Última atualização em 17/01/2026 por Alan Zampieri
Quando a Madeira Conta Nossa História
A Capela Santa Cruz não é apenas madeira peroba-rosa encaixada com técnica macho-fêmea. Ela é o símbolo vivo do Maringá Velho, do núcleo original da cidade, da fé dos pioneiros que chegaram aqui nos anos 1940 sem nada, só com coragem e esperança. Construída entre 1946 e 1947 pelo carpinteiro alemão Anton Joseph Christoph, a capela foi idealizada pela própria comunidade católica, com o apoio fundamental do padre Emílio Scherer, vigário pioneiro da região.
Não foi projeto da Companhia de Terras Norte do Paraná. Foi vontade popular. Foi gente que quis ter onde rezar antes de ter onde morar direito. E isso, meu amigo, diz muito sobre quem somos.
A capela foi tombada como Bem Cultural pelo município em 1988, inscrita no Livro do Tombo em 2005, e reconhecida pelo Governo do Estado do Paraná em 2008 como patrimônio cultural estadual. Em 2019, a Prefeitura de Maringá, através da Secretaria de Cultura, aprovou junto à Comissão Especial de Proteção do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (CEPPHAC) a necessidade urgente de restauração. Desde então, o prédio está interditado por problemas estruturais graves: infiltrações na cobertura, “afundamento” da estrutura e deterioração das madeiras.
Agora, em outubro de 2025, a CBN Maringá noticiou que os recursos foram liberados e a restauração deve começar em breve. Finalmente.
Mas aqui vai minha pergunta incômoda: por que demorou tanto? E mais importante: o que Maringá está fazendo para garantir que outros patrimônios não tenham o mesmo destino de abandono até o limite estrutural?
O Que a Pesquisa da Secretaria de Cultura Está Revelando (E Por Que Isso Importa)
A Secretaria Municipal de Cultura de Maringá lançou recentemente uma pesquisa inédita sobre patrimônio histórico e cultural da cidade. O objetivo é claro: compreender como a população interpreta a atuação do poder público na conservação dos bens culturais, tombados ou não, e mensurar o conhecimento sobre o Patrimônio Cultural Material, Imaterial, Natural, Arte Integrada e Arqueológico de Maringá.
Essa pesquisa é fundamental. Porque preservação patrimonial não é romantismo. É política pública baseada em dados. E dados revelam percepções. Se a população não sabe o que é patrimônio cultural, ela não vai defender. Se ela não vê valor, ela não vai cobrar conservação. Simples assim.
Maringá tem um histórico de legislação de preservação desde 1964, quando criou o Museu Municipal (Lei 299/1964). Em 1980, surgiu o Projeto Memória, coordenado pelo historiador João Laércio Lopes Leal, preservando arquivos imagéticos, documentais e orais. Em 1987, veio a Lei 2.297/87, regulamentando políticas de preservação patrimonial no município.
Mas legislação sozinha não salva patrimônio. Gestão salva. Fiscalização salva. Orçamento salva. E população consciente cobra tudo isso.
A pesquisa da Secretaria de Cultura é um passo correto. Mas precisa ser seguido por ação executiva: orçamento vinculado, metas mensuráveis, cronograma público, prestação de contas trimestral. Caso contrário, vira só mais uma consulta que não gera resultado.
Turismo Religioso: A Economia da Fé Que Maringá Ainda Não Explorou Direito

Impacto Econômico do Turismo Religioso no Brasil (2024-2025)
Deixa eu ser direto: Maringá tem um potencial gigantesco de turismo religioso que está sendo desperdiçado por falta de visão estratégica.
A cidade possui:
- Catedral Basílica Menor Nossa Senhora da Glória: a mais alta da América Latina, com 124 metros, 25ª maior do mundo, recebendo milhares de visitantes anualmente.
- Capela Santa Cruz (1947): patrimônio histórico estadual e municipal, representando a fé dos pioneiros.
- Capela São Bonifácio (1940) e Capela Nossa Senhora Aparecida: marcos da colonização rural.
- Santuário Diocesano Nossa Senhora de Fátima: subterrâneo, com arquitetura japonesa e decoração em seda trazida de Taiwan e Japão.
- Gruta Nossa Senhora de Lourdes (1983): espaço de contemplação em meio à natureza.

