Última atualização em 16/01/2026 por Alan Zampieri
O Remédio que Alivia, mas Não Cura
Vamos ser diretos: a terceira faixa funciona, mas funciona como analgésico. A Avenida Duque de Caxias, artéria vital do nosso centro, respirou um pouco melhor com a nova configuração. Quem passa por lá nos horários críticos sentiu a diferença – menos tempo parado, menos buzina, menos estresse. Mas aqui vai a pergunta incômoda: e os outros pontos críticos da cidade?
A Zona Norte de Maringá, por exemplo, continua sofrendo. A Avenida Mandacaru, que já recebeu terceira faixa das 6h30 às 8h30, melhorou o fluxo no sentido Centro. A mesma estratégia foi aplicada na Avenida 19 de Dezembro e na Rua Paranaguá, sempre com o objetivo de desafogar os horários de pico. Mas o que acontece quando o motorista sai dessas vias e encontra o mesmo congestionamento na sequência?
Entre Rotatórias e Semáforos: O Caso que Deu Certo
Maringá tem exemplos próprios de que é possível fazer diferente. A Praça Todos os Santos, onde fica o Teatro Reviver Magó, mostra como a combinação de semáforos em rotatória com vias rápidas à direita para fluir o trânsito pode funcionar. Ali, a semaforização não travou o movimento – pelo contrário, organizou e aumentou a capacidade de fluxo. Uma rotatória sem semáforo suporta até 750 veículos por hora; com semáforo, absorve mais de mil.
As Vias que Cortam a Brasil: Apostando na Integração
Outro ponto positivo veio com a reabertura estratégica de cruzamentos. A Rua Basílio Sautchuk, que voltou a cruzar a Avenida Brasil em horários de pico (7h às 9h, 11h30 às 14h e 17h às 19h), oferece alternativa de trajeto e alivia a pressão sobre outras vias. O mesmo aconteceu com a Rua Piratininga, que manteve duplo sentido entre as avenidas Horácio Raccanello e Brasil.
Essas aberturas não são meras gambiarras – são parte de um planejamento que enxerga a malha viária como sistema integrado. Quando você oferece mais de uma opção ao motorista, distribui melhor o fluxo. Simples assim. Mas por que demoramos tanto para implementar? E por que só agora, quando uma cratera na São Paulo forçou nossa mão?
O Transporte Coletivo que Ninguém Quer Usar
O sistema de transporte coletivo de Maringá passa por dificuldades estruturais graves. Pontos de embarque e desembarque em estado precário, falta de integração tarifária, horários que não atendem à demanda real da população – tudo isso afasta os usuários. O tempo médio de espera varia entre 10 e 40 minutos, mesmo nos horários de pico, quando teoricamente deveria haver mais veículos circulando.
Em fevereiro de 2022, a Prefeitura reduziu a tarifa de R$ 5 para R$ 4, assumindo o subsídio das gratuidades para tornar o transporte mais atrativo. Em 2025, a tarifa subiu para R$ 5,20, com subsídio municipal de R$ 2,70 por passagem, totalizando investimento de mais de R$ 39 milhões no ano – o maior valor já destinado ao setor. Mesmo assim, Maringá mantém a menor tarifa entre as três maiores cidades do Paraná (Curitiba cobra R$ 6 e Londrina R$ 5,75). Mas preço baixo resolve se o serviço não atende às necessidades?
Mobilidade Sustentável: Bicicletas e Patinetes como Complemento
Maringá deu passos interessantes na direção da mobilidade sustentável. O sistema de compartilhamento de bicicletas e patinetes elétricos “Estação Ingá”, lançado em 2024 pela Sancor Seguros em parceria com a Prefeitura, disponibiliza 120 bicicletas (uso gratuito por até 1h20) e 100 patinetes elétricos em 30 estações espalhadas pela cidade.
As bicicletas representam 6% dos deslocamentos em Maringá – o dobro da média nacional de 3% em cidades com população similar. Com 45 km de ciclovias, a cidade demonstra potencial para ampliar essa modalidade. Mas precisamos ser racionais: bicicletas e patinetes são complementos, não substituem um sistema robusto de transporte coletivo. São excelentes para trajetos curtos, para o chamado “último quilômetro”, mas não resolvem a vida de quem precisa atravessar a cidade todos os dias.
