Última atualização em 11/01/2026 por Alan Zampieri
O Reajuste de 4,9%: Acima da Inflação, Mas Abaixo de Outras Capitais
Comparação com outras cidades:
- São Paulo: 5,2% em 2025
- Curitiba: 4,2% em 2024
- Brasília: 4,5% em 2024
- Rio de Janeiro: 3,8% em 2024
Maringá posiciona-se no meio do espectro — superior a Brasília, Curitiba e Rio, mas inferior a São Paulo. Comparação com histórico local revela tendência de crescimento:
- 2024: 4,5% (maior ganho real dos últimos 6 anos)
- 2023: 6% (reajuste maior, porém contexto inflacionário diferente)
- 2022: crescimento vegetativo + 10,7% na folha total (incluindo novos servidores)
De 2017 a 2023, reajustes ficavam entre 0% e 0,5% acima da inflação. Portanto, 2024 e 2025 representam melhoria significativa em trajectória salarial.
Pergunta crítica: se reajuste de 4,9% foi possível em 2025 — acima da inflação, em linha com capitais brasileiras — por que gastos com diárias internacionais cresceram 160% no mesmo período?
O Paradoxo Orçamentário: R$ 1,8 Milhão em Diárias vs. R$ 4,9% em Salários
Este é o nó da questão.
Gastos com diárias (travel allowances) explodiram em 2025:
Comparação revela priorização orçamentária contrastante. Enquanto servidores conquistaram 4,9% após negociação intensa e assembleia do sindicato, viagens internacionais receberam reajuste de 260% em orçamento alocado.
Onde foram gastos R$ 1,8 milhão em diárias?
- Fevereiro 2025: Viagem do Prefeito a Portugal, Alemanha e Inglaterra = R$ 27.200 (10 diárias)
- Junho 2025: Viagem do Prefeito ao Japão = R$ 30.600 (9 diárias)
- Julho 2025: Comitiva para Portugal (Vice-Prefeita, 3 Secretários, 2 Assessores) = R$ 60.000
- Dezembro 2025: Viagem do Prefeito ao Quênia (ONU) = R$ 14.952
Total de viagens internacionais: aproximadamente R$ 132 mil apenas de diárias. Adicionando viagens domésticas e de outros servidores, total de R$ 1,8 milhão/ano representa aproximadamente 10% da folha total mensal de servidores (estimada em R$ 140-150 milhões/mês baseado em R$ 1,68 bilhão/ano).
Proporção: cidade gastaria com viagens o equivalente a 2,4 meses de reajuste salarial integral.
Questão para gestores municipais: qual retorno público justifica essa priorização?
Limite de LRF: Maringá Tem Espaço — Por Que Não Usar?
Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) estabelece limite municipal de gastos com pessoal em 60% da Receita Corrente Líquida (RCL).
Para Maringá:
- RCL 2025: aproximadamente R$ 2,3 bilhões
- Limite máximo permitido: 60% = R$ 1,38 bilhões
- Gasto atual: R$ 895 milhões em 2023, estimado em ~R$ 1,05 bilhões em 2025 (baseado em crescimento)
- Comprometimento: 47% da RCL (dados 2026)
Maringá utiliza apenas 47% do limite permitido — 13 pontos percentuais abaixo do teto. Significa que município tem R$ 280-300 milhões adicionais de espaço orçamentário para folha de pagamento sem violar LRF.
Comparação com limite prudencial (95% do máximo):
- Limite Prudencial: 54% × 95% = 51,3%
- Maringá está em: 47%
- Distância do Prudencial: 4,3 pontos percentuais
Tecnicamente, Maringá poderia aumentar folha de pagamento em até R$ 300 milhões/ano sem risco fiscal.
Perguntas incômodas:
- Por que não repassar maior percentual desse “espaço” para servidores?
- Por que reajuste foi de apenas 4,9%, quando município tem capacidade para 6-7%?
- Qual limitação real impedia reajuste maior — lei, ou decisão política?
Comparação com São Paulo: Reajuste 5,2% em Parcelamento Estratégico
São Paulo aprovou 5,2% distribuído em duas parcelas: 2,6% maio 2025 + 2,55% maio 2026.
Justificativa de São Paulo: não é “divisão injusta”. É reconhecimento de perda inflacionária de 5,21% acumulada, com parcelamento para gestão fiscal adequada.
Gestores paulistas argumentaram que reajuste total estava previsto — apenas estruturado em cronograma que permitia investimentos em saúde, habitação, educação, drenagem urbana.
Maringá poderia adotar estratégia similar?
- Ano 1 (2025): 4,9% efetivo
- Ano 2 (2026): 2,5% adicional = total 7,4% em dois anos
- Justificativa: recomposição gradual mantendo espaço fiscal para investimentos
Não seria “dar menos agora, promessa depois”. Seria transparência sobre cronograma — diferença crucial.
Histórico de Negociações: Por Que 2024-2025 Foram Diferentes?
Sindicato (SISMMAR) afirma que reajustes 2024-2025 representam maior ganho real dos últimos 6 anos. Comparação com histórico:
- 2017-2023: reajustes de 0% a 0,5% acima da inflação
- 2024: 4,5% (0,7% acima INPC)
- 2025: 4,9% (0,44% acima IPCA)
O que mudou? Duas gestões com postura diferente:
Ulisses Maia (PSD) 2021-2024 buscou equilíbrio entre reajuste e responsabilidade fiscal — resultando em 4,5% em 2024.
Silvio Barros (PP, 2025-atual) chegou com promessa de “valorização” do funcionalismo.
Contrariedade: em fevereiro 2025, sindicato divulgou que Prefeitura não apresentou qualquer proposta de reajuste salarial, alegando “não ter tempo hábil”. Assembleia de servidores registrou “indignação” e “descaso”.
Reajuste de 4,9% só foi aprovado em março — após pressão política intensificada. Demonstra que ganho real não foi concessão voluntária, mas resultado de luta sindical.
Pergunta para próxima gestão: será que gastos com diárias internacionais poderiam ter sido contidos para permitir reajuste de 6% em 2025, mantendo promessa de “valorização”?
Reajuste Adequado, Mas Priorização Orçamentária Questionável
Análise Honesta:
Reajuste de 4,9% em 2025 não foi injusto. Superou IPCA, ficou alinhado a cidades comparáveis, manteve Maringá com margem fiscal adequada.
Porém, contexto orçamentário levanta questão incômoda:
Se município tinha capacidade fiscal para reajuste maior (espaço de ~R$ 300 milhões sob limite de LRF), por que não repassou maior percentual para servidores?

Pessoal consome 47% do orçamento de Maringá 2026; folha de pagamento é prioridade na distribuição orçamentária municipal
Se prioridades orçamentárias incluem viagens internacionais ao ponto de gastar R$ 1,8 milhão/ano (crescimento de 160%), por que servidor público não pode receber 6% ao invés de 4,9%?
Resposta sincera: é questão de hierarquia de valores.
Reajuste adequado reflete reconhecimento. Mas se município prioriza viagens internacionais sobre folha de pagamento, essa hierarquia não deveria ser transparente — ao invés de velada em “responsabilidade fiscal”?
Pergunta final para prefeito, vereadores, servidores e população:
Reajuste salarial é direito de quem trabalha, ou é concessão política subject a “capacidade orçamentária”? Se é direito, por que não automatizar e publicar? Se é concessão, por que não ser honesto sobre priorização?
A resposta que cada um der diz muito sobre qualidade de gestão que Maringá merece.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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