Última atualização em 16/01/2026 por Alan Zampieri
A transparência não é um luxo da democracia – é sua condição de existência. E hoje, mais do que nunca, Maringá precisa olhar para si mesma no espelho da responsabilidade pública. O caso que chegou ao ápice nesta quarta-feira revela tanto os acertos quanto as lacunas do nosso sistema de fiscalização, cobrando de todos nós uma reflexão profunda sobre o que esperamos dos nossos representantes.
Quando a Confiança Pública Vai Para o Tribunal
A história que se desenrola no Plenário Ulisses Bruder tem ingredientes que poderiam sair de um manual sobre como não fazer política. Segundo a denúncia, entre o final de 2021 e início de 2022, a vereadora Cris Lauer utilizou seu chefe de gabinete, advogado, para tratar de assuntos particulares enquanto este recebia salário público. Não estamos falando de um favor esporádico ou uma consultoria informal – foram oito processos particulares em que o servidor atuou como advogado da parlamentar, configurando o que a Justiça classificou como enriquecimento ilícito.
O Ministério Público do Paraná foi cirúrgico na denúncia: a vereadora utilizou mão de obra pública para benefício privado, lesando os cofres municipais em R$ 19.638,02, valor que foi duplicado em multa, totalizando R$ 39.276,04. A 1ª Vara da Fazenda Pública de Maringá não teve dúvidas ao proferir a condenação em maio deste ano, destacando inclusive um áudio da própria parlamentar confirmando a prática irregular.
Como bem disse o relator da Comissão Processante, o vereador Sidnei Telles: “É como se eu contratasse um servidor particular e quem pagasse fosse a Câmara de Vereadores”. A comparação é precisa e didática – imagine se cada maringaense pudesse contratar um funcionário particular às custas do erário público. O caos seria inevitável.
Maringá e o Desafio da Excelência em Transparência
Aqui reside uma contradição que merece nossa atenção. Maringá conquistou posição de destaque em transparência pública, sendo a Câmara mais transparente entre as grandes cidades do Paraná, com 97,51% no Índice de Transparência, superando até mesmo Curitiba (95,26%). Pelo quarto ano consecutivo, nossa Câmara foi eleita a mais eficiente do Sul do Brasil no Ranking Nacional de Competitividade dos Municípios.

Ranking de transparência das capitais brasileiras segundo a Transparência Internacional Brasil
Estes números não são mera estatística – representam anos de trabalho sério na construção de uma cultura institucional voltada para a prestação de contas. Quando observamos o cenário nacional, apenas Vitória-ES supera a marca dos 90 pontos em transparência entre as capitais. A média nacional das capitais foi de 54,8 pontos, sendo que 70% delas têm níveis “regular” ou “ruim” de transparência.
Então, como conciliar essa excelência institucional com um caso flagrante de uso indevido de recursos públicos? A resposta está justamente no funcionamento do sistema: foram os mecanismos de transparência que permitiram a descoberta, investigação e responsabilização.
O Veredito da Democracia: Mais Que Uma Cassação
A sessão desta quarta-feira transcende o julgamento de uma parlamentar específica. É o momento em que Maringá demonstra sua maturidade democrática e seu compromisso com a ética na política. A tendência de cassação por 18 votos sinaliza que nossa Câmara não compactua com irregularidades, independentemente de partido ou afinidade política.
O ex-presidente da Câmara, Mário Hossokawa, que apresentou notícia-crime contra a vereadora, foi claro: “Como agente público não posso me omitir diante de indícios que devem ser apurados com rigor”.
Importante destacar que a defesa da vereadora terá até duas horas para apresentar seus argumentos, garantindo o devido processo legal. Democracia não é linchamento – é processo transparente, com direito de defesa e decisão colegiada fundamentada.
O Futuro da Política Maringaense Está em Nossas Mãos
Este caso nos ensina que transparência sem consequências é apenas um discurso vazio. A verdadeira transparência exige coragem para investigar, processar e responsabilizar quando necessário. Maringá demonstra que possui instituições sólidas e cidadãos vigilantes.
Mas não podemos parar aqui. É hora de darmos o próximo passo na consolidação de uma cultura de integridade que torne impossível a repetição de irregularidades como essa. É hora de transformarmos Maringá na capital nacional da transparência municipal.
A política não pode ser um clube fechado onde alguns se beneficiam às custas de todos. Precisa ser um espaço aberto, transparente e constantemente fiscalizado pela sociedade que, afinal de contas, paga a conta.
Acompanhe a sessão ao vivo pelo canal da TV Câmara Maringá no YouTube, nesta quarta-feira, 27, às 14h.
Alan Zampieri | Advogado e Consultor de Negócios
🔗 Leitura Complementar
Para entender melhor como políticas públicas de inclusão social funcionam em outras cidades, e como pressionar por mudanças em Maringá, recomendamos:
Para acompanhar reflexões sobre ética, trabalho e políticas públicas que fazem Maringá prosperar, siga @alanzampieri.adv no Instagram.



