Última atualização em 12/01/2026 por Alan Zampieri
Um Projeto que Atravessou Duas Décadas
Vinte anos. Esse é o tempo que separa a primeira tentativa de implementar semáforos intermitentes em Maringá, lá em 2005, da aprovação definitiva que aconteceu agora em 2025. Como alguém que acompanha de perto os debates políticos da nossa cidade, posso dizer que poucas questões ilustram tão bem a diferença entre ter uma boa ideia e conseguir implementá-la quanto essa história dos semáforos piscantes na madrugada.
O Projeto de Lei 17.293/2025, de autoria dos vereadores Mário Hossokawa (PP) e Ângelo Salgueiro (Podemos), finalmente foi aprovado por unanimidade na Câmara Municipal em junho. A medida determina que todos os semáforos da cidade funcionem com luz amarela intermitente entre 1h e 5h da manhã, incluindo as movimentadas Avenida Colombo e Contorno Sul.
Mas por que essa proposta demorou tanto para sair do papel? E mais importante: por que ela é relevante agora para os maringaenses?
O Dilema Noturno
Quem nunca passou pela situação? São 2h da manhã, você está voltando do trabalho ou de um compromisso, para no sinal vermelho de uma avenida completamente deserta e fica ali, vulnerável, esperando aqueles intermináveis segundos passarem. Nesse momento, dois medos se confrontam: o medo de desrespeitar a lei de trânsito e o medo da violência urbana.

Semáforo intermitente em funcionamento noturno em Maringá
O vereador Mário Hossokawa, que já havia apresentado proposta similar em 2005, relembra que “apresentei esse projeto diante das dificultades que as pessoas enfrentavam de madrugada, ao parar em semáforos correndo risco de assalto”. Na época, a falta de vontade política da Secretaria de Mobilidade Urbana impediu a implementação.
Agora, duas décadas depois, o cenário mudou. Os números de criminalidade urbana cresceram, os debates sobre políticas públicas baseadas em evidências amadureceram, e principalmente, há uma nova geração de gestores públicos mais receptiva a soluções inteligentes para problemas antigos.
Os Números Que Não Mentem
Falando em evidências, vamos aos dados concretos que justificam essa mudança. Maringá registrou mais de 1.100 acidentes de trânsito apenas em 2024, sendo que 100 deles aconteceram na Avenida Colombo. Isso representa quase 10% de todos os sinistros da cidade concentrados em uma única via.

Principais avenidas de Maringá por número de acidentes de trânsito em 2024
O gráfico revela um padrão preocupante: nossas principais avenidas, especialmente aquelas com maior fluxo noturno, concentram a maioria dos acidentes. A Avenida Colombo, que é parte da BR-376 e funciona 24 horas por dia, lidera disparado as estatísticas.
Esses números ganham ainda mais relevância quando consideramos que muitos acidentes noturnos acontecem justamente em cruzamentos semaforizados, onde motoristas, por medo ou impaciência, acabam avançando sinais vermelhos, colidindo com veículos que transitam confiantes no sinal verde.
Como Funciona na Prática: A Linguagem do Trânsito
Para quem não está familiarizado com o conceito, o semáforo intermitente funciona de forma bem simples: em vez do ciclo tradicional verde-amarelo-vermelho, apenas a luz amarela fica piscando. Segundo o Código de Trânsito Brasileiro, isso significa “atenção, reduza a velocidade e dê preferência a quem vem da direita”.
É importante destacar que não se trata de uma liberação total. O amarelo intermitente não é um “pode passar” irrestrito. É um “avance com cuidado”, seguindo as regras de preferência que já existem para cruzamentos não sinalizados.
A SEMOB terá 120 dias para regulamentar a implementação através de decreto, definindo critérios técnicos específicos para cada cruzamento. Alguns pontos estratégicos podem manter o funcionamento normal caso o fluxo de veículos e pedestres justifique, seguindo o modelo adotado em outras cidades.
Os Desafios da Implementação: Entre o Ideal e o Real
Como alguém que trabalha com consultoria empresarial e entende a importância da gestão na execução de projetos, vejo alguns desafios pela frente:
Desafio Técnico
A Avenida Colombo, por ser uma rodovia federal, exige coordenação entre município, estado e União. A SEMOB precisará negociar com diferentes esferas de governo para garantir a uniformidade da sinalização.
Desafio Educativo
Muitos motoristas ainda não sabem como proceder diante de um semáforo intermitente. Será fundamental investir em educação no trânsito e campanhas de conscientização, como as que já são realizadas durante o Maio Amarelo.
Desafio de Monitoramento
Como medir o sucesso da medida? Precisamos estabelecer indicadores claros: redução de acidentes noturnos, diminuição do tempo de deslocamento, feedback da população sobre segurança pessoal.
