutural na metodologia de avaliação da Atricon, ou um fenômeno particular afetou várias cidades simultaneamente.
A Prefeitura de Maringá, na sua nota, toca nesse ponto: “A variação de classificação deste ciclo, que atingiu municípios anteriormente avaliados com Selo Diamante e que passaram ao Selo Ouro, como Maringá, Londrina, Umuarama e Sarandi, reflete a natureza técnica e interpretativa do processo avaliativo”.
Isso levanta uma questão legítima sobre a própria metodologia da Atricon. Se critérios que foram considerados “plenamente atendidos” em 2024 recebem “entendimento distinto em 2025”, há espaço para questionamento sobre a estabilidade e a previsibilidade dessa avaliação. Uma cidade não deveria despencar 20 posições simplesmente porque os critérios foram reinterpretados. Isso sugere, necessariamente, a necessidade de maior transparência da própria metodologia de avaliação – uma metalinguagem apropriada.
Uma Lição de Eficiência que a Prefeitura Deve Estudar
Aqui chegamos a um ponto que merece ser destacado em letras garrafais: enquanto a Prefeitura de Maringá caía para 50ª posição, a Câmara Municipal de Maringá mantinha o Selo Diamante.
Não é uma coincidência. É uma lição de gestão.
Enquanto isso, a Prefeitura enfrenta uma migração de sistema que comprometeu, pelo menos temporariamente, sua posição. A diferença entre as duas instituições revela algo fundamental: transparência não é apenas tecnologia. É cultura, planejamento e priorização.
Se a Câmara conseguiu manter o Diamante mesmo com as pressões de avaliação, por que a Prefeitura não conseguiu gerenciar sua migração tecnológica da mesma forma? Essa é uma pergunta que os gestores municipais devem fazer a si mesmos, sem defensiva, mas com honestidade administrativa.
O Que as Melhores Práticas Nacionais Nos Dizem
Não é necessário reinventar a roda. Cidades brasileiras já consolidaram melhores práticas em transparência pública que Maringá pode estudar e adaptar. A pesquisa “Índice de Transparência e Governança Pública – Municipal 2025” avaliou 329 prefeituras em 11 estados e revelou padrões claros:
Cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Recife conseguiram atender à maioria dos critérios considerados adequados para uma boa política de dados abertos. O que elas têm em comum? Elas não apenas publicam informações. Elas educam o cidadão sobre como acessá-las, investem em linguagem acessível, garantem atualização constante dos dados e implementam múltiplos canais de acesso.
Rio de Janeiro, especificamente, registrou mais de 700 mil acessos ao Portal da Transparência durante 2024, alcançando mais de 613 mil acessos apenas até setembro de 2025. Isso não é número de vaidade. É evidência de que quando você oferece um portal bem-feito, o cidadão usa. Quando você oferece um portal confuso ou desorganizado, o acesso cai.
Qual É a Prioridade Real da Gestão Municipal?
Deixe-me ser direto: a queda de Maringá no ranking de transparência não se trata de um acaso tecnológico. É uma revelação sobre prioridades.
Se a migração do Portal foi adiada tanto quanto necessário para evitar conflito com a avaliação? Provavelmente, teria havido mais consciência do risco. Se houve recursos suficientes e planejamento adequado para fazer a migração e manter a qualidade de acesso simultaneamente? Provavelmente, teria havido resultado diferente. Se há uma cultura de transparência enraizada na administração municipal? Provavelmente, essa questão teria sido mais bem gerenciada.
A Câmara de Maringá, como já foi dito, conseguiu manter o Diamante. A transparência é um compromisso diário. Não é algo que você faz quando é conveniente. É algo que você protege, mesmo durante períodos de mudança operacional.
A pergunta que a Prefeitura deveria fazer a si mesma é: “Qual é a verdadeira posição de transparência na nossa gestão? É um valor central, ou é um indicador secundário que cai quando há outras pressões?” A resposta a essa pergunta é mais importante que voltar à 30ª posição.
Do Diagnosticado para o Propositivo
Maringá tem a chance de transformar essa queda em um ponto de virada institucional. Não apenas para recuperar a posição anterior, mas para consolidar a transparência como pilar não-negociável da gestão pública municipal.
Os dados estão lá. A Câmara provou que é possível manter excelência. Há modelos nacionais consolidados em Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e outras cidades. O Tribunal de Contas oferece metodologias claras. A Lei é conhecida.
O que falta? Vontade política de priorizar usabilidade, de estruturar processos contínuos de auditoria, de envolver o cidadão na construção de uma transparência que funcione. Isso não custa bilhões. Custa liderança e clareza de visão.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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