Lições de Outras Cidades: O que Funciona de Verdade
SÃO PAULO
São Paulo implementou faixas exclusivas para ônibus e viu a velocidade média nos horários de pico ultrapassar 20 km/h em 2015. O tempo médio de deslocamento nos horários de pico caiu de 69 minutos em 2012 para 64 minutos em 2014 no período da tarde, e de 66 para 63 minutos pela manhã. A lentidão no trânsito, que crescia 14,8% ao ano entre 2011 e 2012, caiu para apenas 2,8% entre 2013 e 2014.
PORTO ALEGRE E CURITIBA
Porto Alegre apostou em faixas reversíveis automatizadas, controladas por semáforos que indicam se a faixa está aberta ou bloqueada. Dependendo do fluxo, a faixa central da Avenida Wenceslau Escobar alterna entre sentido norte-sul e sul-norte. É tecnologia aplicada à gestão do trânsito. Curitiba, referência mundial em transporte público, continua inovando com sistemas de segurança para pedestres e investimento em corredores exclusivos.
BELO HORIZONTE E RECIFE
Belo Horizonte e Recife enfrentam problemas similares aos nossos. BH passou a ter o segundo pior trânsito do Brasil em horários de pico, com tempo 103,57% maior do que em momentos de fluidez – os mesmos 57 minutos que São Paulo registra para percorrer 10 km. Recife lidera o ranking negativo com 58 minutos. O horário de pico no Recife se estende até das 19h às 20h, mostrando que o fenômeno se intensifica à noite.
A Conta que Precisa Fechar
O debate sobre tarifa reduzida é sensível, mas necessário. Hoje, mesmo com o subsídio de R$ 2,70 por passagem (que representa R$ 95 por maringaense ao ano, incluindo quem não usa o sistema), a tarifa de R$ 5,20 ainda pode ser barreira para muitos. Estudantes pagam metade (R$ 2,60) com o Cartão Passe Fácil, e há horários com bônus de 15% entre 8h30 e 11h e entre 13h30 e 16h.
Mas a questão é: será que uma tarifa ainda menor traria mais usuários? Precisamos de estudo técnico aprofundado, análise de viabilidade fiscal e, principalmente, transparência total sobre os números. Quanto custaria reduzir para R$ 4? Para R$ 3? Quantos novos usuários seriam necessários para equilibrar a conta? Essas respostas precisam vir antes de qualquer decisão, com discussão ampla em audiências públicas.
O exemplo de 2022, quando a tarifa caiu de R$ 5 para R$ 4 com subsídio municipal às gratuidades, mostrou que é possível – mas também revelou que preço baixo sozinho não resolve se o serviço for ruim. Precisamos atacar os dois lados: qualidade e acessibilidade.
O Chamado à Ação: Maringá que Queremos
Chegou a hora de decidirmos que cidade queremos ser. Podemos continuar apostando apenas em soluções viárias – mais uma faixa aqui, mais um semáforo ali – e ver o problema crescer junto com a frota de veículos. Ou podemos encarar a realidade: sem transporte coletivo de qualidade, sem integração real entre as modalidades, sem planejamento que pense a cidade como sistema, vamos continuar presos no trânsito.
A terceira faixa em horários de pico resolve? Resolve parcialmente, no curto prazo, em pontos específicos. É importante? Sim, mas não pode ser a única resposta. Precisamos de coragem para investir pesado em transporte coletivo, para criar infraestrutura de verdade para bicicletas e patinetes, para implementar gestão inteligente do trânsito.
E precisamos de você, morador de Maringá, nessa conversa. Participe das discussões públicas sobre mobilidade urbana. Cobre transparência dos gestores. Exija dados, estudos, planejamento. A cidade é nossa – o trânsito também.
Maringá tem tudo para ser referência em mobilidade urbana sustentável. Temos estrutura, recursos, uma população educada e consciente. Falta apenas vontade política para transformar o discurso em ação. A terceira faixa é um passo, mas o caminho é longo. Vamos percorrê-lo juntos, com debate sério, decisões técnicas e foco no resultado que importa: qualidade de vida para todos os maringaenses.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
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