Histórias do Trânsito Maringaense
Conversando com amigos que trabalham em turnos noturnos – médicos, enfermeiros, seguranças, motoristas de aplicativo – sempre ouço as mesmas preocupações. “Professor”, me disse um colega que trabalha no Hospital Universitário, “você não imagina o alívio que vai ser não ter que ficar parado no sinal da Mandacaru com Colombo às 3h da manhã”.
Essa dimensão humana, muitas vezes esquecida nos debates técnicos, é fundamental. Políticas públicas efetivas são aquelas que melhoram concretamente a vida das pessoas. E nesse caso, estamos falando de trabalhadores que prestam serviços essenciais para nossa cidade e merecem se deslocar com segurança.
Uma Análise Estratégica
Oportunidades
Modernização da gestão urbana: Maringá pode se tornar referência na região em soluções inteligentes de trânsito
Melhoria da imagem da cidade: Demonstra que nossa gestão pública está atenta às necessidades reais da população
Integração com tecnologia: A medida pode ser o primeiro passo para um sistema mais amplo de semáforos inteligentes
Riscos, ameaças e desafios
Resistência cultural: Mudanças de comportamento no trânsito levam tempo e exigem paciência
Possíveis aumentos de acidentes iniciais: Período de adaptação pode gerar confusão
Pressão por resultados imediatos: Políticos e população podem esperar melhorias instantâneas
A Questão Federal: Um Contexto Mais Amplo
É interessante notar que essa discussão não é exclusiva de Maringá. No Congresso Nacional, tramita o Projeto de Lei 750/2019, do senador Chico Rodrigues, que propõe tornar obrigatório o funcionamento intermitente de semáforos em todo o país.
O projeto está parado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, aguardando parecer do relator. Se aprovado, criaria uma padronização nacional para a questão, o que facilitaria a implementação em todas as cidades brasileiras.
Maringá, ao aprovar sua legislação municipal, demonstra liderança nessa agenda e pode influenciar positivamente o debate nacional.
Recomendações Para uma Implementação Bem-Sucedida
Com base na minha experiência em gestão de projetos e acompanhamento de políticas públicas, sugiro algumas diretrizes para a SEMOB:
Fase 1: Planejamento (primeiros 60 dias)
- Mapeamento técnico de todos os cruzamentos
- Definição de critérios claros para inclusão/exclusão
- Elaboração do cronograma de implementação
- Coordenação com órgãos federais e estaduais
Fase 2: Implementação Piloto (dias 60-90)
- Início por cruzamentos menos críticos
- Monitoramento intensivo dos primeiros resultados
- Ajustes baseados em dados reais
- Campanha educativa intensiva
Fase 3: Expansão Gradual (dias 90-120)
- Inclusão progressiva de novos pontos
- Avaliação contínua dos indicadores
- Relatórios periódicos para a sociedade
- Preparação para possíveis ajustes legislativos
O Papel da Transparência e do Debate Público
Uma das lições que aprendi acompanhando a política maringaense é que boas ideias só se tornam boas políticas quando há transparência no processo e participação social genuína.
A SEMOB deve manter a população informada sobre cada etapa da implementação. Dados sobre acidentes, tempo de deslocamento, pesquisas de satisfação – tudo isso deve ser público e acessível.
Além disso, é fundamental criar canais para que a população possa reportar problemas e sugerir melhorias. A política pública mais efetiva é aquela que se adapta constantemente à realidade.
O Pragmatismo Como Virtude Democrática
No fim dessa análise, fico com uma certeza: Maringá está dando um passo importante na direção certa. Não se trata de uma solução revolucionária, mas de uma medida pragmática, tecnicamente fundamentada e socialmente necessária que demonstra como nossa democracia local pode evoluir quando há vontade política e evidências técnicas convergindo para o bem comum.
A jornada de vinte anos entre a primeira proposta e a aprovação definitiva ilustra não apenas a persistência necessária em políticas públicas, mas também o amadurecimento institucional de nossa cidade.
Os próximos meses serão cruciais. A SEMOB terá a oportunidade histórica de demonstrar que nossa administração pública é capaz de transformar boas leis em políticas efetivas, servindo como modelo para outras cidades da região. E nós, cidadãos, teremos a responsabilidade cívica de acompanhar, cobrar transparência e contribuir para que essa mudança realmente melhore a vida dos trabalhadores noturnos, dos profissionais de saúde, dos motoristas de aplicativo e de todos os maringaenses que precisam se deslocar durante a madrugada.
Que os semáforos intermitentes sejam apenas o começo de uma nova era de políticas públicas inteligentes em nossa cidade.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
🔗 Leitura Complementar
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