Última atualização em 10/11/2025 por Alan Zampieri
Uma enfermaria movimentada demonstra o ambiente exigente das unidades de saúde públicas
O Paradoxo da Cobrança Sem Investimento
A gestão municipal tem adotado uma postura curiosa: cobra produtividade dos médicos, critica o tempo de espera nas UPAs, mas esquece de perguntar em que condições esses profissionais estão trabalhando. É como querer que um pedreiro construa uma casa de qualidade, mas oferecer apenas tijolos rachados e cimento vencido.
O secretário de Saúde, Antônio Carlos Nardi, em entrevista à CBN Maringá, reconheceu que “a produtividade média dos profissionais nos turnos da manhã e tarde não chega a três atendimentos por hora”. Mas será que questionamos por que isso acontece? Talvez a resposta esteja justamente nas condições de trabalho oferecidas.
Lemuel e o Grito de Socorro da UPA Zona Sul
O vereador Lemuel do Salvando Vidas, do PDT, conhecido por sua atuação na causa animal e agora revelando-se um fiscal atento dos equipamentos públicos, protocolou o Requerimento nº 1269 de 2025. O documento solicita “a substituição imediata das camas elétricas das salas de urgência e emergência da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Zona Sul por equipamentos novos”.

Não é apenas uma questão de conforto. Camas elétricas adequadas são fundamentais para o atendimento de pacientes em estado crítico e semi-crítico. Quando um equipamento básico como esse está defasado, compromete-se toda a cadeia de cuidados médicos.
A Triste Realidade Que Todos Veem, Mas Poucos Falam
As denúncias do Sindicato dos Servidores de Enfermagem (Sinsej) não deixam dúvidas sobre a precariedade: falta de luvas no tamanho adequado, espaçadores para inalação sendo improvisados com esparadrapo, fraldas apenas no tamanho G quando pacientes precisam de outros tamanhos. É o famoso “jeitinho brasileiro” aplicado onde não deveria existir improviso.
Recentemente, a própria prefeitura teve que entregar materiais “às pressas” na UPA Sul quando soube da visita do Sinsej. Esse tipo de reação evidencia que os problemas são conhecidos pela gestão, mas só recebem atenção quando há pressão externa.
Quando as Máquinas Falam: A Importância da Manutenção
Um aspecto frequentemente negligenciado é a manutenção preventiva dos equipamentos. Não adianta comprar o melhor aparelho de raio-X do mundo se ele ficará parado por semanas quando precisar de reparo. A UPA Zona Norte, por exemplo, já enfrentou problemas com energia elétrica que comprometeram completamente o funcionamento da unidade.
A manutenção de equipamentos hospitalares deveria ser tratada como prioridade absoluta, não como “despesa extra” no orçamento municipal. É investimento em vidas, não gasto desnecessário.
Lições de Casa: O Que Outras Cidades Estão Fazendo Certo
Rio de Janeiro: Investimento Estrutural Real
O governo do Estado do Rio investiu R$ 41 milhões na reforma de 24 UPAs em 2023, incluindo reforço estrutural, revisão elétrica, troca de equipamentos de ar condicionado e aquisição de tomógrafos. As UPAs Nova Iguaçu I e II foram as primeiras da rede estadual a receber tomografia computadorizada.
Recife: O Modelo João Campos
O programa “Recife Cuida” é um exemplo de gestão eficiente. Com investimento de R$ 400 milhões, o prefeito João Campos (PSB) promoveu a requalificação de 127 unidades de saúde, contratou 2.733 profissionais e implementou a saúde digital. O resultado? Redução significativa nas filas e melhoria na qualidade do atendimento.
Belo Horizonte: Planejamento de Longo Prazo
A capital mineira anunciou a construção de uma nova UPA e a reforma completa das UPAs Venda Nova, Barreiro e Oeste, seguindo normas atualizadas de atendimento, sanitárias e de acessibilidade.
O Que Maringá Precisa Fazer (E Que Não Está Fazendo)
1. Auditoria Completa dos Equipamentos
Antes de cobrar produtividade, que tal mapear o estado real dos equipamentos em todas as UPAs? O Requerimento do Lemuel sobre as camas da UPA Zona Sul deveria ser o primeiro passo de um levantamento completo.
2. Plano de Manutenção Preventiva
Estabelecer contratos de manutenção preventiva para todos os equipamentos críticos, com cronograma definido e responsabilidades claras.
3. Investimento em Infraestrutura Básica
Problemas como falta de luvas do tamanho adequado ou improvisação de espaçadores são inaceitáveis em pleno 2025. São questões básicas que impactam diretamente a qualidade do atendimento.
4. Valorização dos Servidores
Profissionais desmotivados não rendem adequadamente. É preciso criar condições dignas de trabalho, não apenas cobrar resultados.
A Questão Orçamentária: Prioridades Que Revelam Valores
Maringá tem recursos para investir em saúde. A questão é priorização. Quando vemos recursos sendo destinados para outras áreas enquanto UPAs funcionam precariamente, fica claro que a gestão pública atual não compreende que saúde é investimento, não gasto.
É fundamental que a Câmara Municipal de Maringá, através de vereadores como Lemuel e outros, continue fiscalizando e cobrando melhorias. O debate público sobre essas questões é essencial para pressionar por mudanças reais.
Por Uma Maringá Que Cuida de Quem Cuida
Como alguém que transita tanto no mundo jurídico quanto no empresarial, entendo que gestão eficiente exige visão sistêmica. Não se pode melhorar um resultado focando apenas no final da cadeia. Se queremos UPAs que funcionem adequadamente, precisamos garantir que tenham condições estruturais para isso.
A proposta é simples: antes de cobrar mais atendimentos por hora dos médicos, vamos dar a eles camas elétricas que funcionem, materiais básicos em quantidade adequada e equipamentos com manutenção em dia. Só então poderemos exigir – e ter – o atendimento de qualidade que os maringaenses merecem.
O Requerimento nº 1269 de 2025 do vereador Lemuel do Salvando Vidas não é apenas sobre camas elétricas na UPA Zona Sul. É sobre respeito pelos profissionais de saúde, dignidade no atendimento aos pacientes e responsabilidade da gestão pública com o que realmente importa.
O Caminho Está Claro, Falta Vontade Política
Maringá tem potencial para ser referência em saúde pública na região. Temos profissionais competentes, estrutura básica instalada e recursos disponíveis. O que falta é uma gestão que compreenda que investir em infraestrutura e materiais adequados não é despesa, é responsabilidade básica do poder público.
A população maringaense não merece improvisos na saúde. Merece excelência. E excelência só se constrói com planejamento, investimento e, principalmente, vontade política de fazer a diferença.
É hora de parar de cobrar milagres e começar a criar as condições para que eles aconteçam naturalmente.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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