Última atualização em 20/01/2026 por Alan Zampieri
O MOMENTO É AGORA
Quando acordamos em Maringá nesta semana de janeiro, duas notícias importantes circularam pelas redes: a Prefeitura lançou o Programa Maringá Lixo Zero e abriu consulta pública para a concessão de serviços do Parque do Ingá. Para quem acompanha a política local de Maringá através das notícias, blogs e colunas, essas não são apenas mais duas iniciativas da gestão municipal — representam um inflexão real no modelo de desenvolvimento urbano que queremos para nossa cidade.
Sou um declarado defensor da gestão pública eficiente e dos projetos que geram resultado mensurável. Sempre digo que é preciso menos retórica e mais pragmatismo. Assim, depois de analisar profundamente a documentação disponibilizada e os precedentes em outras cidades do Brasil, posso afirmar com segurança: essas duas políticas públicas merecem apoio ativo da sociedade civil maringaense — mas também crítica construtiva, monitoramento permanente e ajustes onde necessário.
Que fique claro desde o início: o Parque do Ingá permanecerá público, gratuito e sob controle ambiental da Prefeitura. Isso não é privatização; é inovação em gestão. A diferença é substancial, e precisa estar esclarecida.
O QUE É O PROGRAMA MARINGÁ LIXO ZERO?

Impacto Potencial do Programa Maringá Lixo Zero: Redução de Volume e Custos
Iniciemos pelos fatos. Maringá produz 350 toneladas de lixo domiciliar por dia — uma média de 0,81 quilo por habitante. Esse volume é integralmente enviado ao aterro sanitário municipal, gerando um custo anual de R$ 18 milhões aos cofres públicos. Para colocar em perspectiva: esse recurso poderia financiar 36 escolas de período integral ou 180 agentes de saúde comunitários.
O Programa Maringá Lixo Zero propõe algo radicalmente diferente: transformar esse lixo em insumos industriais por meio de tecnologias já consolidadas internacionalmente. O objetivo é atingir o modelo de “Aterro Zero”, ou seja, eliminar a necessidade de enterrar resíduos urbanos.
Como funciona? A Prefeitura lançou um edital qualificando tecnologias inovadoras — gaseificação por plasma, biodigestão anaeróbia, compostagem em larga escala — capazes de processar resíduos. Empresas interessadas têm 60 dias para apresentar propostas técnicas que demonstrem viabilidade comprovada.
CINCO RAZÕES CONCRETAS PARA APOIAR A INICIATIVA
1. Economia Direta sem Retirada de Recursos de Outras Áreas
Esse é o argumento que menos encontra contradição entre especialistas. Se Maringá reduzir em 80% o volume de lixo enviado ao aterro — conforme indicam os casos de Florianópolis, Curitiba e Belo Horizonte — economizaria aproximadamente R$ 14,4 milhões por ano.
Para uma cidade do porte de Maringá, isso representaria:
- Pavimentação de 20 km de ruas adicionais
- Ampliação de 15 unidades básicas de saúde
- Investimento em tecnologia educacional para 80 escolas municipais
Não se trata de especulação: São Bernardo do Campo (SP) relatou, em 2025, economias superiores a R$ 1 milhão em gestão de resíduos após implementar programa semelhante. Curitiba, após 30 anos de operação, consolidou uma rede de 40 cooperativas que processa 1.700 toneladas de material reciclável mensalmente.
O resultado é mensurável. A gestão pública exige isso.
2. Criação de Emprego e Renda sem Substituir Cooperativas Existentes
Aqui preciso ser franco sobre a crítica que existe. Grupos ligados à Universidade Estadual de Maringá expressaram preocupação legítima: o novo modelo poderia fechar as cooperativas de catadores de Maringá, Sarandi, Paiçandu e região.
É uma preocupação válida e merece resposta clara. Segundo informa a Prefeitura de Maringá, o Programa Lixo Zero não visa substituir cooperativas; visa complementar seu trabalho.
O fluxo seria assim: material reciclável seco continua indo para cooperativas (como hoje); material orgânico e resíduos não-reciclável vão para tecnologia de transformação. Ambos os caminhos geram renda. No modelo de Curitiba, as 40 cooperativas do Ecocidadão recebem R$ 1,11 por real investido pelo município em coleta seletiva.