Patrimônios Religiosos de Maringá: Potencial Turístico Não Explorado (2025)
Esse conjunto patrimonial coloca Maringá em condições de integrar rotas estaduais e nacionais de turismo religioso, como a Rota do Rosário (que já conecta 17 santuários em 14 municípios do Norte Pioneiro e Campos Gerais, recebendo mais de 1 milhão de peregrinos/ano).
O turismo religioso é o segundo nicho mais procurado no Paraná, segundo a Secretaria do Turismo do Paraná. No Brasil, esse segmento movimentou R$ 15 bilhões em 2015, com 17,7 milhões de viajantes, segundo o Ministério do Turismo. Em 2025, o Governo Federal investiu R$ 2 milhões apenas no Círio de Nazaré (Belém-PA), que gerou impacto econômico superior a R$ 190 milhões.
Pergunta óbvia: Por que Maringá não está estruturando políticas públicas específicas para capturar essa demanda?
A resposta é simples: falta coordenação entre Secretaria de Cultura, Secretaria de Turismo, iniciativa privada (hotéis, restaurantes, agências) e lideranças religiosas.
O Que Outras Cidades Fizeram
Vou ser prático. Exemplos concretos de políticas públicas que funcionaram:
1. Minas Gerais: ICMS Patrimônio Cultural
Minas Gerais lidera nacionalmente a preservação patrimonial municipal. Em 2024, 840 dos 853 municípios mineiros (98,5%) possuem legislação municipal de proteção ao patrimônio. Como? Através do ICMS Patrimônio Cultural, um mecanismo de transferência de recursos do Tesouro Estadual aos municípios que investem em preservação.
O modelo funciona assim: município que cria lei de proteção, tomba bens, conserva e promove patrimônio recebe repasse estadual proporcional ao seu esforço. É um incentivo direto, mensurável e eficaz.
Resultado: turismo cultural fortalecido, emprego gerado, identidade preservada.
2. Rota do Rosário (Paraná): Integração Regional
A Rota do Rosário foi criada em 2008 pelo Bispo Emérito Dom Fernando José Penteado, conectando 17 santuários em 14 municípios (Jacarezinho, Bandeirantes, Siqueira Campos, Ibaiti, Jaguariaíva, Arapoti, entre outros). O percurso de 651 km recebe mais de 1 milhão de peregrinos e turistas anualmente, movimentando economia local, fortalecendo turismo regional e promovendo preservação patrimonial.
Em 2025, a Assembleia Legislativa do Paraná aprovou o Projeto de Lei 641/2025, reconhecendo a Rota do Rosário como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado e incluindo-a no Roteiro Turístico Oficial do Estado.
Lição para Maringá: criar rota própria integrando Catedral, Capela Santa Cruz, Santuário de Fátima, capelas rurais e conectar com a Rota do Rosário regional.
3. Aparecida do Norte (SP): Economia da Fé Estruturada
Aparecida do Norte recebe milhões de visitantes anualmente no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, o maior templo católico do país. A cidade estruturou:
- Infraestrutura turística completa: hotéis, restaurantes, transporte, sinalização.
- Museu de Cera, Passarela da Fé, centros de apoio aos romeiros.
- Calendário de eventos religiosos integrado ao turismo.
Resultado: cidade vive do turismo religioso, com economia robusta e emprego gerado pela fé.
4. Curitiba: Fundo Municipal e Transparência
Quando Pedra e Madeira Viram Futuro
A Capela Santa Cruz, feita de peroba-rosa e fé, está prestes a ser restaurada. É um alívio. Mas também é um lembrete: patrimônio cultural não se cuida sozinho. Precisa de lei, de orçamento, de fiscalização, de povo que defende.
Maringá tem potencial gigantesco para turismo religioso: Catedral icônica, capelas históricas, santuários, diversidade de expressões de fé (católica, protestante, islâmica, budista). Esse potencial pode virar economia, emprego, desenvolvimento sustentável. Ou pode virar só “potencial desperdiçado”, como tem sido até agora.
As propostas estão na mesa: FUMPATUR, Roteiro Oficial, Selo Patrimônio Vivo, Dia Municipal do Patrimônio. Todas viáveis. Todas mensuráveis. Todas com potencial de transformar Maringá.
A questão é: Maringá quer ser cidade que cuida do seu passado para construir futuro? Ou quer ser cidade que deixa patrimônio apodrecer até virar ruína?
A resposta está nas nossas mãos. E na decisão política.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
🔗 Leitura Complementar
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