Cooperativas precisam de volume. Programa Lixo Zero gera mais volume sistematizado. Questão ´técnica: como garantir que cooperativas recebam sua parcela adequada de investimento? Essa resposta deve estar no edital de seleção de tecnologia.
3. Maringá como Referência Nacional em Inovação Ambiental
Somos a cidade que foi eleita três vezes a “melhor cidade para se viver” no Brasil. Maringá é sinônimo de planejamento urbano inteligente, sustentabilidade e qualidade de vida.
Ao implementar Lixo Zero com sucesso, Maringá se posiciona como referência internacional em economia circular. Enquanto Florianópolis é a única cidade brasileira com certificação Lixo Zero, Maringá teria oportunidade de ser a segunda — com modelo diferenciado que combina inovação tecnológica, preservação ambiental e inclusão social.
Isso atrai investimento e turismo, Empresas ligadas a ESG (Environmental, Social, Governance) buscam cidades com credibilidade ambiental comprovada. Fundações internacionais financiam pesquisa em cidades como essas.
Não é apenas ética ambiental; é posicionamento estratégico de longo prazo.
4. Redução de Gases de Efeito Estufa e Recuperação de Áreas Degradadas
Aterro sanitário gera emissão contínua de metano (CH₄), gás 28 vezes mais potente que CO₂ em retenção de calor atmosférico. A cada dia, 350 toneladas de lixo enterrado em Maringá contribuem para degradação do solo, percolação de chorume em aquíferos, e emissão de gases de estufa.
Transformar esse lixo em insumo significa: zero emissão de metano, recuperação de energia (via plasma, digestão anaeróbia, incineração com calor recuperado), e reaproveitamento de solo. Estudos indicam que gaseificação por plasma reduz volume de resíduo final para apenas 3% do volume original, com material residual inerte e vitrificado.
Para Maringá, que já é referência em sustentabilidade ambiental (arborização de 25,24 m² por habitante, 14 reservas florestais), esse é um passo natural.
5. Revitalização do Parque do Ingá com Acesso Público Mantido

Benchmarking de Programas Lixo Zero no Brasil: Metas e Implementação
Aqui chegamos ao ponto de mal-entendido que precisa ser desfeito: a PPP do Parque do Ingá não significa privatização.
O que fica com a Prefeitura:
- Propriedade total (474,3 mil m²)
- Gestão da biodiversidade e proteção ambiental
- Entrada gratuita (permanece assim)
- Decisões sobre uso e conservação
O que vai para concessionária (257 mil m²):
- Limpeza, segurança, manutenção
- Operação de restaurante, lanchonete, comércio
- Atrativos como tirolesa, arvorismo, passeio de trenzinho, educação ambiental
Modelo é idêntico ao do Parque Nacional do Iguaçu e Parque Vila Velha. Municípios como Campos do Jordão (SP) implementaram com sucesso. O investimento público é zero — empresa concessionária financia infraestrutura que reverte ao município ao final do contrato.
O PAPEL DA SOCIEDADE CIVIL AGORA
Maringá tem uma consulta pública até 1º de fevereiro de 2026 (20 dias úteis) para ambas as iniciativas. Formulário on-line para o Parque do Ingá está disponível em: http://www3.maringa.pr.gov.br/conferencia/?cod=concessao-parque-do-inga%2Finscricao
Isso não é formalidade burocrática — é mecanismo real de participação.
UM COMPROMISSO COM O FUTURO
Escrevo isso como alguém que acredita na importância da fiscalização cidadã, mas também na capacidade de governos locais inovarem quando bem estruturados.
Maringá está em posição única: é cidade referência em planejamento urbano, com recursos municipais disciplinados, lideranças empresariais comprometidas com a sustentabilidade, e universidades capazes de validar tecnologias.
Os projetos Lixo Zero e PPP Parque Ingá não são perfeitos — nenhuma política pública é. Mas representam um movimento na direção correta: menos desperdício, mais eficiência, resultado mensurável e inclusão social.
Convido você, leitor de Maringá, a participar ativamente. Isso não é responsabilidade cívica.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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